Imagem de um Rádio Canarinho ABC Voz de Ouro
Imagem de um Rádio Canarinho ABC Voz de Ouro

Reginaldo Miranda[1]

Meu avô, Dermeval Rocha, foi um dos últimos coronéis da política sertaneja, embora não envergasse o título oficialmente, era assim reconhecido pelo povo. Nascido em agosto de 1892, no seio de uma família do patriarcado rural gurgueiano, vivenciou a vida pública desde a mocidade, seguindo os passos de ancestrais que lideravam os termos de Jerumenha e Aparecida. Foi tabelião, exator estadual, delegado de polícia, vereador e prefeito de Bertolínia, dentre outros cargos exercidos. Quando nasci, ele já era um septuagenário, mas sua autoridade permanecia intacta, exercida a partir de uma escrivaninha que ficava em seu gabinete de trabalho.

Sobre aquele móvel de madeira, repousava um rádio grande, de um amarelado gasto pelo tempo: um ABC Canarinho, “A Voz de Ouro”, que rotineiramente rompia o silêncio do ambiente. Naquela década de setenta, vovô e o rádio estavam em perfeita simbiose. Enquanto o Brasil se rendia ao fascínio das imagens da televisão, ele a ela não se adaptou. Para um homem que vinha de outra era, a informação precisava ser ouvida e processada na quietude.

O ritual era diário. Vovô sentava-se em sua cadeira preguiçosa ao lado da escrivaninha e girava o botão. Era preciso paciência; as válvulas, como pulmões de vidro, precisavam aquecer-se em um brilho secreto antes que a primeira voz alcançasse os sertões do Piauí. Quando o som finalmente se estabilizava, o ar da sala se espessava. Pela “Voz do Brasil”, ele se atualizava sobre a capital federal, monitorando a Presidência e a atuação do Parlamento. No nível estadual, a sintonia era cativa na Difusora e no programa “Revista Pioneira”, da outra emissora, que noticiavam a movimentação do governador e dos deputados.

Vovô ouvia tudo em silêncio absoluto, interrompido apenas por comentários concomitantes aos fatos mais marcantes. Eram frases breves, sentenças secas de quem conhecia as engrenagens do poder. Para o seu grupo em Bertolínia, a referência que antes fora Antônio dos Santos Rocha passara a ser Wilson Parente. Vovô acompanhava cada discurso, cada verba anunciada, validando a liderança de seus aliados com um aceno de cabeça ou um rascunho imediato.

A notícia ouvida no rádio frequentemente se materializava em papel. Mal o locutor se despedia, vovô já redigia telegramas de agradecimento ou cobrança. Naquelas gavetas, onde anos depois pude compulsar documentos, repousavam telegramas dos pessedistas Juscelino Kubitschek, Leônidas Melo e outros nomes que moldaram o país. O rádio trazia a notícia; a escrivaninha de vovô o sentido.

Mas o rádio só cumpria seu destino completo aos sábados. Era o dia em que a velha casa perdia sua quietude familiar, se é que a tinha. Correligionários, compadres e afilhados chegavam à cidade para a feira, vindos de rincões distantes do Gurgueia, Prata, Esfolado e outras ribeiras, buscando o “despacho” do chefe. Vovô, com o rádio agora desligado, mas ainda quente, explicava o mundo, repartindo a informação como quem reparte o pão, com a autoridade de quem tinha a informação fresca e o documento guardado na gaveta. Ele era o tradutor oficial: o que era ruído e chiado nas ondas curtas tornava-se palavra clara e direção política na voz dele. Se o rádio falara de uma nova lei ou de um movimento partidário, ele traduzia aquilo para a realidade do Gurgueia. — "A coisa em Teresina está assim..." — e os correligionários ouviam como se ouvissem o próprio rádio, mas com a vantagem de poderem tirar as dúvidas. Dali, entre um café e outro, resolviam-se problemas de polícia, justiça e saúde.

Vovô faleceu em 1982, aos 90 anos, no limiar de uma nova era política. O ABC Canarinho silenciou, mas a frequência daquela lição ainda ressoa. Eu, criança, observava aquele fluxo: a notícia entrava pelo rádio, era decantada pelo vovô naquelas audições solitárias da semana, e no sábado saía em forma de orientação para os amigos do interior. O rádio ligava o Coronel ao mundo; o Coronel ligava Bertolínia ao futuro. Presenciar aquela engrenagem funcionando: o rádio trazendo a voz do poder e o vovô transformando essa voz em serviço para os seus, foi um aprendizado que moldou minha percepção de que a política, quando feita com seriedade, é um exercício de cuidado com o próximo.

 


[1] Membro efetivo da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Contato: [email protected]