Luiza Catanhêde
Luiza Catanhêde

“Minha escrita é o encontro de dois cursos d'água.”

 

Luiza e eu já nos conhecíamos. Ambas fomos vencedoras do 1º concurso literário da FELIPI (Feira do Livro do Piauí) de 2024, ela na categoria poesia e eu na categoria crônicas. Foi admiração à primeira vista, pelo menos de minha parte, por essa que é uma das maiores poetas piauiense/maranhense da contemporaneidade. Na época eu cheguei junto dela e falei: “Luiza, me ensina a escrever poesia”, ao que ela gargalhando respondeu: “Mas você já sabe fazer poesia, a sua literatura é pura poesia”. Generosa como sempre, Luiza saiu pela tangente e eu continuei a admirar os seus versos.

 

Luiza, você é natural de Santa Inês, no Maranhão. Você tem cidadania piauiense?

 

Sim, sou cidadã piauiense de direito desde 2022, por proposição do deputado Fábio Novo. Natural de Santa Inês, no Maranhão, construí toda a minha base pessoal e profissional aqui no Piauí. Esse título oficializou um vínculo que já era sólido na minha atuação e na minha identidade cultural.

 

Em que momento Teresina deixou de ser lugar de chegada e passou a ser lugar de enraizamento poético?

 

O enraizamento total veio quando o Maranhão e o Piauí deixaram de ser distâncias e viraram uma unidade dentro de mim. O Maranhão me formou o olhar; Teresina me deu o que dizer. Me senti parte daqui através dos afetos e das ruas, e hoje não imagino minha escrita longe dessas duas geografias. Eu habito Teresina com a bagagem de quem veio de longe, e minha poesia é justamente esse entrelaçamento entre a minha origem e a minha permanência.

 

Tendo nascido no Maranhão e vivendo no Piauí há mais de quarenta anos, como esses territórios se inscrevem na sua poesia?

 

Denise, metaforicamente falando

Minha escrita é o encontro de dois cursos d'água. O Maranhão é a paisagem primeira , o lugar do primeiro espanto. O Piauí, onde vivo há mais de quarenta anos, é o lugar da permanência. Escrevo com essa dupla cidadania: a memória maranhense fornece a imagem e o chão piauiense dita o ritmo, o peso e a urgência do passo.

 

Você é uma artista premiada e em ascenção. Como você recebe os prêmios literários? Digo, que tipo de sentimento eles despertam em você?

 

Eu sempre recebo os prêmios com gratidão e consciência. Eles me atravessam como um gesto de reconhecimento, mas também como responsabilidade. Há alegria, sim, sobretudo por ver a palavra, tantas vezes nascida de lugares difíceis, ganhar escuta.

Mas, acima de tudo, os prêmios me lembram que a escrita não é ponto de chegada, é travessia contínua. Eles aquecem, encorajam, mas não me acomodam sigo escrevendo com o mesmo compromisso com a vida, com as margens e com tudo aquilo que ainda precisa ser dito.

 

Esses prêmios são uma confirmação da qualidade da sua obra, um estímulo para continuar produzindo ou um chamado à responsabilidade de manter o nível?

 

Sabe Denise, eles não me pedem para 'manter o nível' como se fosse uma métrica, mas me convocam a não facilitar o caminho

Para mim, o prêmio é combustível, não troféu. Ele não serve para me acomodar num lugar de 'qualidade', mas para me impulsionar a ir mais fundo. A responsabilidade que ele traz é a de não perder a coragem. Se o reconhecimento veio pela minha verdade, o compromisso agora é ser ainda mais radical nessa entrega. O prêmio ilumina o que já foi feito, mas o meu olhar está no que ainda falta dizer.

 

Você também atua na área da contabilidade. Como essas duas dimensões, a técnica e a poética, convivem em você?

É como uma convivência de peso e contrapeso. (risos)

A contabilidade me exige o exato; a poesia me permite o imprevisto. Não tento misturá-las, mas as duas me dão o mesmo senso de responsabilidade com o que é real. Enquanto os números organizam o mundo de fora, a poesia traduz o que transborda por dentro. No fim, as duas são formas de tentar ler a realidade, cada uma com sua régua.

 

A antologia “O que não calou dentro de nós” carrega um título potente. O que motivou esse projeto coletivo?

A antologia O que não calou dentro de nós, que organizei ao lado de Paulo Rodrigues, é mais que um livro: é o manifesto de fundação do coletivo Vozes do Vale. Ela nasceu da urgência de mapear e revelar a força da poesia contemporânea que brota no Vale do Pindaré. Reunimos seis autores : Anna Liz, Carlos Vinhort, Evilásio Júnior, Luis Henrique Sousa Costa, Paulo Rodrigues e eu , para provar que a nossa região não é apenas paisagem, é linguagem viva. O projeto é o registro desse ajuntamento de vozes que decidiram que o silêncio não seria mais o nosso lugar.

 

O que muda na sua escrita quando você está em diálogo com outras vozes femininas?

 

Escrever em diálogo com essas  vozes muda antes de tudo, a direção do olhar. Esse encontro desloca a escrita do 'eu'  para o 'nós' que resistiu. O diálogo retira a palavra do abstrato e a ancora no corpo.  A palavra deixa de ser um exercício individual de estilo e passa a ser um elemento coletivo.Eu escrevo com mais rigor, porque sei que minha voz agora carrega o silêncio de quem veio antes e a urgência de quem escreve comigo hoje.

