[WASHINGTON RAMOS]                                              

     Agora vem esta moça aqui na Casa de Zabelê e quer que minha história seja a base de um tal de TCC, que ela tem que entregar na próxima semana para a professora dela. Só se forma se entregar. Disseram pra ela que eu gosto de escrever. O nome da moça é Mariângela. Não sei o nome da professora.

     A Mariângela pediu pra mim escrever de qualquer jeito. Mas não vou escrever de qualquer jeito, não. Dona Célia me ensinou que na escrita a gente tem que caprichar na caligrafia, na limpeza, passando o texto a limpo, e nas ideias. Até os oito anos de idade, fiquei bolando de casa em casa com meu pai e minha mãe, que era empregada doméstica, mas sonhava em ser rica, pensava em viajar para uma cidade grande. Ela nem sempre me tratava bem. Eu sentia que era um problema pra ela. Aos nove, ela me abandonou num posto de gasolina na BR entre Altos e Campo Maior. Fui no banheiro, mas estava ocupado e tive que correr pro mato para me aliviar. Quando voltei, me disseram que ela tinha ido embora com o motorista de uma carreta. Meu pai morreu quando eu tinha seis anos de idade. Ele e dona Célia foram pessoas que me trataram com gentileza desinteressada, e algumas professoras também. Ah, sim, e as sobrinhas de dona Célia também. Foi meu pai que me alfabetizou à luz de velas, porque o pessoal da casa onde a gente estava arranchado lá no fundo do quintal não deixava a gente acender a luz. Me lembro dele, de suas mãos grossas e ásperas como o tronco de um pau-d’arco. Eram calejadas por causa de seu trabalho como ajudante de pedreiro. Ele ficava o dia todo debaixo do sol forte, fazendo traços, carregando tijolos, subindo escada com a lata de massa nas costas. Mas de noite, com a cartilha de ABC na mão, me chamava: “Vamos, filha, vou lhe ensinar.” Eu via que ele estava muito cansado. Mas sua vontade de me alfabetizar era maior. Se um dia eu escrever um livro, é a ele que vou dedicar. Foi um desconhecido neste mundo de exibicionismo e aparências, mas foi meu herói. Me ensinou coisas importantes. Dizia que eu era a dona e rainha de meu corpo, que eu não deixasse ninguém tocar nas intimidades de meu corpo.

     Eu comecei a chorar quando vi que minha mãe tinha me abandonado. Sempre fui bonitinha com meu corpo magro mas cheio. Nunca fui magra esquelética. Alguns homens já olhavam pra mim com malícia quando parou um carro e dele desceram três moças. Uma perguntou por que eu estava chorando. Eu disse que estava sozinha no mundo, que minha mãe tinha me abandonado. Ela me convidou para ir com elas. Elas foram merendar e me convidaram. Me deram um pastel e guaraná, que comi com muito gosto, pois estava em jejum.

     Entrei no carro com elas três e viemos para Teresina. Me deixaram na casa de uma tia delas, a dona Célia, no bairro Vermelha. Me botaram pra estudar no Grupo Escolar Gabriel Ferreira, que fica em frente da Igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Eu tinha estudado aos trancos e barrancos. Depois que me alfabetizou, meu pai me botou na aula particular de uma professora para me desarnar. Fiquei durante dois meses só. Ele não pôde continuar pagando. Em seguida fui para a escola. Sempre tive facilidade de aprender. Mas eu, mamãe e papai, a gente mudava muito de casa, a maioria das vezes morando de favor, aguentando humilhação. Isso atrapalhou muito meus estudos. Mas, no Gabriel Ferreira, conseguiram que eu entrasse na segunda série primária. Na verdade, foi dona Célia que conseguiu. Ela era professora lá. Eu morava na casa dela, lavava louças e roupas, varria a casa.

     Tudo ia muito bem. Mas eu fiquei no Gabriel só até a quarta série. Depois que o Jeová, sobrinho de dona Célia, veio morar com a gente, minha vida piorou muito. Esse cara dava em cima de mim, tentava me agarrar, eu me afastava e disse para dona Célia. Ela brigou com ele e disse que, se ele continuasse a me perturbar, ela expulsaria ele da casa dela. Ela falou isso com muita raiva. Ele ficou quieto, e vida voltou ao normal.

     Mas, uns três meses depois, dona Célia teve que viajar para Monsenhor Gil. Conseguiu uma licença no Gabriel e partiu. Foi cuidar da mãe dela, que estava inválida numa cama. A outra filha que cuidava da velha casou e iria morar Jaicós. Marido não aceitou levar a velha doente. As duas irmãs de dona Célia também não quiseram ir.

     Ficamos em casa apenas eu, o marido de dona Célia, que é um bêbado e vive mais na rua, o Jeová, e as duas irmãs de dona Célia, carolas de igreja, moças velhas e feias. O Jeová recomeçou os ataques contra mim e, vendo que eu não cedia, passou a me humilhar, a me xingar e a ameaçar me bater. De noite, eu dormia no quarto com as duas irmãs de dona Célia, dois trastes que a única coisa que faziam era me aconselhar a rezar. Quando elas saíam, o que era raro, eu ia junto.

     Um dia os pais do Jeová apareceram e deram pra ele um carro de presente. Ele me convidava para passear. Eu recusava. Na última recusa, ele saiu feito doido de casa, dirigindo em alta velocidade. Na avenida Barão de Gurgueia, ali na Baixa do Chicão, ele perdeu o controle do carro e se acidentou. Passou um mês no hospital e saiu de lá numa cadeira de rodas. Mesmo assim, ele continuou seus ataques contra mim, me chamava de vaca, de vadia, atirava coisas em mim.

     Mas um dia, já não aguentando mais, preparei minha libertação. Fiz um suco de limão azedo com pimenta malagueta e coloquei na mesa da cozinha. O Jeová entrou e tentou levantar meu vestido. "Tá bom, eu deixo, mas primeiro toma este suco, está gostoso", falei. Quando ele ia estendendo a mão para pegar, eu fui mais rápida e joguei o suco nos olhos dele. Depois empurrei a cadeira de rodas contra a cristaleira com toda minha força. O barulho de louça e vidro quebrados foi enorme. Ele começou a sangrar em várias partes do corpo. Eu saí correndo e ouvindo os gritos de dor dele. Fui direto para esta Casa de Zabelê, onde estou até hoje. Às vezes tenho remorsos quando me lembro de dona Célia, um pessoa excelente. O maldito do Jeová morreu no mesmo dia.