Eis um haicaísta!

Hildeberto Barbosa Filho

O haicai virou modismo no território da poesia brasileira contemporânea. Talvez pela aparente e enganosa facilidade de juntar três versos, livres e brancos, ou mesmo em redondilha maior e menor, rimados, conforme certos padrões estéticos, muitos poetas se acham no direito de cultivá-lo E cultivá-lo irresponsavelmente…

Nesta seara, e até aonde posso ter acesso, percebo que uma das leis da dialética, aquela que diz que a quantidade, em dadas circunstâncias, se transforma em qualidade, não se consuma no seu lógico desiderato. A maioria dos ditos haicaístas não fazem, de fato, o haicai, simplesmente porque não fazem, de fato, a poesia.

Não obstante, existem as exceções que confirmam a regra, ao mesmo tempo em que comprovam que é possível, sim, fazer o haicai com vigor poético e dentro da antiga e legítima tradição oriental.

Haicais do sol (2023) e Estação da natureza (2024), de Dilson Lages Monteiro, ambos publicados em Teresina (PI), pela Nova Aliança e Entretextos, respectivamente, exemplificam, a contento, a minha afirmação, observados os instrumentos técnicos e os motivos característicos desta singular forma poética.

Os títulos já me chamam a atenção, na sua força catafórica, para o elemento primordial da natureza, presente na ampla maioria das peças líricas coletadas, e, por outro lado, para a maneira com que este elemento nuclear e fundante se deixa explorar na grandeza e na harmonia de sua alteridade.

Vou dar um primeiro exemplo, retirado de Haicais do sol:

 

Gaivota no ar,

se não fosse pássaro,

seria nuvem.

 

A imagem, ingrediente intrínseco ao haicai, na sua fulminante iluminação reveladora, cristaliza o olhar do poeta, deflagrando, no leitor, sensações e pensamentos originais. O quadro paisagístico aí descrito, ou mais sugerido que descrito, parece alterar nossa percepção, na medida em que sinaliza para a possibilidade de fusão dos reinos naturais. Para a possibilidade de a gaivota ser nuvem e a nuvem ser gaivota. Fenomenologia típica da linguagem poética. A

Uma amostra, como esta, pressupõe aquela “leitura silenciosa, visual e mental a um só tempo”, de que fala Massaud Moisés, no seu Dicionário de termos literários. Aqui, uma significação súbita e instantânea pode desencadear percepções novas, associações semânticas inesperadas, experiências epifânicas que nos elastecem o tecido da sensibilidade e da imaginação.

 

O voo das abelhas

Girando, girando na flor

Desfolhou o cheiro.

 

O fio da tristeza

Da coruja com frio

Calou a noite.

 

Nas correntezas

Peixinhos de prata

Espelhos do céu.

 

Eis mais alguns haicais que dão o tom e a perspectiva desta coletânea.

Assegura R. H. Blyth, respeitável estudioso inglês, citado por George Sica, em O vazio e a beleza (2017), que o haicai “é a expressão de uma iluminação passageira, durante a qual vemos na vida das coisas”.

Exatamente isto. “Vemos na vida das coisas”! Ou seja, as coisas, na representação do haicai, revelam-se elas mesmas, na sua vida própria, na sua textura insubstituível, destituídas das intenções, dos afetos, das projeções de quem as vê e as nomeia no plano verbal. No haicai e, por extensão, na verdadeira poesia, as coisas têm vida. Têm verdade, têm dignidade, têm beleza.

Por isto mesmo o haicai me parece comprometido com a máxima simplicidade. A depuração dos ornamentos retóricos, dos excessos simbólicos, dos atavios figurativos, entre outros aspectos, compõem a sua estrutura descritiva, sua intuição filosófica, seu idioma despojado e cheio de irradiações significativas. Sobretudo, daquelas que tendem à “humanização da natureza e a naturalização do ser”, nas sábias palavras do autor de A criação literária.

De Estação Natureza, transcrevo o segundo haicai da coletânea, para justificar o meu raciocínio:

 

Diamante dágua

Parado na folha -

Sol de prata.

 

Dilson Lages Monteiro, com estes dois livros de haicais, foge ao lugar comum dos que praticam o gênero nipônico, já adaptado, a essas alturas, à sensibilidade brasileira na pena de alguns poetas excepcionais, sem a vocação e o talento necessários à composição de forma tão difícil e peculiar.

Ora descritivos, ora filosóficos, ora líricos, ora coloquiais, seus haicais trazem os reinos da fauna e da flora para ocuparem os campos da linguagem verbal, convertendo seus predicados intrínsecos em legítimos produtos estéticos.

À guisa de conclusão, lembro que Dilson Lages Monteiro, piauiense de Barras do Marataoã, não é nenhum estreante. Poeta, ficcionista, ensaísta, Professor de Linguagens há três décadas, membro da APL - Academia Piauiense de Letras, é autor de uma obra literária reconhecida e consagrada, da qual os títulos, aqui comentados, constituem testemunho irrefutável.