Meu avô, a vitrola e as serenatas vespertinas
Por Reginaldo Miranda Em: 18/07/2026, às 08H17
Reginaldo Miranda[1]
Dia desses, recordei aqui o hábito de meu saudoso avô, Dermeval Rocha, de decifrar as notícias do mundo através das ondas curtas de seu rádio de válvulas, traduzindo os rumos da política para os correligionários que vinham das ribeiras do Prata e Gurgueia. Mas a alma daquela velha casa de Bertolínia não era feita apenas do silêncio concentrado das decisões políticas; ela também vibrava em outra frequência. Havia nela um compasso mais doce, gravado em sulcos de cera.
Nas décadas de cinquenta e sessenta, o centro de gravidade daquelas tardes em Bertolínia era uma vitrola. Meu avô sentava-se em sua confortável cadeira preguiçosa, tendo o aparelho ao lado como um companheiro de confidências. Ao redor dele, a calçada se enchia de um público espontâneo: crianças de pés descalços e adultos que vinham, sem pressa, compartilhar daquele bom gosto musical que ele distribuía com generosidade.
Não sei precisar quantos discos ele chegou a possuir no auge de suas audições, mas, ao vasculhar seu espólio nos anos oitenta, ainda localizei quase trinta deles, uns vinte e sete ou vinte e nove sobreviventes daquela era, pesados e delicados. Sob o chiado característico da agulha, a voz telúrica de Luiz Gonzaga desenhava o sertão, enquanto Francisco Alves, Orlando Silva, Ângela Maria, Maysa e, mais tarde, a bossa de João Gilberto, traziam a modernidade litorânea para o interior do Piauí. Ouvir música ali era um ato comunitário.
Em 1955, ao assumir a prefeitura municipal, vovô decidiu que aquela harmonia não podia ficar restrita às dependências de sua casa. Como a residência familiar e o prédio da prefeitura eram contíguos, ele mandou fincar um alto mastro de madeira nos arredores. No topo, instalou um alto-falante.
Nascia ali o serviço de som que mudaria o cotidiano de Bertolínia. Nos intervalos das melodias, vovô utilizava o microfone para anunciar os atos da gestão e os assuntos de interesse público. Era a sua forma de governar: sem palanque hostil, mas com diálogo direto, envelopado em melodia. Naquele terreno da política feita com sensibilidade, ele era imbatível.
O engenheiro Antenor Rocha Filho, hoje octogenário, resgata na memória aquele tempo de menino com os olhos brilhando:
— "Como me lembro dele? Das serenatas vespertinas ampliadas num microfone hasteado num alto mastro. Bons tempos!"
Para que o milagre diário acontecesse, vovô contava com ajudantes. Odimar Rocha, também octogenário, recorda com saudade o orgulho que sentia na adolescência quando recebia a missão de conduzir as músicas, manuseando os discos com o cuidado que se dedica a um objeto sagrado.
Os discos de cera há muito silenciaram e o poste de madeira já não ostenta a corneta de metal. Contudo, quem fecha os olhos ao entardecer em Bertolínia, cidade que, embora situada no vale do Gurgueia, debruça-se mansamente às margens do rio Esfolado, ainda consegue ouvir, no sopro do vento que vem do rio balançando as palhas da palmeira de buriti, o eco daquelas serenatas vespertinas. Uma época em que a política se anunciava com música, e o coração de um líder batia no mesmo ritmo do seu povo.
[1] Membro efetivo da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Foi vice-prefeito, candidato a prefeito, fundador de jornal e presidente de agremiações partidárias em Bertolínia. Contato: [email protected]

