Lícia Mayra
Lícia Mayra

Denise Veras

“Me leia enquanto estou quente.”

 

Vou iniciar a entrevista de hoje parafraseando Clarice Lispector: “De vez em quando a natureza faz um ser de beleza perfeita e harmoniosa”. Essa frase diz exatamente o que quero, porque Lícia Mayra é o exemplo de uma criatura linda em diversos aspectos. Sua pele branca contrasta com seus cachos vermelhos, e seus olhos verdes transmitem todo o mistério que encontramos em suas obras. Uma autora que conheci há pouco tempo, mas que já me cativou pela simpatia e pelo vigor da escrita. Lícia nos apresenta um trabalho forte, que para alguns pode não ser palatável. A literatura tem dessas coisas.

 

Primeiro eu quero saber de que cidade você é.

Nasci em Valença, mas me criei em Picos.

A sua aparência já interferiu em sua carreira? Seja de forma positiva ou negativa.

A minha aparência engana, pois as pessoas me associam a uma pureza e inocência que contrasta com o que escrevo. Por outro lado, já cheguei a ser sexualizada quando por causa dos contos eróticos, principalmente quando estava com os cabelos ruivos.

Você diz escrever para se livrar do tédio, mas em seus textos sinto excessos (de dor, memória e lucidez). Me deu a impressão de que seu tédio é externo, mas que dentro da sua cabecinha há mito caos. O meu entendimento é correto? O que eu disse faz sentido para você?

Agora você falou como a minha psicóloga (risos). Sim, você está correta, há um caos interno, às vezes é um inferno estar nesta cabeça. Para aplacar as tormentas, escrevo poesia. Já para a prosa, que é meu lugar de conforto, preciso de algum nível de mansidão. Quando a cabeça não está dando voltas sobre si mesma e é possível olhar para o mundo externo e interno com lucidez, os personagens surgem.

Você faz parte do Coletivo Escreviventes. Fale um pouco desse projeto.

O Coletivo Escreviventes é uma rede de escritoras de todo o Brasil que se apoiam mutuamente. Participo desde o início, em 2021, quando a capixaba Carla Guerson convidou cerca de dez mulheres pelo Instagram para fazer desafios semanais de escrita. O Coletivo nasceu do desejo de quebrar a solidão do fazer literário, e ao longo dos anos cresceu muito, com centenas de participantes. Hoje atua em diversas frentes: oficinas de escrita, organização de antologias, clube de leitura, parcerias com revistas, mobilização para participação em eventos literários, dentre outras atividades. É, sobretudo, um espaço virtual onde mulheres podem trocar experiências sobre as delícias e dissabores da escrita. Para mim, que moro no interior do Piauí, foi essencial para quebrar o isolamento em que me sentia e me conectar com outras escritoras.

Penso que só consigo escrever sobre traumas porque outras mulheres já tiveram a coragem de fazê-lo antes de mim. A mim me tocou sobremaneira “O acontecimento”, de Ernaux. Existe algo que você só consegue escrever porque outras mulheres já o fizeram?

Só escrevemos porque outras antes de nós tiveram essa coragem. Me encanta, por exemplo, a história de Luíza Amélia, que também nasceu no interior do Piauí, como eu, embora mais ao norte, em Piracuruca, e em meados do século XIX teve a coragem de expor suas insatisfações enquanto mulher através da poesia. Adolescente, fui fortemente marcada pelo estilo trágico de Emily Brontë, que publicou seu arrebatador “O morro dos ventos uivantes” pela primeira vez sob pseudônimo masculino para lidar com o preconceito da época, e foi com ela que aprendi a não temer a feiúra dos personagens, a jogar luz sobre o que há de pior em suas personalidades. Já meu primeiro livro da fase adulta, Rogai por nós, só existe pelo incentivo e iniciativa da escritora Katherine Salles, uma querida autora, com quem compartilho a idade e muitas referências de quem cresceu nos anos 2000, com quem tive o prazer de, pela primeira vez, ingressar em uma rede de escritoras. A coragem para publicar vem muito dos ensinamentos da cearense Vanessa Passos, autora de “A filha primitiva”, que durante a pandemia assessorava escritoras iniciantes gratuitamente e que foi responsável por criar elos entre várias de nós. Há ainda muitas outras mulheres que eu poderia citar, como a própria Carla Guerson, fundadora do coletivo Escreviventes, e Yvonne Miller, alemã-brasileira que me apresentou ao coletivo de cronistas Tear de Histórias. A minha escrita realmente deu uma guinada após ter contato com outras escritoras. Existe um fazer literário antes e depois dos coletivos. Quando o processo criativo se tornou menos solitário, me senti mais estimulada, mais viva, e escrever, que sempre foi divertido, tornou-se algo ainda mais mágico. Os meus escritos da fase adulta existem graças a elas.

Que autor ou autora te marcou fundo e irremediavelmente?

