Entrevista com Angella Saturnino
Por Denise Veras Em: 30/09/2026, às 10H15
“A palavra foi e continua sendo o meu lugar de fuga e conforto.”
Angella e eu ainda não nos conhecíamos. Ela entrou em contato comigo demonstrando interesse em me apresentar seu trabalho e, de cara, eu me interessei pela iniciativa. Marcamos e ela, britânica, cumpriu com o combinado, me entregando habilmente as respostas de todas as perguntas que fiz. É muito bom quando a literatura nos surpreende com trabalhadores da arte que têm interesse em difundir o fruto de seus esforços.
Do lado de cá muito me alegrei em ter conhecido Angella e ter tido a oportunidade de adentrar seu universo poético.
A nossa primeira pergunta sempre é: você é natural de onde?
Sou natural da cidade de Itainópolis, lugar onde cresci e aprendi tantas formas de ser e de não ser também, cidade que sempre estará dentro do meu coração.
Que bonito, Angella. Tolstói dizia que a melhor maneira de ser universal é pintando sua próprias aldeia. Você considera que conta a sua história através do seu lugar?
Sempre, eu acredito que é impossível voar sem ter um lugar para onde voltar. Nós precisamos de destino na vida, de nos sentirmos acolhidos(as) de alguma maneira, mesmo quando não é da forma como a gente espera, ainda assim há algum aprendizado nisso.
Sobre o seu livro “Nada exemplar”, como ele nasceu? Havia um projeto definido desde o início ou os poemas foram se organizando aos poucos?
Nasceu da minha necessidade de desabafar, enquanto me refazia nesse processo. A palavra foi e continua sendo o meu lugar de fuga e conforto, quando eu preciso fugir da realidade é na escrita que acho o afago necessário para seguir em frente. Então, a necessidade de escrever veio antes do projeto em si, ele se construiu e se impôs para mim e, eu entendi que poeticamente estava tornando meu processo de transição de gênero menos doloroso. Porque de alguma forma, encontrei uma maneira de canalizar as minhas angústias, inquietações e insatisfações.
Existe um poema ou verso que você considera a porta de entrada para entender o livro como um todo?
Sim, eu acredito que o último poema intitulado “Nada Exemplar”, que carrega o nome do próprio livro e, quando escrevi ele pensei exatamente em deixar esse recado, que a minha preocupação com esse livro não era sintática, não me prendi nas formas, a minha intenção foi sempre dar sentido para as minhas palavras. Logo, eu deixo claro no poema citado: ali contém um constructo de vozes que não carecem de pontos, vírgulas, reticências... Porque o conteúdo dele fala por si só, nesse sentido, não teria um poema melhor para fechar esse livro e para deixar a sua mensagem.
A pergunta que não pode faltar: que autoras ou autores você sente que dialogam com sua poesia, seja por afinidade ou por oposição?
Não sei dizer se dialogam com a minha poética, mas eu sei que me inspiram grandemente e me constroem a cada dia também, porque escrever é construção diária, e essa inspiração surge de lugares mais ou menos óbvios. No entanto, eu sou fortemente influenciada por Carolina Maria de Jesus, digo isso porque através dela eu enxerguei possibilidades, outros nomes também me atravessam como Conceição Evaristo, Maria Ilza Bezerra e Maria Firmina dos Reis. Também sinto que ler Castro Alves me modificou enquanto escritora, entendi através dele que a dor humaniza, mesmo que seja necessário dizer coisas não tão palatáveis.
O corpo aparece como tema recorrente em muitas poesias contemporâneas. Como ele se manifesta na sua escrita?
O corpo é um ponto de partida, porque a minha escrita emerge daquilo que vivo no meu cotidiano, das minhas inquietações, indagações e indignações. Sei que não é tão fácil falar sobre o corpo, a vivência de uma pessoa trans em sociedade sem cair na vala dos estereótipos, por esse motivo, busco através da minha escrita restituir a nossa humanidade. A dor que dói em uma pessoa cis, também dói em uma pessoa trans, nosso corpo não é imune ao sofrimento, não somos mais fortes e mais aguerridas por suportar tanto, não há romantismo em sofrer, não há.
É uma fala muito forte. Sua trajetória pessoal atravessa esses poemas de forma explícita ou ela aparece mais como camada subterrânea?
Aparece de ambas as formas, eu costumo dizer que minha escrita parte das minhas experiências, mas não se encerram nelas. O fato de eu ser uma pessoa trans me faz enxergar uma realidade muito mais crua, infelizmente. A minha forma de lidar com essas agruras é por meio da arte, tenho a escrita como uma grande aliada e um suporte que recorro.
Você sente alguma expectativa do mercado editorial ou da crítica de que autoras trans escrevam sobre certos temas? Como você negocia isso, ou resiste a isso, na sua escrita?
