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Todos os processos da natureza decorrem igualmente em todos os sistemas inerciais de referência.
Primeiro Postulado da Teoria da Relatividade
Na penumbra de uma sala, um homem descansa, sentado em uma confortável poltrona. Seus olhos estão fechados, sua respiração é lenta. No entanto, ele não dorme. Apenas escuta.
Uma mosca, voando há algum tempo, vê – como só as moscas são capazes de ver – um corpo que lhe chama a atenção. Ele é negro, plano e muito brilhante. Ranhuras tomam conta de toda a sua superfície. A atração sentida é tão grande que, em poucos segundos, ela pousa sobre ele.
O homem sai do seu devaneio. É invadido pela estranha sensação de estar acompanhado. Abre os olhos e procura. Nada. Continua sozinho. Com um suspiro volta a fechar os olhos. Concentra-se, novamente, apenas em ouvir.
Sobre a superfície negra e plana a mosca esfrega as suas patinhas. Seu universo restringe-se aquele ato. Nada mais importa. Esfregando patinha contra patinha sabe, ou melhor, sente que tudo está bem.
O som se interrompe. Aborrecido, o homem volta a abrir os olhos. Virando a cabeça, olha para mesa ao lado de sua poltrona. Sobre ela, uma caixa. Sobre a caixa move-se um disco negro. Sobre o disco, uma agulha arranha a superfície negra, produzindo um ruído desagradável. E ali, perto da agulha, ele vê uma mosca esfregando, despreocupadamente, as suas patinhas.
Concentrada, a mosca nada percebe. Aliás, para ela tudo permanece o mesmo. Está segura. A superfície imóvel sobre a qual se encontra continua sendo o que sempre foi: uma superfície negra, plana e brilhante. Aquele é o seu universo. Conhecido e tranquilo.
Pensativo, o homem olha para a mosca. Ela gira acompanhando o movimento do disco. “Será que ela nota o seu próprio movimento?”, pergunta-se o homem. Para ele, tudo se move. Entretanto, como será para a mosca?
Alheia aos pensamentos do homem, a mosca continua a esfregar as patinhas.
O homem afugenta a mosca com um gesto indolente. Posicionando a agulha na beira do disco, ele volta a se recostar na poltrona. Seus olhos fecham-se lentamente. Na sala ouve-se apenas o som de uma sinfonia.
A mosca, sem entender o que lhe havia acontecido, afasta-se da superfície negra e plana. Um sentimento de perda, difícil de explicar, a domina. Seu universo, tranquilo e seguro, simplesmente havia desaparecido por debaixo de suas patas. Que triste é a vida, pensa a mosca. E enquanto retoma seu vôo, escuta o lamento do corpo negro e brilhante despedindo-se dela.
* Publicado originalmente, em agosto de 2009, na revista eletrônica Argumento.net.