 

Como você percebe o papel das academias e associações literárias hoje?

 

Eu vejo as academias como guardiãs da memória, mas elas não podem ser museus de portas fechadas. O papel delas hoje é o de servir como um ponto de atrito saudável entre o que já foi consolidado e o que está nascendo agora. Uma academia só faz sentido se ela tiver janelas abertas: para escutar a rua, para entender as novas urgências e para dar abrigo a quem está produzindo literatura no   presente.

Elas cumprem seu papel quando deixam de ser apenas lugares de honraria e passam a ser lugares de trabalho e debate. A literatura hoje exige mais do que conservação; exige que a gente saiba ler as rachaduras e as novas vozes que estão ocupando as margens.

 

Sua poesia já foi traduzida para outros idiomas. Como você percebe essa travessia da sua palavra para outras línguas?

 

Ver minha poesia em outro idioma é descobrir que o que dói ou o que pulsa aqui, também pode encontrar eco do outro lado do mundo, mesmo com um sotaque diferente.

O que me fascina na tradução não é a cópia, mas a descoberta de que o meu 'chão' pode ser lido em outra geografia. A poesia atravessa a fronteira quando a experiência humana que está nela é maior que o dicionário. É a minha raiz testando um novo céu.

 

Como você enxerga o papel da poesia hoje, em um mundo tão acelerado e saturado de discursos?

Na minha concepção, a poesia é a sobrevivência do que é humano e que não cabe num algoritmo: é a insistência da imagem contra a dispersão do olhar.

Eu a vejo como a última barreira contra a automatização da alma. Num mundo de discursos prontos, ela é a palavra que ainda tem nervo e que se recusa a ser consumida rapidamente. Ela não serve para explicar o mundo, serve para impedir que a gente se esqueça de que o mundo é profundo e, muitas vezes, dói. É o fôlego que sobra quando tudo  cansa.

 

Existe poesia no cotidiano mais pragmático?

No meu, sim (risos) e ela é a margem de erro (ainda bem) A poesia no cotidiano não é um enfeite, é o que sobra quando a função acaba. Está no ritmo da faca batendo na tábua, no peso da caneta ao assinar um papel, no silêncio entre um compromisso e outro… O pragmático é o trilho, mas a poesia é a faísca do ferro no ferro. Ela acontece quando o exato falha e a vida reclama o seu direito de não ser apenas útil.

 

Quais são os atravessamentos de ser mulher no seu percurso literário?

Um deles, é o peso da realidade contra a leveza da frase. Ser mulher me exige uma honestidade brutal com a linguagem; eu não tenho o luxo do distanciamento. Minha poesia nasce desse aperto, entre o que esperam de mim e o que eu realmente sou. O resultado é uma escrita que não pede licença para existir. Ela é o registro de uma sobrevivência que virou estilo.

O outro, é o próprio chão. Ser mulher na literatura me deu o olhar para o que é minúsculo e, ao mesmo tempo, violento. Escrevo com a memória de quem foi silenciada antes de mim, mas sem a obrigação de ser apenas 'vítima' ou 'musa'. Minha escrita é o lodo e o cristal dessa experiência: ela aceita a dor, mas não se deixa paralisar por ela. É o direito de ter uma voz que seja, ao mesmo tempo, política e profundamente íntima.

 

Qual das suas obras mais lhe toca? Tem alguma com um lugar especial no seu coração?

Todos os meus livros têm o seu peso e importância, mas, o Pequeno Ensaio Amoroso é o meu lugar de repouso e de dor. Ele nasceu de uma necessidade muito íntima de falar com a minha mãe depois que o silêncio se impôs. Dedicar essa obra a ela foi um modo de dar corpo à saudade e transformar o luto em matéria viva. De todas as minhas obras, é a que mais me toca porque ela não buscou o reconhecimento do mundo, mas a permanência de um vínculo que a morte não consegue apagar.

É a minha escrita mais desarmada.

 

Quem quiser adquirir os seus livros, como deve proceder?

Meus livros anteriores  como Palafitas, Amanhã, serei uma flor insana, Pequeno Ensaio Amoroso , Plantação de Horizontes e Alfinetes  estão disponíveis nos grandes marketplaces como Amazon e Americanas, além do site da editora Litteralux. Já o meu trabalho mais recente, Territórios Invisíveis (Poemas da Carne e da Memória), pode ser encontrado em Teresina nas livrarias Nova Aliança e Entrelivros. Quem preferir um contato mais próximo ou um exemplar autografado, pode falar diretamente comigo pelas minhas redes sociais. Será um prazer fazer essa ponte.

 

E quem quiser te encontrar? Divulgue as suas redes e faça o seu jabá.

"Para quem quiser seguir o fio dessa conversa, acessem minhas redes sociais.

É por lá que eu sinto o pulso de quem me lê e onde a gente encurta a distância entre a autora e os leitores(as). Se você gosta de uma poesia que não pede licença e quer acompanhar meus próximos 'territórios', aparece lá. Vai ser um prazer te receber.

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