Haicais sequenciais de José Lira

[Carlos Martins*]
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O confrade José Lira tem uma mão literária para obras de porte. Isso já havíamos percebido ao ler – e aprender! – com seus As Cinco Estações – Os Haicais de Bashô e Kobayashi Issa – O Haicaísta Feliz, compostos por centenas de páginas e haicais, dos dois grandes mestres do haiku japonês. Não tão monumentais, mas igualmente especiais são seus livrinhos com antologias de Bashô, Issa, Buson e Shiki, que podem ser levados por aí, no bolso!.
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Outro livro seu por demais especial e fundamental é A Paisagem lá Fora, um verdadeiro tratado de versificação sobre haicai (talvez o único em seu gênero), que já se tornou livro de cabeceira de muitos haicaístas por todo o País.
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Mas, quando digo que ele gosta de obras de porte, foi porque essa foi a primeira ideia que me surgiu – ou retornou - quando vi a materialização de seu mais recente projeto: Haicais Sequenciais (CrossingBORDERS, Recife, 2020), que é uma obra singular, por onde a enfoquemos.
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São 231 páginas da mais pura dedicação ao haicai, com uma proposta diferenciada que, segundo o autor, teria sido inventada por ele. Realmente não vi nada parecido, a não ser por coincidência ou acidente. Segundo as próprias palavras do confrade, haicais sequenciais são “três haicais em série feitos todos no mesmo momento e com o mesmo tema, girando em torno de um mesmo termo de estação ou de um mesmo agente ou de uma ação contínua, ou seja, uma experiência sequencial transformada em três haicais”. Não se trata de meras variações de um tema, mas, sim, de três haicais distintos, tendo em si de comum, apenas o seu tema. De porte, sim, pois estamos falando de 180 sequências de 3 poemas, ou seja: 540 haicais! Isso, sem contar com outros haicais, aleatórios, presentes nas notas. Ah, e esse é um capítulo – ou livro? – à parte...
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Todas, mas todas as sequencias de haicai mesmo, têm uma nota que trata ou da composição do haicai em si, bem como de alguma noção teórica necessária a uma compreensão ampliada dos poemas. Essa característica de Lira já admirávamos de suas obras anteriores, que nas respectivas resenhas já reconheciamos o seu didatismo para nós haicaístas, em uma área ainda pobre de referências teóricas. Lira pesquisa a fundo cada tema a que se propõe e compartilha conosco esse aprendizado: ganhamos todos!
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E o que são longas e trabalhadas as suas notas, não o são seus haicais, que primam pela assertividade e ausência de termos desnecessários: as primeiras dizem o máximo; os segundos, o suficiente! Convém que os haicais sequenciais sejam lidos com calma e o final de cada um deve corresponder a um longo kire,  corte, ou seja, uma longa pausa para deixar o haicai anterior reverberar seus significados, antes de partir para o próximo ou para a sequência seguinte. Como nestes exemplos:
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65
Deito na varanda
E espero o vento chegar:
Dia de Ano Novo
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Sozinho na rede
Enquanto o vento não chega:
Dia de Ano Novo
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Já quase dormindo
Na rede à espera do vento:
Dia de Ano Novo
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Compartilhamos a solidão do confrade nessa atmosfera wabi, silenciosa.
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103
A lua cheia:
Vou passar esta noite
Fazendo versos
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Leio um poema:
“Noite de lua cheia
E névoa fria”
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Só para ela
Uma noite de festa:
A lua cheia
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Notem o que já foi dito. Apesar de serem feitos em sequência, o autor não cai na armadilha da repetição, não, cada haicai tem vida própria, concepção distinta.
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146
Regando as flores:
Uma abelha zangada
Ronda meu dedo
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É primavera:
No prado em flor a abelha
Trabalha em dobro
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Tarde de chuva:
A abelha manda às favas
O seu trabalho
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Lira apresenta-nos uma abelha ao mesmo trabalhadora e “meio-cigarra” (no terceiro haicai), transitando entre o haicai e o senryu.
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Leitura rica, sem pressa e grata por participarmos da dedicação de
um haijin que exala amor ao haicai. Obrigado José Lira por mais esta obra de peso. E já nos pomos a pensar: como será a próxima?
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Contatos com o autor: Messenger https://www.facebook.com/messages/t/100000667887289

Carlos Martins* é  advogado e profissional de Marketing, praticante de haicai desde os anos 2000. Membro do Grêmio Haicai Ipê, de São Paulo-SP, e do Grupo de Haicai Estrela do Atami, de Santos-SP. Participou da antologia “Haicai do Brasil”, organizada por Adriana Calcanhoto; e também de antologias do grupo Estrela do Atami, e dos grêmios virtuais de haicai Utamakura Brasileiro, Águas de Março e Sabiá. É administrador do grupo “O Zen do Haicai”, no Facebook.