Cena típica do sertão, a pega de boi.
Cena típica do sertão, a pega de boi.

Forjado na caatinga: A saga do cavalo nordestino[1]

Reginaldo Miranda[2]

É difícil precisar se foi o homem que trouxe o cavalo ao sertão nordestino ou se foi o cavalo que conduziu o homem. O mais exato seria dizer que um guiou o outro, adentrando o território em simbiose perfeita. Nos primórdios da colonização, nenhum pioneiro ousou desbravar o sertão sem o auxílio equino, assim como nenhum equino adentrou a caatinga sem a direção humana. Para vencer distâncias colossais e rasgar a mata íngreme, o homem dependeu da resistência e robustez do cavalo para levá-lo onde suas próprias pernas jamais alcançariam. Assim, desde os primeiros dias nos "Sertões de Dentro", tornou-se impossível distinguir o cavaleiro da montaria; não teria havido a expansão lusitana sem essa aliança indelével.

Para completar a cena e consolidar a identidade regional, somou-se a esse conjunto o gado vacum, oriundo das campinas do Alentejo. O boi era a mercadoria que caminhava com as próprias patas, facilitando a criação e o transporte para futuras vendas nas feiras da faixa litorânea. É fascinante imaginar a cena típica das entradas colonizadoras de outrora: o gado à frente, abrindo estrada por caminhos ora arenosos, ora argilosos ou pedregosos, entre a caatinga adusta e as matas ciliares. Seguindo-lhe os rastros, bem arreado, marchava o cavalo ibérico de temperamento dócil e inteligência invulgar, trazendo no dorso o colono que, entre aboios, orientava o rebanho rumo ao sertão desconhecido.

Nesse processo, deu-se uma adaptação sinérgica: o homem buscou o saber indígena para decifrar a terra; o boi e o cavalo adaptaram-se às temperaturas extremas, à aridez e à escassez alimentar. É importante ressaltar que essa foi uma seleção rigorosa: somente os animais de maior vigor foram embarcados, pois o custo e o risco da travessia transatlântica não admitiam a mediocridade. O que aportou no Novo Mundo era a elite do vigor físico. No sertão, a seleção natural refinou o que o homem iniciou: os animais reduziram o porte, ganharam densidade muscular e endureceram os cascos para suportar a rusticidade do solo.

É importante, contudo, precisar a gênese desse animal no epicentro do sertão. O cavalo que desbravou os vales ribeirinhos do Gurgueia, Itaueira, Canindé, Piauí, Itaim, Poti, Berlengas e Longá não aportou diretamente de Portugal ou do Norte da África, berço de seus ancestrais. Embora conservando o patrimônio genético das nobres linhagens ibéricas — o Sorraia, o Garrano e o Bérbere —, esse espécime já trazia o lastro de mais de um século de aclimatação em solo americano. A ocupação deu-se por uma convergência de bravura: as primeiras manadas galgaram as chapadas sob a sela dos paulistas, que os conduziram dos campos de Piratininga em um fustigante teste de resistência por mais de quatrocentas léguas de sertão bruto. A essa cavalaria pioneira somaram-se, ulteriormente e em maior escala, as tropas oriundas do vale do Rio São Francisco, trazidas por Domingos Afonso, Julião Afonso e pelos senhores da Casa da Torre. Foi no encontro desses sesmeiros, posseiros e aventureiros nos dilatados “Sertões de Dentro” que a criação equina prosperou, multiplicando-se junto ao gado bovino para suprir, anualmente, o mercado da zona litorânea.

O resultado foi um cavalo genuinamente nosso: rústico, musculoso e de cascos tão duros que, geralmente, prescindiam de ferraduras. Esse animal integrou-se definitivamente à paisagem. Nenhum outro animal o iguala na "corrida curta" da pega de boi, com sua habilidade de agachar-se e desviar de troncos recurvados para alcançar a presa. Ao vaqueiro experiente, cabe fundir-se ao dorso do animal, baixando a cabeça sobre o pescoço da montaria para acompanhar o movimento frenético e evitar o açoite dos galhos. Para defender-se dos espinhos, ambos vestem couro: o homem em seu gibão e perneiras; o cavalo protegido pelo peitoral de sola curtida.

No sertão do Nordeste, concretiza-se a lenda do centauro. Em poucas partes do mundo há simbiose mais natural entre a sagacidade humana e a força animal. Ao afrouxar da rédea, o cavalo avança vertiginosamente sobre o boi arisco, rasgando a caatinga em um estalo de pisadas ligeiras sobre o barro seco. Quando o centauro emparelha com o marruá, a mão do vaqueiro alcança o sedém, derrubando o animal em um movimento de pura destreza. É nesse instante, envolto em poeira e ofegante, que o cavalo pisoteia em torno, reafirmando sua presença soberana sobre o chão árido do sertão. São quase 500 anos de história gravados no rastro dessa trindade: o vaqueiro, o boi e o ágil cavalo nordestino, ícone máximo da sobrevivência e a alma viva da resistência sertaneja.

 

 


[1] O presente texto celebra o cavalo que não foi apenas um meio de transporte, mas um sobrevivente selecionado entre os melhores exemplares ibéricos. Testado pela travessia do Atlântico e temperado por quase cinco séculos de uma adaptação contínua que se acentuou nos vales do Piauí, o Cavalo Nordestino representa a elite da resistência biológica nos Sertões de Dentro.

 

[2] Advogado e escritor. Membro efetivo da Academia Piauiense de Letras (APL) e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí (IHGPI). Contato: e-mail: [email protected]