FELIPE MENDES DE OLIVEIRA: Professor Santana — Cem Anos, Eterno
Em: 04/03/2026, às 22H54
[Felipe Mendes de Oliveira]
Há pessoas opacas, pessoas iluminadas e pessoas luminares.
Há pessoas com luz própria que abrem caminhos para si e para a sociedade, e os deixam iluminados, para os que vêm atrás seguirem confiantes.
Raimundo Nonato Monteiro de Santana é seu nome completo na certidão de nascimento, em Campo Maior, no dia 27 de fevereiro de 1926.
R. N. Monteiro de Santana, como assinava seus trabalhos.
Professor Santana, para seus alunos – os da sala de aula, e os outros.
Santana, só para os amigos próximos da sua idade, que podiam ser alunos.
Saiu de sua terra para os estudos de Ciências Jurídicas em Fortaleza, concluídos em 1949. Após dois anos do seu retorno, elegeu-se Prefeito Municipal de sua terra natal com 24 anos, o mais jovem de seu tempo.
Pioneiro desde cedo.
- 1949 é o ano em que eu nasci. Meu irmão mais velho, Sílvio, desde 1948 residia em Campo Maior, para onde veio trabalhar na Casa Marc Jacob, e logo trouxe um dos irmãos, o Francisco do Bonfim, 11 anos mais novo, para estudar no Ginásio Santo Antônio. Colegas na sala de aula, concluíram o curso em 1953. Bonfim ainda lembra que a campanha eleitoral, em que foi eleito Raimundo Santana, cheia de refregas entre os militantes dos dois Partidos adversários, inclusive de um tiroteio em que uma bala perdida matou um amigo do candidato Raimundo Santana, conhecido por França Catura. Hoje, aos 92 anos, lembrou-se de que o seu primeiro voto foi para o candidato cujo centenário é comemorado hoje.
Raimundo Santana marcou sua primeira experiência como gestor público com iniciativas inovadoras, como a implantação de um plano de cargos e salários para o funcionalismo municipal, além da construção de escolas e de outras ações próprias da Prefeitura.
Abrindo caminhos e os deixando iluminados, para quem vinha atrás.
Concluído o mandato, o Município de Campo Maior ficou pequeno para seus planos. Tomou a decisão de vir para Teresina, em 1955, talvez motivado pelo calor exagerado das disputas políticas da cidade. Voltar a ser apenas o Professor Santana era pouco, por isso começou suas atividades de jornalista e pesquisador, na capital do Estado.
- Em 1955, meus pais decidiram mudar-se para Teresina, com os filhos que não tinham saído de casa, para trabalhar ou estudar fora. Eu lembro da viagem de três dias, o casal na boleia e a criançada na carroceria, junto com o que foi possível trazer.
O Piauí, desde o final da Segunda Grande Guerra, entrara em crise econômica, com o fim do ciclo das exportações de produtos do extrativismo vegetal, iniciado com a transferência da capital, de Oeiras para Teresina (1852), associado à navegação a vapor no rio Parnaíba (desde 1859).
Naturalmente, e em consequência, a economia não tinha um rumo definido. Os problemas sociais pareciam insolúveis. Para mencionar apenas um exemplo, no ano de 1950 o analfabetismo atingia 75% da população piauiense de 10 anos e mais de idade.
Em 1954, o escritório da última empresa de navegação e comércio exterior fechou as portas em Parnaíba, acentuando a decadência econômica da cidade e do próprio Estado.
Em 1955, a Companhia de Navegação a Vapor do Parnaíba fez sua última viagem, depois de 76 anos.
Em 1957, a Companhia de Fiação e Tecidos de Teresina parou suas máquinas, depois de 64 anos de atividades.
O governo não encontrava uma alternativa para dar início a um novo tempo de progresso, nome que já estava substituído por desenvolvimento econômico.
Entretanto, alguns fatos auspiciosos aconteciam, em reação à crise.
