Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa

Reginaldo Miranda[1]

No vale do Paracati, vai situada a fazenda Bonita, que naquele ano não fazia jus ao nome. O verão estendido anunciava seca de estalar o barro. O vaqueiro Herculano pisava miúdo pelo pátio da casa. Entrou pela sala e foi até a cozinha, onde a mulher abanava o fogo para passar o café e fazer o beiju. Ele, depois de cortar um fumo do rolo pendurado na ponta de uma madeira e enrolá-lo em palha de milho com pontas aparadas a canivete, pegou na ponta da candeia por entre as trempes e, com o tição, acendeu o porronca. Voltou para o pátio, ensimesmado, pensando no que haveria de ser caso Deus não se condoesse e mandasse logo as chuvas. Seus pensamentos eram cortados pelo canto do galo, pelo grunhido de um leitão ou pelo berro de um animal que malhava nas adjacências.

Herculano era jovem, com menos de trinta anos de idade, casado há cinco e já com três meninos para criar. Tinha, pois, grande responsabilidade para sustentar a família, que ia crescendo aos poucos. Na fazenda, olhava o gado “de quatro uma”. Suas crias eram vendidas preferencialmente ao patrão, que morava em Jerumenha, ou a quem quisesse, em caso de recusa daquele. Porém, precisava de outros mantimentos para o sustento da casa. Um privilégio do vaqueiro era poder plantar nas terras da fazenda sem pagar renda ao patrão, como faziam outros lavradores. E ele sabia tirar proveito dessa pequena benesse: todo ano semeava a sua lavoura. Naquele ano não fora diferente. Fizera tudo certinho, como era costume: brocou a terra, queimou as coivaras e semeou os legumes. Porém, estava tudo diferente, amiudando-se os sinais de seca. Ele já pressentira o estio desde que falhara a experiência no Dia de Santa Luzia: o sal permanecera seco. Desde então, passou a observar a natureza, e os resultados lhe causavam desgosto: o juazeiro não segurou a carga nem trocou a folhagem; o cajuí foi fraco; o mandacaru não florou; o vento parado, nenhum redemoinho; não viu sinais de reprodução dos mocós; viu a formiga fazendo ninho na beirada do leito seco do riacho e o joão-de-barro com o ninho voltado para o Nascente. Até ali, era tudo muito desalentador.

Nisso, chamou-lhe a mulher para tomar o café-com-isca: café preto e beiju com ovo estalado no azeite de coco. Foi quando despertou de suas elucubrações. Apagou o porronca no adobe da casa e deixou a bagana enfiada em brecha existente entre os tijolos falhados, poderia ainda a ela recorrer para mais uma pitada. A comida descia seca, sem gosto, porque a preocupação não lhe deixava assentar as ideias nem sentir sabor. Sua vida agora era assuntar e pensar no que fazer.

Esse jeito do marido não escapava ao olhar atento da mulher, que, sem ele perceber, o observava de soslaio. Era dela também a mesma preocupação. Porém, não falava para não admoestá-lo ainda mais, porque sabia que ele sofria. Naquele dia, Elvira tomou uma decisão e foi à vizinha cidade de Bertolínia visitar a antiga patroa. Morara por mais de seis anos na casa de Dona Cotinha e Seu Dermeval, ajudando nos afazeres domésticos. Foi quando conhecera Herculano nos festejos da padroeira, no mês de agosto, ao som da sanfona de Xililico, que se queria Luiz Gonzaga. O namoro correu ligeiro e, na queima do festejo, o Padre Anchieta abençoou o casamento. Desde então pediram morada na Bonita, fazenda de uns parentes de Seu Dermeval, que moravam em Jerumenha.

Pois bem, chegando à cidade, foi Elvira diretamente para a casa da antiga patroa e, como sempre, foi bem recebida. Entre uma conversa e outra, executou o seu plano. Gozando da intimidade e confiança que possuía no seio daquela família cristã, aproveitou-se de um descuido para dirigir-se ao pequeno oratório da casa e lançar mão sobre uma imagem do taumaturgo Santo Antônio. Enrolando-a cuidadosamente nas toalhas que trouxera, colocou-a delicadamente em sua sacola e despediu-se amistosamente. Ao descer a calçada, ainda ouviu a senhora dizer:

— Volte sempre, minha filha.

