O dia em que o mundo foi feliz...

                                                              À memória  de Bertand Russell (1872-1970)

                              

Cunha e Silva Filho

             

              Alguém anunciou no dia anterior: “Amanhã será o  dia  mais feliz do mundo.”  E acrescentou: “Não será para uma só pessoa, para um  só país, será na verdade  para o mundo  inteiro.” A imprensa internacional, a nacional,  a estadual e a municipal, assim como  todos os  textos que se  escrevessem nesse dia  de paz absoluta, tudo  só relatava  boas ações,   até mesmo  os  congressos  sobre  meio-ambiente e as decisões da ONU e da OTAN  só tinham   palavras para  declararem  um estado  de perfeita  paz universal, concreta e líquida.  

                Na África, não há mais fome nem guerras, nem ditaduras, nem golpes. É paz, é  paz é paz... Israel e os palestinos se tornam irmãos na concórdia sobre direitos de terra e divisão territorial.

               As guerras, as revoltas, o Ocidente  e o Oriente  se davam as mãos. Acabavam-se as guerras em várias partes do mundo,  sucumbiria  o  terrorismo  internacional,  As ideologias   mais conhecidas e antípodas, capitalismo e comunismo,  chegavam a um acordo  de  compreensão mútua e  de entendimento  de diferenças. O ditadores, como num passe de  mágica,  iam a  público anunciar  o cessar-fogo definitivo.  As manchetes só falavam de  ocorrências  alegres, as rádios  só diziam  notícias  alvissareiras, as tevês só mostravam  fatos  heroicos.   As ruas, os bairros,  as cidades,  os países todos voltados para um  único  propósito:   a ideia de felicidade  potencializada,  concretizada.

O Vaticano, lá da  sacada  papal, Urbi  et Orbi, rimbombava, pela voz dos Pastor-Mor: “Enfim,  hoje,  povos  da Terra, estamos  em perfeita   paz, a paz tão  anelada  por todos os homens de boa  vontade está em vossas mãos amadas. “Pax in Terra.

               A China,  a Rússia,  o Irã irmanam-se às nações   democráticas numa inacreditável   mudança  de atitudes político-ideológicas. Até os EUA  foram os primeiros  a  afirmarem universalmente:  “Todas as armas  nucleares de que dispomos serão  destruídas hoje com toda a  pompa de que gostam  os americanos  em cerimônias  especiais  da nação. Milagre dos milagres. Guantánamo  é desativada. Cuba  liberta todos os seus presos  políticos e chama de  volta os cubanos  dissidentes: “Venham, irmãos da mesma   pátria,  não percam  o dia de hoje.  Todos estão  anistiados.”

            Pessoas  houve  que atribuíam essa  mudança à volta de Cristo, não à maneira  fatídica para o Seu regresso    à Terra tão anunciada há muitos e muitos    séculos no Novo Testamento e, de certa foram, mudança essa   tratada como  assunto  num livrinho melancólico, algo profético, Aconteceu Entre 2000 e 3000 (Rio de Janeiro: Livro Espiritualista, 1966 32 p.),  do filósofo Huberto Rohden (1893-1981,) devido  às imperfeições e maldades dos homens  no  planeta  Terra.  para aqui  reinar  eternamente  em clima  de  paz  e harmonia  entre  os seres humanos.

Os grandes males da Natureza,  os acts  of God sumiriam de vez. As cidades  se livravam  dos criminosos dos  acidentes  diversos,  dos estupros,  dos crimes hediondos,  dos desamores,  das incompreensões  entre os homens,  dos  individualismos   exacerbados,  das  hipocrisias,  das máscaras  sociais, a família  unida  e  coesa.

Era o fim da era da competitividade  desleal e  ególatra,   das corrupções    tanto   públicas quanto  privadas.  As Bolsas de Valores fechavam as portas com o seguinte aviso: “É proibido especular,  abaixo os investimentos – os idolatrados  deuses  de barro dos multimilionários de todos os continentes!”

Todos os conflitos  da União Europeia  seriam  solucionados, sem prejuízo para o conjunto de seus  países. Não existiria  mais razão para o grupo “Ocupem a Wall Street,” uma vez que suas reivindicações  foram  atendidas. A palavra  greve deixou de ter sentido,  visto que  todos  os conflitos  salariais  foram também  sanados  entre governos e funcionários, ou entre  empresários e  operários.

Um dia  feliz no mundo no qual os velhos  seriam  respeitados  e  trabalhariam,   se quisessem,  até  longos  anos  de velhice. Não haveria  discriminação por parte dos jovens, nem deboches. Todos os velhos seriam    acatados,  bem tratados  e seriam fontes inesgotáveis  de   sabedoria e de experiência  valiosa.

Sumiriam  os desafetos,  os inimigos cordiais. Ao contrário,  instaurar-se-ia  uma espécie de paraíso pós-moderno nos vários  segmentos  da vida  e em suas   múltiplas manifestações  artísticas. A inveja, - esse grande mal  do ser  humano – seria  desterrada  para  sempre dos corações  dos homens.

           Um dia feliz num mundo sem  prisões,  nem torturas,  nem matanças, s=nem problemas. Universo  real  sob a égide da bondade  e  do amor. Mundo  em uníssono,  sem  as grandes mazelas  do convívio social.   

Todas as criaturas  sofreriam  uma metamorfose simultânea, ubíqua e atemporal:  a sociedade, irmanada,   apagaria   de vez  com  os  valores  negativos do racismo das  ideias  encarnadas  pelas  psicopatias  sociais contra etnias  diferentes,  cor da  pele diferente,  situação  sociais  diferentes,  discriminação de opções  sexuais,  e, no país  chamado  Brasil,   seriam  de vez repudiadas  das  consciências doentias  as discriminações  contra  os  naturais  dos estados nordestinos. Todas essas aberrações de que o ser humano  era capaz  de  cometer  seriam execradas  definitivamente.

Se fosse fazer uma comparação, este  nosso  mundo,  maltratado  e  desrespeitado sob  tantos ângulos,   me  lembraria  aquele  “muro de um conto  de Oscar Wilde (1854-1900) de título  “The selfish  giant”, no qual   a felicidade e a bem-aventurança  dependiam   de que um  “muro” -  metáfora da transição  do Mal para o  Bem,  fosse  demolido  pelo gigante  egoísta.

Só com a  derrubada do muro, nasceria  um jardim  de  flores   desabrochadas  e de  crianças  felizes que  nele  poderiam,  quando  quisessem,    passear e viver  a felicidade  infantil   verdadeira e pura. A metamorfose para a felicidade, a mudança do estado da subjetividade  individualista do  personagem  gigante também a ele se estenderia.  Ou seja,  houve aí um processo de desalinenação do personagem   central que só  aconteceria caso este  fosse despertado  daquele estado  de  alienação no qual   vivia no início da  narrativa.  

Contudo,  é uma pena, é de lamentar que a voz condutora  deste  texto a que  chamei   de “Alguém ,“não passou  de um  fugaz  sonho   que este  cronista teve na madrugada de hoje. Só são  verdadeiras  as concepções teórico-literárias e bem assim as alusões literárias nele contidas. O resto  não passa  efetivamente de  uma utopia  de um sonho, não obstante  alguns  valores  nele encerrados   não sejam  mera  coincidência.

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