Em 30.11.1956, o governador Gayoso e Almendra sancionou a Lei n° 1.451, que em seu Art. 7° criava uma Comissão junto a seu gabinete para estudar e propor medidas para encontrar novos rumos de progresso, repetindo por analogia uma idêntica comissão criada pelo Presidente Juscelino Kubitschek: a Comissão de Desenvolvimento do Estado.
Nesse mesmo ano de 1956, o governador Gayoso e Almendra autorizou o jovem bacharel Raimundo Nonato Monteiro de Santana a participar de um curso no Rio de Janeiro, a ter início no ano seguinte, no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB, criado em julho de 1955), por iniciativa do governo federal, para formar uma elite de servidores públicos especializados em planejamento governamental e desenvolvimento econômico.
Após esse curso, logo Santana participou de outro, também no Rio de Janeiro, promovido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (o atual BNDES) em convênio com a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), órgão vinculado à Organização das Nações Unidas.
Santana leu, nesses dois cursos, livros de uma nova geração de pensadores brasileiros, como Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda e Celso Furtado. O jovem pesquisador entrava em outra órbita de interesse, mais elevada, onde poucos, no Brasil, circulavam.
Raimundo Nonato Monteiro de Santana foi nomeado Assessor Econômico do Governador Gayoso e Almendra, e meses depois designado Secretário Executivo da CODESE, cargo equivalente a Secretário de Estado, já não mais uma simples Comissão de estudos. A pessoa certa, no lugar certo, na hora certa.
Em 1957, foi criada na sede do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS), em Fortaleza, uma Comissão Técnica para estudar as possibilidades de construção de uma barragem no médio Parnaíba, que veio a ser, mais tarde, a barragem de Boa Esperança.
Também nesse ano de 1957, o jovem bacharel e já especialista em desenvolvimento econômico foi aprovado em concurso para professor catedrático da Faculdade de Direito do Piauí, com a tese O desenvolvimento nacional na teoria econômica, fruto de seu aprendizado nessa área de conhecimento ainda limitada a poucos estudiosos.
Ele sabia mais do que a banca examinadora.
Nesta Cronologia, cabe lembrar sua nomeação, em 1958, para Professor catedrático da Faculdade de Direito, e as aulas na Faculdade de Filosofia, criada naquele ano por Dom Avelar Brandão Vilela, Arcebispo de Teresina.
Em 1959, foi criado na Comissão de Desenvolvimento do Estado o cargo de Secretário-Executivo – Raimundo Santana - nomeado em 10 de novembro com atribuição de coordenar as ações das demais Secretarias.
A institucionalização do planejamento governamental no Piauí antecedeu à criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), que data de 15 de dezembro de 1959.
Uma segunda passagem de Raimundo Santana pela CODESE deu-se em 1964, até 1968, oportunidade em que a instituição transformou-se em Coordenação do Desenvolvimento do Estado, com atribuições mais amplas, como as de elaboração de planos e projetos de desenvolvimento.
- Em 1966, eu concluí o curso científico (ensino médio) no Liceu Piauiense, e não quis fazer o vestibular para a Faculdade de Direito, pois minha opção era seguir para Fortaleza, cursar Economia. Se eu fosse aprovado no vestibular em Teresina, teria sido aluno do Professor Santana, que era então o Secretário da CODESE. As estradas da vida têm muitas bifurcações, e a escolha de uma ou outra resulta em destinos diferentes.
Um aspecto interessante da criação da CODESE é que a elaboração do Orçamento do Estado deixou de ser feita no Departamento de Administração Geral e passou ao órgão apropriado, ou seja, o planejamento.
Pesquisador da história econômica do Piauí, Raimundo Santana alargou seus estudos para entender e explicar os fatos históricos subjacentes à economia. Além disso, foi um dos fundadores e editor da Revista Econômica Piauiense (1957), junto com outros abnegados estudiosos, como Petrônio Portella; e também fundador do Centro Piauiense de Estudos Educacionais (1958) e do Movimento de Renovação Cultural (1962). Ampliou, assim, seus horizontes de interesse como pesquisador, em razão de seu domínio dos assuntos que envolviam a economia e a cultura piauiense.