No entanto, ela apressou o passo, agradecendo a Deus, a Santo Antônio de Pádua e à Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do lugar, por não ter sido descoberta em sua ação delituosa. Elvira era uma sertaneja jovem, de cerca de 25 anos de idade, temente a Deus e muito supersticiosa. Cresceu ouvindo histórias de secas, invernos irregulares e crendices populares. Assim, ao perceber os sinais de seca e as apreensões do marido, não tergiversou, trazendo à mente experiências vividas por sua família. Naquela manhã, ela agiu conforme o seu entendimento, chamando para si a solução do caso. Era impossível que sua família passasse fome ou fosse obrigada a abandonar o sertão. Tinha ela de agir conforme a ciência sertaneja. E assim fez, sem o conhecimento do marido, porque o segredo era a alma do negócio. Segundo lhe contara a falecida avó, se partilhasse o feito com alguém, tudo iria “de água abaixo”, nada daria certo porque o santo não operava para linguarudos.

Chegando em sua casinha de adobe coberta de palha, tratou Elvira de bem acomodar o santo numa mala de couro. E passou a observar o tempo. No entanto, transcorreu o dia todo e nada funcionou, apenas brilhando no céu um sol abrasador. Mas ela não duvidava das crendices de seu povo, para ela, seria questão de tempo para cair água no sertão da Bonita. E, de fato, não deu outra. No dia seguinte, à tarde, aumentou o calor. Tempo abafado. O sol irradiava com toda a potência, a quentura era tremenda, faltando amolecer o juízo de quem saía pelos caminhos. Embora anoitecesse, o calor não arredou.

Lá para as dez da noite, viu-se um relâmpago cortar o céu. Elvira pegou na asa da lamparina e correu à porta, alumiando o caminho. Não demorou para outro relâmpago rasgar o firmamento, seguido de um estrondoso trovão. O calor cessou, dando lugar a um vento amenizador. Herculano, esticando a cabeça pela janela, observava o tempo. Sua alma se abria. Elvira, sempre com a lamparina de querosene à mão, ia e vinha entre o quarto e a sala. Estava apreensiva e se achava responsável por aquela mudança do tempo. Deitaram-se na cama de couro, mas o sono não veio. Nas redes vizinhas, os meninos dormiam sem sobressalto.

Foi à meia-noite que a água começou a cair na Bonita. Chuva firme, segura, acompanhada por raios e trovões. No começo, foi somente alegria, mas, com o passar das horas, o que era motivo de contentamento transformou-se em pavor. Não demorou a aparecerem goteiras onde a palhada era mais antiga. Entrando a chuva pela madrugada, com trovões retumbantes que sacudiam o chão, as rezas mudaram de sentido. O que era pedido para chover passou a ser súplica para cessar. Enfim, Elvira confessou ao marido que furtara o santo e desmanchou-se em pranto e oração. O marido juntou-se a ela nas preocupações. Porém, não houve reza que fizesse o toró parar, entrando água pela casa e deixando o casal em desespero diante daquele dilúvio.

Diante da gravidade da situação, Elvira decidiu que ia devolver o santo, nem que fosse debaixo de tempestade. Herculano ainda tentou admoestá-la para que esperasse a estia. Porém, acreditava Elvira que aquela fúria do céu não cessaria enquanto o santo não fosse reposto. Com esse pensamento, pegou o santo enrolado e o pôs na sacola impermeável. E, cobrindo-se com uma toalha plástica de mesa, apressou o passo em rumo à cidade, enfrentando a sangria que caía das nuvens.

Ainda não rompera o dia em Bertolínia quando se ouviram repetidas batidas na porta de entrada da casa de Dona Cotinha. Ao abrir, a senhora reconheceu a voz de sua antiga criada. Era Elvira, em desespero. Entrou molhada, jogando-se aos pés da patroa e entregando-lhe o santo entre mil pedidos de desculpa. Disse-se arrependida, pois nunca pensara que a chuva viria com tamanha mão pesada. Acreditava ela ser a responsável pelo dilúvio que assolava a região.

Recebendo a imagem, Dona Cotinha ajudou-a a recolocá-la no oratório. E, enquanto tomavam um café quente, o barulho no telhado arrefeceu até virar silêncio. Abriu-se, então, aquela cerração mansa que marca o início do inverno. Elvira limpava o rosto, sem saber se o que sentia era o perdão divino ou apenas o fim natural da tormenta. Teria o taumaturgo freado as águas ao retornar ao seu posto, ou teria a nuvem simplesmente se esgotado sobre o sertão naquele exato minuto? O segredo ficou guardado entre os olhos de madeira do santo e a terra de Bertolínia, que amanhecia lavada, indiferente às razões do céu.

 

 


[1] Advogado e escritor. Contato: [email protected]