FIXAÇÃO
Por Washington Ramos Em: 27/04/2026, às 23H14
FIXAÇÃO
Afogado em lembranças de três garotas que vinham a seu cérebro com insistência, Edivaldo sentia-se um náufrago procurando uma tábua de salvação entre os destroços de um barco arrebentado por uma tempestade em alto mar. Foi nesse estado de espírito que ele ligou para Martinha:
- Alô! É a Martinha?
- É ela, sim. Fala, Edivaldo!
- Você já retornou para Teresina?
- Já, sim.
- Como foi o curso que Você foi fazer em S. Paulo sobre Freud? Foi bom?
- Foi um lixo, perdi meu tempo, não me acrescentou nada, inclusive vim embora antes de terminar.
- Olha, Martinha, não estou bem; preciso falar contigo.
- O que aconteceu? Alguma coisa grave?
- Assim pelo celular, prefiro não dizer nada; Você pode me atender hoje à tarde na clínica?
- Posso, sim; apareça a partir das 16:30.
- Combinado.
Deitado no divã, ele começa a contar seu drama à Martinha: eu preciso me livrar das imagens que ficaram impregnadas em meu cérebro. Elas são cartazes colados numa parede, a parede de meu cérebro, onde vejo seios, coxas e escuto o barulho de um corpo se ensaboando. Dominam minha atenção, minha concentração para fazer qualquer coisa. Tudo começou quando o Joel me convidou para passar um final de semana no sítio de seus pais. Ele tem três irmãs: Cíntia, Simone e Marlene. São adolescentes muito bonitas. Raramente saem do sítio. Nunca namoraram. Comportam-se como se o sítio fosse um quarto de dormir e de trocar de roupa. Não usam sutiã. Estão sempre de xorte e de camisa de malha fina.
- Você está perturbado porque se apaixonou por uma dessas meninas?
- Não, não me apaixonei; mas, se continuasse lá, me apaixonaria pelas três.
- Eita! Que machismo é esse Edivaldo?
- Não é machismo; é perturbação mental, agradável e desagradável ao mesmo tempo. A primeira perturbação foi quando eu e o Joel entramos em casa, e a Cíntia, na porta do quarto, estava tirando a blusa por cima da cabeça e, sem sutiã, os seios de mamilos rosados como romãs num jardim vertical balançavam levemente. Foi um susto enorme. Eu nunca tinha visto seios tão bonitos ao vivo. Claro que já vi em fotos e em filmes. Mas pessoalmente foi a primeira vez. Voltei, e o Joel continuou. Fechou a porta do quarto. “Pode entrar, amigo”, ele disse. Entrei. “Vamos ali no pomar”, ele convidou. Quando chegamos embaixo de um pé de manga e olhamos para cima, lá estava a outra irmã dele, a Simone, usando um xorte folgado. Dava pra ver a calcinha azul-clara. As coxas sem varizes, sem celulite, sem mancha nenhuma, bem torneadas, me lembraram relação de poder. Oh! Poderosas coxas! Baixei a cabeça e fui me encostar num cajueiro. “Desce daí, criatura!”, o Joel falou. “Pois segura aí”, ela disse, pegando uma manga-rosa e jogando pra ele. Ela desceu e foi para casa. Após o pomar, tem um banheiro rústico, usado só para se tomar banho de cuia, feito de talo de buriti e uma laje no meio. Nunca imaginei que ainda houvesse esse tipo de banheiro, e havia alguém banhando lá. “Quem está banhando aí?”, o Joel perguntou. “Sou eu, a Marlene. Não vem pra cá, não”, ela respondeu. Fomos nos afastando no rumo de casa, mas eu ouvia o barulho de mãos ensaboando aquele corpo, que eu não vi, mas imaginei-as passando por baixo dos seios, indo às axilas e outras reentrâncias. Para meu bem, meu celular tocou. Não era um número conhecido. Mesmo assim, atendi. Ninguém falou nada. Aproveitei e disse: “Sim, mãe, não se preocupe, vou já levar a senhora ao médico. Me aguarde aí, que já estou indo.” “O que foi que houve?”, o Joel perguntou. “A mamãe não está bem, vou ter que levar ela ao médico”, respondi.
- - Oh! Que pena!
- Pois é, Joel, vou ter que ir.
Peguei o carro e voltei para casa. Desde então, não consigo me livrar das imagens e do que ouvi no sítio. É uma fixação muito incômoda. Será que Você não pode, Martinha, me receitar um prozac ou outro remédio para me livrar dessa fixação?
- Não vou lhe receitar remédio nenhum. Tente se livrar dessa fixação naturalmente. Fale sozinho, cante, reze, grite, escreva, saia para a rua, faça um vídeo... Tem muita coisa que Você pode fazer para se libertar. O importante é não ficar parado com o olhar perdido num ponto qualquer, se lembrando do que viu e ouviu nessas meninas. Se isso não resolver, então procure um psiquiatra. Ele pode lhe passar um remédio. Eu não vou passar.