Concluída essa importante fase de sua vida, o destino o enviou, no final de 1969, para a Universidade de Brasília, cedido pela Faculdade de Direito do Piauí, onde mais uma vez descortinou novos horizontes de estudo, como nas áreas de planejamento e desenvolvimento regional, e não apenas nos limites de um Estado.
Passou uma temporada no Rio de Janeiro, pensando o Brasil, e nos Estados Unidos, pensando as Américas.
Chegou o ano de 1970, ano marcado por uma grande seca no Nordeste. Nesse ano, em 7 de abril, inaugurava-se a Barragem de Boa Esperança (15 anos depois da Usina de Paulo Afonso), e em 1° de março de 1971 instalava-se a Universidade Federal do Piauí (a última no Nordeste).
Começava uma nova etapa no processo de desenvolvimento do Estado, cujas bases foram fincadas, a duras penas, nas duas décadas anteriores.
A partir de Boa Esperança, o Piauí iniciava um novo ciclo em seu processo de desenvolvimento. Com a energia elétrica, as estradas e as telecomunicações, o Piauí integrava-se ao País com a infraestrutura física, e com a Universidade veio o capital intangível em larga escala para aperfeiçoar os recursos humanos, inclusive na formação de pensadores e pesquisadores, e de professores, pedagogos e gestores escolares para a qualificação de professores das escolas de todo o Estado.
- Eu sou da geração que precisou estudar em Universidades de outros Estados.
Concluí o curso de Economia na Universidade Federal do Ceará em julho de 1971, antecipando em seis meses a formatura da turma de 1968, e logo estava trabalhando na Secretaria de Planejamento – ainda oficialmente CODESE – já como chefe da Assessoria de Antônio de Pádua Franco Ramos, que liderou sua equipe para a criação do sistema estadual de planejamento, formado pela Secretaria e pela Fundação CEPRO, em substituição à CODESE.
Eu pude sentir a presença do Professor Raimundo Santana nas salas do prédio da esquina das ruas Álvaro Mendes e Simplício Mendes, e pude ouvir histórias saudosas contadas pelos servidores do seu tempo. Conheci e me tornei amigo dos sucessores de Santana na CODESE: Leonides Alves da Silva Filho, Osvaldo Soares do Nascimento e Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira.
Em dezembro de 1971, o Ministro João Paulo dos Reis Velloso reuniu todos os Secretários estaduais de Planejamento em um Congresso, de que participavam técnicos de todos os Ministérios envolvidos como o planejamento.
Acompanhando o Secretário Pádua Ramos, eu viajei entusiasmado para conhecer a capital da República e para participar, pela primeira vez, de um evento técnico de alto nível.
Pádua Ramos aproveitou a oportunidade para marcar uma conversa com o Professor Santana, em seu apartamento, que era também seu exílio desde 1969. A conversa entre os dois era, naturalmente, sobre a experiência de ambos no estudo dos problemas do desenvolvimento do Piauí, para a aplicação das medidas necessárias.
Eu era um entusiasmado ouvinte e um aluno privilegiado.
Por artes do destino, eu próprio me tornei Secretário de Planejamento, anos mais tarde, com a vantagem de poder apoiar-me nas ideias de dois gigantes, parafraseando Isaac Newton. (*)
Não lembro de outra conversa que tive com o Professor Santana, a não ser em rápidos encontros, pouco mais do que um breve cumprimento. Com seu filho José Francisco as oportunidades foram várias, em seu trabalho de sanitarista do Ministério da Saúde.
No retorno de Raimundo Santana a Teresina, e à UFPI, em 1991, eu me encontrava em Brasília, no exercício do mandato de deputado federal. Novo desencontro, que me dificultou a busca de conversas demoradas e de muito a aprender.