Olha, eu tenho muita esperança dentro de mim. Acredito sempre que só precisamos de uma oportunidade, de alguém que acredite naquilo que temos para apresentar ao mundo. Então, eu tenho muita gratidão a tudo que conquistei até aqui, mesmo que a duras penas. Por isso, vejo como resistência o fato de seguir em busca dos meus sonhos. Não costumo focar nas portas fechadas, assim como não esqueço das que me foram abertas.
Existe algo na sua poesia que você gostaria que fosse lido antes de qualquer rótulo, de identidade, de gênero, de biografia?
Sim, gostaria que as pessoas entendessem que o fato de ser travesti, embora me apresente, na maioria das vezes, não me resume. Sou uma pessoa que viveu e vive as dores e as delícias de qualquer um ser humano. A minha escrita é muito atravessada pela minha infância, pelos meus afetos e desafetos, sempre peço para que meus leitores tenham cuidado com a minha criança, que em muitos textos está sob o cuidado de quem lê.
Como tem sido a recepção do livro até agora, tanto do público quanto da crítica?
Considero positiva, visto que eu não me apresentei como um exemplo a ser seguido, mas como uma autora que está em construção e que se orgulha de estar em constante aprendizado. Recebo sempre o afeto e o carinho das pessoas com muita honra, quero que as pessoas saibam que a literatura nos diz respeito, esse é o meu ponto. A cada vez que falam sobre algum texto comigo, fico impressionada com isso e, muito feliz também.
Você sente que há espaço suficiente para vozes trans na literatura brasileira contemporânea? O que ainda falta?
Me parece que confundem ser uma pessoa trans com não ter conhecimento, sinto um certo incômodo em como algumas pessoas olham de cima, de forma que a literatura parece um universo impenetrável. A sensação é de que os olhos estão sempre mais atentos, em vigília, buscando algum defeito que justifique tamanha ousadia. Trazendo para o contexto piauiense, sinto uma certa resistência das pessoas daqui e de fora daqui, parece que elas não compreendem que a arte pode ser feita em diversos lugares e em diferentes situações. Em síntese, nós somos educados para não descentralizar a cultura, então o que é feito num lugar que têm mais acessos, sempre vai ser visto como pioneiro, inovador e revolucionário. Acontece que nem todo mundo possui as mesmas oportunidades e nem a validação necessária para ser considerado/a relevante na literatura.
Que leitora ou leitor você imagina quando escreve, existe um interlocutor implícito nesses poemas?
Eu não penso muito em um leitor específico, acredito que esse leitor/a surge com o tempo, por mais que existam entrelinhas nas minhas produções, eu sempre escrevo partindo de sentimentos verdadeiros. É nesse aspecto da minha escrita que me atenho, o de ser fidedigna com aquilo que acredito. O que vier depois disso, é consequência da minha verdade, que não é a única, mas é a que respondo por ela.
E por falar em recepção, você sente que a crítica literária brasileira já tem um vocabulário adequado para ler literatura trans, ou ainda falta esse repertório? Isso muda a forma como você mesma se posiciona diante do que escreve?
O mundo ideal seria aquele que nós não tivéssemos a necessidade de dar foco para uma característica de alguém, porque a sua produção já fala por si só. No entanto, vejo que ainda é preciso se reafirmar, mostrando uma nova perspectiva: a de que também produzimos arte e intelectualidade. Eu não percebo uma falta de repertório, mas noto uma tendência de nos cederem apenas determinados espaços. Quanto a forma que me posiciono, é a de sempre estar em busca de difundir a minha arte e evidenciar que levo tudo isso muito a sério, e assim espero também ser levada.
O que você está escrevendo agora? Esse livro abre ou fecha um ciclo na sua trajetória?
Esse livro me possibilitou abrir os olhos, a enxergar um horizonte cheio de oportunidades. Me deu um gás em produzir outras coisas, e atualmente eu estou em um processo de escrita e revisão de um projeto, que acredito que não demora tanto a sair do forno. Acho poético que eu tenha me proposto a não ser um exemplo perante ao público, mas que mostre que também sei construir dentro das regras e sob o crivo das formas.
Angella, estamos finalizando. Se você pudesse dizer uma frase para quem está lendo esse livro pela primeira vez, qual seria?
Diria para que possam ler de peito aberto, esse livro precisa da oportunidade e de um olhar mais sensível. Eu escrevi ele de peito aberto também, por isso ele contém imagens tão doloridas e por vezes indigestas.
Quem quiser entrar em contato com você ou adquirir sua obra, te encontra onde? Faça o seu jabá.
O livro está disponível no site da editora A Arte da Palavra, eu também tenho sempre comigo alguns exemplares, para quaisquer dúvidas estou a disposição e a editora também. Estou em todas as redes sociais como Angella Saturnino, me coloco sempre a serviço dessa obra, então para mim é uma honra atender aqueles que se interessam pela minha arte.