Lygia Fagundes Telles. Marcou a Lícia pré-adolescente, que se deparou com o conto “Vamos ver o pôr do sol” numa tediosa tarde de férias num antigo livro de gramática da sua mãe, e desde então a perturba de forma positiva. Lygia segue influenciando minha escrita, seja pelos temas que aborda, que me fascinam, seja pela técnica narrativa. Quando estou com dificuldade em algum texto, releio seus contos para destravar.

Eu sempre me emociono com os feedbacks que as pessoas me dão sobre os meus textos, ainda que sejam críticas negativas. Não sei explicar, mas antes do conteúdo do que é dito sempre me vem a certeza de que alguém parou para ler o meu trabalho, e isso é gratificante. Qual é a sua reação diante da surpresa das pessoas com os seus textos?

Eu me divirto e me emociono. Gosto, principalmente, quando os leitores me vêm com suas próprias histórias, que de algum modo dialogam com o que escrevi. Isso, pra mim, é a grande magia da literatura, é quando me sinto mais realizada.

Em suas narrativas eu percebo uma recorrência da questão da saúde mental. Qual é a relevância desse tema para você?

Eu tenho fascínio pela mente humana. Na época do Enem, quase fiz psicologia. Hoje em dia, a saúde mental é amplamente discutida na sociedade pelo viés do cuidado, mas há séculos as artes se debruçam sobre a insanidade, sobre aquele desvio que faz a cabeça tornar-se algo que exige um olhar muito apurado para entender. E, para alguém que se viu às voltas com um quadro depressivo, é um tema inevitável em minhas criações.

Se sua escrita tivesse um diagnóstico, seja clínico ou literário, qual seria?

Hum, bipolaridade, talvez? Porque atravessa extremos, tanto no fazer literário, como nos temas ou modo de abordagem. Meu processo criativo atravessa períodos de euforia e intensa produção literária com momentos em que escrever é dificílimo, as palavras fogem e concluir um parágrafo é um parto. Ao mesmo tempo, meus escritos transitam entre o humor e o drama. Em Rogai por nós, por exemplo, é comum que os leitores começem achando graça, passam pela empatia, antipatia e terminam estarrecidos de tristeza.

Em seus escritos o corpo feminino aparece muitas vezes como campo de punição, culpa ou medicalização. Escrever sobre isso é denúncia, elaboração ou outra coisa?

É uma revolta. O corpo feminino é um alvo e, como mulher, sei bem o quanto é pesado e às vezes cruel habitá-lo. É objeto de obsessão e aniquilamento, e tudo isso me incomoda. Os contos de “Vingança é um prato que se come com Chandon”, por exemplo, colocam o corpo feminino em evidência e, apesar do tom cômico de muitos deles, vieram de um lugar de raiva, de indignação.

Para Lícia Mayra, o que é ser uma mulher que escreve?

É subversivo. É avocar para si um lugar que foi e ainda é ocupado majoritariamente por homens. Mulheres têm muito a dizer, versar e narrar. E não é literatura menor, não é livro de mulherzinha. Por isso, escrever, para a mulher, vai além de deixar jorrar a criatividade e a subjetividade, é também um ato político.

O que você gostaria de alcançar com a sua escrita? Qual é o seu sonho de escritora?

Enquanto leitora, eu gosto de literatura que incomoda, e é isso que gostaria de provocar com a minha escrita. Desejo que o leitor se espante, coce a cabeça, releia a última frase, que passe alguns minutos com os olhos suspensos da página, digerindo aquilo que acabou de ler. Meu sonho de escritora é ser reconhecida. Quero ser lida, comentada, debatida. De preferência, ainda em vida. Sem falsa modéstia, não confio em escritor que diz escrever só para si. Se fosse assim, eu escreveria apenas diários. Literatura é troca, é diálogo. Não à toa tatuei a frase da Lygia no antebraço, “me leia enquanto estou quente”.

Lícia, quando passo longos períodos sem escrever eu me sinto fraudulenta. Embora eu saiba que o ócio faz parte do processo e que o cérebro também é um músculo, precisa de descanso, eu tendo a acreditar que estou me dando mais tempo que o necessário. E você, o que acontece quando você não escreve?

Também me sinto fraudulenta, além de despersonalizada, fora de mim. Entendo que tudo são fases e já passei longos períodos afastada da literatura, como quando estudava para concursos, mas a vida sem criar fica mais triste.

Quem quiser adquirir os seus livros, como deve proceder?

Meu livro digital, “Rogai por nós” (2020), está disponível na Amazon. “Vingança é um prato que se come com Chandon” (2023)  pode ser adquirido comigo, com direito a autógrafo e brinde, ou no site da editora Urutau. Por fim, “Uma noite londrina”, livro que escrevi ainda na adolescência, só está disponível diretamente comigo.

quem quiser te encontrar? Divulgue as suas redes e faça o seu jabá.

Pode me encontrar no instagram @liciamayra e também no Medium (medium.com/@liciamayra), onde escrevo alguns poemas, crônicas e resenhas de livros.