Em 1994, ele me telefonou para convidar-me para que eu escrevesse o capítulo sobre a formação econômica do Piauí, em um livro que ele estava organizando por meio de sua recém-criada Fundação de Apoio Cultural do Piauí – que veio a ter o título de Piauí: Formação, Desenvolvimento, Perspectivas.
Eu era um professor bissexto do Curso de Economia da UFPI, afastado para o exercício de cargos públicos e para o mandato de deputado federal, sem a experiência dos pesquisadores da Fundação CEPRO, pois no assessoramento a Pádua Ramos os assuntos a resolver tinham prazo para amanhã.
Enfim, aceitei o encargo, certamente com a lembrança do trabalho que organizei na Fundação CEPRO, em 1979, intitulado Piauí: Evolução, Realidade, Desenvolvimento, já em terceira edição – esgotada – e talvez a publicação mais requisitada pelos pesquisadores desde então.
Escrever o Capítulo sobre a formação econômica do Piauí foi na prática um reencontro com o pesquisador R. N. Monteiro de Santana e seus livros e publicações, e com o Professor Santana, o que fortaleceu a amizade entre nós.
Outras artes do destino me trouxeram à sua Cadeira 32, nesta Academia de Letras.
CONCLUSÃO
Hoje, rememorando os tempos difíceis dos anos 1950 e 1960 – que eu conheço pelas leituras, pela necessidade de meus pais se mudarem com uma ruma de filhos para Teresina - e o que se seguiu a partir de 1971 – vejo que temos muito a aprender com a História, e com quem se dedica às pesquisas, seja puramente para a historiografia, seja para instrumentalizar as políticas públicas.
Um pequeno exemplo, para ilustrar como a história econômica evolui.
No Piauí, desde aqueles tempos heroicos, o comércio - interno e interestadual - se fortaleceu e se consolidou como atividade motora da economia; mais recentemente, a agricultura no Cerrado está recolocando o Estado no cenário do comércio exterior.
Nas voltas que o mundo dá, o prédio da antiga Fiação, em Teresina, e o do último escritório de uma empresa de navegação e comércio exterior, em Parnaíba, não por acaso foram adquiridos pelo Armazém Paraíba, que se tornou, desde o início da década de 1970, o maior grupo empresarial do Estado.
Parafraseando o que Santana escreveu em seu livro Perspectiva Histórica do Piauí (1963, p. 9), há pessoas que passam, e deixam pouco ou nada; e há pessoas que passam e deixam sua obra e seu exemplo a iluminar as mentes andarilhas que buscam o conhecimento que transforma a realidade.
Raimundo Nonato Monteiro de Santana, uma pessoa extraordinária, abriu caminhos para uma geração de técnicos e estudiosos da história, da gestão pública e do desenvolvimento do Estado do Piauí.
Não foi homem de passagem por esta vida.
Deixou uma grande obra – livros que, abertos, iluminam os caminhos de novos passantes; deixou seu exemplo de vida e formou uma geração de pensadores. Por isso, R. N. Monteiro de Santana pertence à História. Este é o significado da imortalidade, mais do que um título acadêmico.
O Professor Santana, com sua fala mansa – em respeito ao ouvinte; com o seu olhar sereno – de confiança no futuro; e o seu sorriso de otimismo - permanece vivo em nossa lembrança.
Ocupar a cadeira de Raimundo Nonato Monteiro de Santana na Secretaria de Planejamento, e esta, de n° 32, na Academia Piauiense de Letras, me engrandece.
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Felipe Mendes
Teresina, 28 de fevereiro de 2026
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(*) A frase de Isaac Newton (1642-1727) - Se enxerguei mais longe é porque me apoiei no ombros de gigantes – deve ter sido inspirada em Somos anões sobre os ombros de gigantes, de Bernardo de Chartres, filósofo do século XII, frase atribuída a outros, conforme Gilbert HIGHET, em A Tradição Clássica: influências gregas e romanas na literatura ocidental. Tradução de Ricardo Harada e Eduardo Levy. 1ª edição. Campinas, SP: Editora Sétimo Selo, 2024. P. 371)

