A SEDA DO TEMPO E O FEITIÇO DA TERRA EM HUGO NAPOLEÃO DO REGO NETO - CRÔNICA DE DIEGO MENDES SOUSA
Por Diego Mendes Sousa Em: 08/07/2026, às 18H35
A SEDA DO TEMPO E O FEITIÇO DA TERRA
Por Diego Mendes Sousa
Dizem que o destino brinca com as coordenadas geográficas para costurar trajetórias improváveis. Quem olhasse para o mapa no dia 31 de outubro de 1943 e apontasse para a fria e chuvosa cidade de Portland, no estado americano do Oregon, dificilmente imaginaria que ali nasceria um dos corações mais genuinamente piauienses da política brasileira.
Hugo Napoleão do Rego Neto veio ao mundo com os pés no hemisfério norte, todavia com a alma irremediavelmente batizada pelo sol do Piauí.
Filho da diplomacia, Hugo Napoleão trazia no sobrenome o peso e a honra de uma dinastia jurídica e política. Carregar o nome do avô era ao mesmo tempo, um porto seguro de pertencimento e um desafio de identidade.
O político que frequentava as sessões do Instituto dos Advogados Brasileiros ainda menino, fascinado pelo vernáculo e pelos ritos do Direito, aprendeu cedo que as palavras têm o poder de erguer pontes — ou de cavar abismos, como certa feita escreveu Albert Camus. Hugo escolheu erguer pontes. A juventude no Rio de Janeiro e os bancos da PUC moldaram o advogado refinado.
Como poeta, sei que o chamado da terra ancestral sempre fala mais alto. O Piauí, com as suas paisagens vastas, exóticas, e o seu povo de resiliência mítica, não era apenas um estado na cartografia para Hugo Napoleão; era uma jornada a ser cumprida. Na tribuna, como Deputado Federal, no gabinete, como Ministro de Estado, na cadeira de Governador do Piauí por duas vezes ou nos tapetes azuis do Senado Federal, Hugo transitava com a mesma elegância de quem discute a alta erudição literária na Academia Piauiense de Letras ou na Academia Brasiliense de Letras, onde é confrade do imortal José Sarney e do emérito poeta e intelectual Anderson Braga Horta, prêmio jabuti de poesia.
Sua trajetória confunde-se com os capítulos mais vibrantes do Brasil contemporâneo, costurou os retalhos de um país que se redescobria democrático. Foi o jovem causídico que assumiu a imensa responsabilidade de ser advogado de Juscelino Kubitschek — uma memória que mais tarde transformou em literatura viva. Transitou pelos ministérios da Educação, da Cultura e das Comunicações.
Hugo Napoleão hoje folheia um livro de memórias em andamento, cujo título confessa a sua própria travessia: O Parnaíba tem feitiço - a vida de um piauiense (2026). Na crônica de sua vida, o menino nascido nos Estados Unidos descobriu que o verdadeiro endereço de um homem não é o lugar onde ele nasce, porém, o terral que ele escolhe para amar, servir e transformar. Das terras americanas do norte ao calor do Piauí, Hugo Napoleão fez da sua história um testemunho de que política, educação, cultura e nobreza de gestos andam de mãos dadas quando guiadas pela vocação.
Quem conhece a história de Hugo Napoleão compreende que a política, quando se faz poesia vívida, torna-se um ato de devoção. Em suas páginas autobiográficas, o feitiço do Piauí não é superstição; é a explicação exata para uma vida inteira dedicada ao povo piauiense.
Hugo Napoleão provou que o homem pode percorrer o mundo e conquistar os mais deslumbrantes horizontes, no entanto, o seu autêntico lar será sempre o lugar onde a alma escolhe fincar suas raízes mais profundas: o Piauí em toda a sua grandeza.
Por Diego Mendes Sousa, servidor público federal, advogado e escritor.

