O labirinto borgeano de J. L. Rocha do Nascimento
Em: 16/01/2026, às 09H04
Gilvanni de Amorim
Ontologia do Ser é o livro de estreia do contista J. L. Rocha do Nascimento na poesia. De cara, o título já remete o leitor à Filosofia, tema predominante em toda a obra.
Baseado na Filosofia, o poeta reflete sobre si, o sentido da sua existência, e ilustra o pensamento com citações a filósofos (Heráclito, Heidegger, Hölderlin) e a escritores, como Jorge Luis Borges, cuja obra possui traços filosóficos.
A poética de J. L. guarda forte influência de Borges, na forma e no conteúdo: a criação do texto no limiar entre poesia e prosa, o real e o sonho, a angústia existencial do ser, a Identidade, o Duplo, o Eu múltiplo... Ideias recorrentes na obra do escritor argentino.
Fundamentada sobretudo no Conhecimento, a poesia de J. L. é rica de intertextos e dialoga com a Filosofia, a Mitologia Grega, a Religião, a Literatura e a Arte. O pensamento do poeta está sempre a fluir no mutante rio de Heráclito e a mergulhar no labirinto borgeano.
Como exemplo de intertextualidade, tomo o poema "Cantando Para a Lua":
"É noite / tenho que uivá-la / e como dói / dentro de mim / uivo para a lua / canto lúdico / último ganido". Estes versos dialogam com o título do romance de Antônio Torres: Um Cão Uivando Para a Lua. Note-se ainda a conexão de "e como dói" com o último verso do poema Confidência do Itabirano, de Carlos Drummond de Andrade: "Mas como dói!".
"Minhas veias abertas (...) / É que / estou sangrando / (há séculos estou sangrando)". Alusão, talvez no subconsciente do autor, à obra As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano.
/ "rio de minha aldeia". Menção ao poema O Rio da Minha Aldeia, de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa.
/ "e logo eu que / venho de longe (eu e esse olhar alhures) / e embora continue distante do último ancestral / carrego dentro de mim a amaríssima dor / e a vontade longínqua de abraçar minha alma". O encadeamento destes versos traz uma sensação, uma atmosfera, de certas passagens da literatura borgeana. Nele, há também um quê de Fernando Pessoa.
"Restou-me um consolo, ainda: / o de saber, / quem sabe, / se eu, como lobo, / terei sido menos lobo / que / o / Homem". Versos intrínsecos à célebre ideia de Thomas Hobbes: "O homem é o lobo do homem".
E assim se sucedem as metáforas, as referências, ao longo de toda a obra – uma imaginária biblioteca borgeana:
As deusas vingadoras, as Erínias. Prometeu. A deusa Palas Atena. Sísifo, "o senhor das tarefas inúteis", condenado a carregar eternamente morro acima a pesada pedra. (Mitologia Grega).
"No princípio foi o verbo e o verbo era sonhar" (poema Gênesis). " _Yo ví un_ meteoro fumegante tingindo o céu de cinza (...) / Eu vi um cão pestilento de _ojo_ azul arrastando sua pata / traseira sem forças para ganir e nesse momento eu pensei / talvez seja a hora de estocar comida", do poema Armagedom. (Religião/Bíblia).
"Quem sabe alguém me receba como o rei Latino a Ilioneu", personagens da Eneida, de Virgílio.
"Estou apenas no meio da jornada, / que é maior do que a imaginada por Dante" (Dante Alighieri, autor da Divina Comédia). "Sonhei que dormia como um justo / nos braços de Scheherazade", personagem narradora de As Mil e Uma Noites (Literatura Clássica).
Alusões ao verso do poema Pneumotórax, de Manuel Bandeira: "A vida inteira que podia ter sido e que não foi". Eu e Os Vários de Mim: "não sou eu e nem qualquer outro _que poderia ter sido_". Armagedom: "como quem _pide perdón_ pelo _que podia ter sido e não foi_ ". (Literatura Modernista Brasileira).
No poema Pôr do Sol, "a bola de fogo descia lentamente ao som do Bolero de Ravel", de Maurice Ravel. (Música Clássica).
Citação em "A Melhor Ilusão" ao álbum Transa, de Caetano Veloso, e ao verso da canção Pais e Filhos, do Legião Urbana: "Oh John eu não esqueço como eram nossos pais". (Música Popular Brasileira).
Em resumo, na mesma linha do que diz o autor na apresentação, digo que Ontologia do Ser é a constante busca de si mesmo, do autoconhecimento e do sentido existencial da vida, refinada por múltiplas referências culturais, com ênfase nos símbolos borgeanos.
Ezra Pound classificou a Poesia em Melopeia, Logopeia e Fanopeia. Melopeia (som, melodia, ritmo, cadência, a música das palavras). Logopeia (conhecimento, ideia, discurso, mensagem, a reflexão do intelecto). Fanopeia (fotografia, imagem, o visual).
Na verdade, Pound apenas revestiu, com nova semântica, as duas principais e clássicas dimensões da Literatura: Forma e Conteúdo. E acresceu a cereja do bolo, a Fanopeia, que é a imagem, o desenho, que a poesia é capaz de formar no pensamento do leitor.
O texto poético de J. L. contém os três conceitos poundiano, com predominância da Logopeia. Sua poética tende a provocar um estranhamento, porque rompe com certa tradição da poesia universal, marcada por versos de linhas descontínuas e comumente independentes.
Em Ontologia do Ser, o autor preserva elementos da prosa e constrói o poema geralmente com versos longos, em que a quebra da linha pode se dar por uma conjunção, ou uma preposição, ou um pronome, ou um advérbio, ou um artigo, enfim, por um conectivo qualquer que a ligue à linha seguinte, para formar o verso.
Cabe destacar ainda o prefácio assinado pelo autor. As reflexões sobre poesia e prosa, sobre o significado da sua obra, revelam seu conhecimento literário e, com propriedade, justificam o texto poético. Mas, bom que se diga, a poesia de J. L. se justifica por si só.
A Poesia é a base de toda a Literatura. Há muito carrego a ideia de que o verdadeiro escritor, seja ficcionista ou cronista, é também poeta, mesmo que nunca tenha escrito um poema. E J. L. Rocha do Nascimento é um verdadeiro escritor, como atestam seus contos. Bastava isso para ser nominado poeta também; entretanto, ele foi mais longe, ao conceber esses conscientes poemas filosóficos.
Transcrevo, por fim, o poema "Eu e Os Vários de Mim" (Menção Honrosa no Prêmio Off Flip de Literatura 2022), que estampa a contracapa do livro e ilustra bem minhas colocações:
"Quantos há em mim, não saberei dizer, que somos vários. /
E este que vês com o coração aflito e os olhos esbraseados /
[veja como não tem fundo o pântano de dualidade no qual / ele se afunda; perceba que o olhar que lança é de quem não / pertence a lugar algum] /
não sou eu e nem qualquer outro que poderia ter sido e que / ainda me habita. /
Já me pertenceu até o dia em que pulou de dentro de mim / com o alívio de quem sai de um cativeiro. /
Sobre ele, que me deixou um vazio que nenhum dos outros / consegue preencher, perdi o controle".

