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(Aos políticos de Roraima. Não se envaideçam aqueles que são da oposição do governo atual. Penso a mesma coisa de todos. Só mudam o penteado e o figurino, a noiva é sempre a mesma).

 

Visitei uma Comunidade Indígena Tabalascada que fica no Município do Cantá, em Roraima, bem pertinho de Boa Vista. O objetivo era observar a prática de uma professora e acadêmica indígena que admiro muito pela força de vontade e responsabilidade que ela tem. E que fique bem claro. Aqui eu exerço a minha liberdade de expressão como professora que estudou em escola pública, que não precisou de indicação política para cursar  Doutorado, Pós-Doutorado em universidades federais e ser aprovada em concursos públicos. Escrevo o que penso independente de estado, localismo e questões partidárias. Professor não pode ser oprimido por medo ou silêncio. O posicionamento é exclusivamente meu e não posso ficar em silêncio quando o assunto é desrespeito com a educação, ou então eu não seria professora e estaria compactuando com a brincadeira de roda: “faz de conta que ensino e você faz de conta que aprende”.

Vamos às impressões da visita.

  Confesso que por pouco tempo na comunidade aprendi mais que ensinei.  Saí com a sensação de que violência e desrespeito com professor no Brasil nunca existiram.  Os indígenas têm três atributos que merecem compartilhar: carisma, respeito e perseverança diante dos obstáculos. Em dez anos visitei várias escolas em outros estados também.  Sempre saí com a impressão de que a escola ideal seria a escola tradicional, onde não existia desacato ao professor.  A rigor, abrimos as redes sociais e nos deparamos com professores marcados por hematomas, caso recentemente divulgado pela mídia, o da professora Márcia Friggi, de Santa Catarina. Pois bem. Nas comunidades indígenas a educação vem de berço. Não é preciso punição porque indígenas têm etiqueta de boa conduta. Indígena não é o selvagem sem alma que muitos disseram por aí, inclusive em obras locais que se classificam como boa literatura. Creio que os alunos indígenas de Roraima deveriam ensinar ao mundo como ser educado, como respeitar o professor, como ter motivação diante da falta de quase tudo, como não ter preconceito, como respeitar as diferenças, dentre outros ensinamentos fulcrais do cotidiano escolar e da vida. Confesso que voltei agradecendo por tudo e resolvi não reclamar por qualquer coisa. Mas estou reclamando em nome dos indígenas.

Na Comunidade Tabalascada há uma Escola Estadual Indígena por nome de Professor Ednilson Lima Cavalcanti. De quem mesmo é a responsabilidade para as melhorias lá? No entorno, há escolas em outras comunidades que merecem também maior atenção do Governo. E não defendo nenhum partido político porque nenhum fez nada que merecesse aplausos até agora, pois se tivesse tudo às mil maravilhas ninguém inventaria. Não estou redigindo sobre mito e imaginação criadora. Faço isso em meus livros.  Estou aqui escrevendo sobre o que vi, cheirei, senti e apalpei, de fato.

  Aos meus olhos de professora que defende igualdade e respeito a todos os povos, eu pergunto: O que falta na Escola Estadual Indígena Professor Ednilson Lima Cavalcanti? Toda pergunta merece resposta e justificativa. Os indígenas querem saber. Gostaria de uma justificativa e solução ao problema exercendo a minha liberdade de expressão escrita alhures e que ainda gozo por  direito constitucional.

Na referida escola de Tabalascada falta reforma de qualidade. Não basta fazer de conta. Faz de conta está nos contos de fadas. A realidade é que alguns alunos indígenas estão com coceira pelo corpo porque o telhado velho precisa ser trocado e os morcegos invadiram o local gerando insalubridade.  As paredes estão precárias, o forro precisa de reajustes urgentes. A mesa do professor está caindo aos pedaços. A cadeira é desconfortável para a professora da sala que é muito amada e respeitada pelos indígenas. Diante desse quadro, será que os deputados, ao trocarem de poltronas almofadadas e giratórias, não poderiam ceder aos professores aquelas cadeiras também com espumas mesmo não sendo de girar?

