Diego Mendes Sousa e José Francisco Paes Landim
Diego Mendes Sousa e José Francisco Paes Landim

IGARAÇAL 

 

Por José Francisco Paes Landim 

 

As origens telúricas na obra "Igaraçal" (2026), de Diego Mendes Sousa, representam o cordão umbilical que une sua poesia ao chão natal, às águas do rio Igaraçu e ao misticismo do litoral piauiense. O termo telúrico vem do latim tellus (terra). Na literatura, define a escrita influenciada fortemente pelo solo do nascimento, pelas raízes geográficas e pelas forças da natureza.

A paisagem da Parnaíba (sua cidade mitológica de útero criativo) e a magnitude do Delta do Rio Parnaíba não são meros cenários decorativos, mas sim personagens vivos em seus versos. As águas fluviais do Parnaíba e marítimas do Atlântico Norte purificam e inundam sua linguagem. Há um constante retorno ao elemento líquido, ao mangue e à lama que moldam a identidade do homem piauiense. 

A planície litorânea do Piauí é marcada por ventos fortes, sobretudo o vento Nordeste, e dunas móveis. Na obra de Diego Mendes Sousa, a geografia física se transforma em geografia mística: o vento Nordeste atua como o sopro do destino e da inspiração poética. A areia e o sol representam a agonia e o tempo que desgasta a existência. A vegetação nativa evoca a resistência da memória contra o esquecimento.

O telurismo de Diego Mendes Sousa funde-se com o sagrado. Livros como "Rosa Numinosa" (2022), com generosa dedicatória a este leitor, mostram que a terra não é apenas matéria física, mas um território divino. Diego Mendes Sousa enxerga nos elementos naturais — nos pássaros do céu parnaibano, nas pedras das ruas largas da sua Parnaíba, nas marés da praia da Pedra do Sal — manifestações de um mistério cósmico antigo. É o que Diego chama de "casamento místico e geográfico".

Essa ligação com a terra bruta exige uma linguagem que não seja contida. Sua poesia é torrencial, avançando como uma cheia sobre o leitor. O vocabulário mistura erudição clássica com termos locais. Isso cria um contraste barroco entre a crueza do chão pisado e a sofisticação da alta literatura.

Ensaio de José Francisco Paes Landim (1937-), ex-professor da Universidade de Brasília (UnB) e ex-deputado federal.