OMISSÃO

Trump, Netanyahu, Putin, Khamenei, Zelensky, guerras, Estreito de Ormuz, Teerã, Ucrânia, Nova York, Londres, Lula, Bolsonaro, Alcolumbre, Hugo Mota, show de Shakira no Rio... Tudo isso(e muito mais) é o que mais aparece na televisão e na internet. Tudo isso me passa a impressão de que uma enorme quantidade de informação sobre políticos e fatos tão distantes do Piauí supera em muito o que devemos refletir sobre o que está acontecendo neste estado e nesta capital. Há pessoas aqui que não assistem aos telejornais locais, não leem nosso único jornal que ainda sai em edição impressa, O Dia, nem escutam nossas rádios. Estão muito ocupadas com Netflix, YouTube, Spotify, Uol, Instagram e por aí vai.

Mas o jornal O Dia e outros meios de comunicação daqui noticiaram a condenação da vereadora Tatiana Medeiros a 19 anos de cadeia por compra de votos e por liderar uma organização criminosa voltada para o aliciamento de eleitores. Ela, a vereadora, está afastada de sua função parlamentar desde 03/04/2025, quando foi presa, mas atualmente cumpre a pena em seu domicílio. Continua, porém, recebendo o salário de 24.759,24 por mês, inclusive o 13º.

Esclareço que não conheço a vereadora, não votei nela, nada tenho pessoalmente contra ela, não conheço projeto seu que tenha melhorado significativamente a vida dos teresinenses.

Agora, alguns fatos merecem comentários. O primeiro é que considero uma iniquidade uma pessoa, seja ela quem for, receber salário sem trabalhar. Sei que as casas legislativas brasileiras estão cheias de gente assim. A vereadora não é a única. Neste país com tanta desigualdade social, com tanta gente trabalhando duro e recebendo um salário de fome, é vergonhoso que alguns recebam sem nem sequer dar um prego numa barra de sabão.

O segundo fato é a estranha omissão da Câmara Municipal de Teresina de não cassar o mandato da vereadora e de mantê-la na folha de pagamento da casa. Mas eu pergunto: a condenação e a prisão não a tornam eticamente incompatível com sua função parlamentar? O presidente da CMT tem afirmado que, enquanto o processo contra a vereadora não for concluído chegando ao STF e tendo o devido desfecho, o parlamento municipal nada pode fazer. Ele diz ainda que não foi a CMT que a afastou.

Mas esse caso da Tatiana Medeiros lembra o caso do vereador Djalma Filho que, acusado de ser o mandante do assassinato do jornalista Donizetti Adalto, foi cassado pela Câmara Municipal em 1998 e perdeu o mandato. A absolvição de Djalma Filho, depois de muitos recursos e adiamentos, só ocorreu em 2022. Ou seja, 24 anos após a acusação. O que teria acontecido se a CMT na época tivesse ido esperar o pronunciamento final do judiciário? A CMT cometeu uma injustiça? É uma injustiça cassar um parlamentar que esteja envolvido em crimes graves? Afinal, não é mais importante que nossos parlamentares tenham um reputação ilibada? Será que é correto a atual CMT esperar 20 anos ou mais para só então se pronunciar sobre o caso da vereadora? Faz sentido isso? Pelo raciocínio do presidente da CMT, é o que ele quer que aconteça.

O terceiro e último fato a ser comentado é a omissão de grande parte dos teresinenses, talvez mais preocupados com Netflix, YouTube, Trump, Khamenei e o Estreito de Ormuz. No meio literário piauiense, não tenho conhecimento de que algum poeta ou ficcionista tenham criado esteticamente algum texto comentando o caso da vereadora. É claro que a representação da realidade social no sentido de combater injustiças não é, necessariamente, um parâmetro para atestar o valor estético de uma obra literária. Mas é isso mesmo. Não é todo dia que surge um narrador corajoso como Fontes Ibiapina, que denunciou os incêndios criminosos em Teresina. Mas a omissão é muito pior, pois iguala os autores de hoje aos parnasianos, que, há cem anos, foram tão ridiculamente condenados como omissos pelos modernistas. Pobres parnasianos! Nunca imaginaram que em 2026 haveria tantos textos, no conteúdo, parecidos com seus sonetos.