As salas de aula necessitam URGENTE de ar condicionado neste calor exacerbado que é Roraima. Falta climatização nas salas de aula PARA ALUNOS INDÍGENAS DA COMUNIDADE TABALASCADA.  Não vão dizer que todas as escolas estaduais têm. Mentira porque vou dizer como Fernando Gabeira: O que é isso, companheiro? Segundo um indígena de lá, a televisão visita, o povo reclama e fica na mesmice. Falta quase tudo.

Fiquei perguntando em pensamento: como os filhos dos vereadores e deputados de Roraima se sentiriam se estudassem todos os dias naquela sala com um só ventilador que mal gira? Creio que eles ficariam como a professora que se abanava com papel e perdia o ar. Mas ela é só uma professora. Não interessa a este país!  Será que os poderosos de plantão no Governo (de qualquer partido, tudo farinha do mesmo saco) suportariam ficar em uma sala assim já que somos iguais?  Examino o direito e o princípio da igualdade da lei que rege este país.  Tudo utopia.

Falta quase tudo lá na Comunidade Indígena Tabalascada. Não interessa de quem é a culpa, de quem é a responsabilidade. Falta também uma melhoria na biblioteca com bons exemplares de livros, incluindo escritores maravilhosos de Roraima. Cito aqui somente um: Cristino Wapichana que foi professor de música lá nesta comunidade e hoje é uma das boas referências na literatura indígena no Brasil. Cristino Wapichana vai conquistar o mundo sem apoio de governo porque tem mérito, qualidade e tudo o que os alunos da comunidade indígena possuem. E nem vou reclamar da merenda escolar, deixe para lá. É muita falta. O texto ficará longo. Ninguém vai ler.

Mudando de impressões, observei tudo ao meu redor. Eis que por alguns instantes esqueci tudo o que falta e fui cercada pelo calor afetivo dos indígenas que me arguiram com tantas brincadeiras de O que é o que é? Fiquei encantada. Depois sentei ao lado de uma aluna wapixana que me ensinou muitas frases na língua dela. Conversei sobre isso. Ela disse-me que em sua casa todos conversam na língua wapixana para o idioma não morrer. E quando vai à escola sabe que os avós são importantes porque eles ensinaram o que eles sabem para aprender outras línguas. Ela podia me ensinar, mas sem tirar fotos.  Não precisei de fotos. Guardei comigo a energia positiva, a humildade, a solidariedade, o carisma, o riso sem maldade, o encanto, a vontade de aprender e ensinar, a forma respeitosa de como abriam a porta e pediam licença ao professor. 

Creio que senti muito desgosto em ver as necessidades deles que são muitas, mas não demandaria tanto dinheiro para a solução se comparadas ao salário e bônus de aluguel de carro de tantos políticos que ano que vem irão prometer mundos e fundos. Efetivamente não faltarão promessas aos indígenas que vão continuar na Tabalascada do mesmo jeito. Só acredito em mudanças vendo além do blá-blá-blá. Quem sabe voltarei lá. Se houver milagre, reescreverei as minhas impressões reais de viagem, sem mito, sem máscaras e meias verdades.

Portanto, não é ficção. É a realidade do povo indígena wapixana lá da comunidade Tabalascada. Concluo minhas impressões sensitivas enviando a pergunta da aluna aos poderosos e falaciosos que se dizem preocupados com a educação: Ynau tuminpe’azun dunuzuinha wiizei ii na’ik wa aichapa’azun kanam waipen da’a? Vou traduzir para vossa língua, senhores. (Vocês querem estudar na comunidade indígena e saber o que nós precisamos aqui?)

 

Texto da Poeta e Profa. Dra. Rosidelma Fraga, sem filiações em partido.

 

Fonte da imagem: Renato Soares, do Blog Ameríndios do Brasil.