E o vento nos levou até a Fazenda Tara

Manhã do dia 02 de junho de 2019. Como já programado, pegamos o carro e nos [José Raimundo Sousa, José S. Carneiro, e eu] deslocamos até o “Assentamento Santa Clara”, há pouco mais de 20 quilômetros da sede do município de União. Pegamos a rodovia PI 112 e nos dirigimos ao Sul, até quase os limites com o município de Teresina. Na altura da localidade Barracão, após transpor um braço do histórico Riacho dos Cavalos, pegamos a primeira estrada à esquerda, um estreito caminho vicinal, que nos levaria ao destino do nosso objeto de pesquisa. Eram por volta das 09 horas quando chegamos ao assentamento.

A princípio, o nosso intento era visitar um velho tronco de madeira que existiria naquelas redondezas e que, segundo referências, era utilizado para açoitar escravos. Depois de muito especular, perquirir e indagar: nada de tronco!...Viagem perdida! Será!? Para a nossa surpresa não. Nos deparamos com outro tesouro ainda desconhecido para a maioria dos unionenses. No “Assentamento Santa Clara” – pertencente ao INCRA – avistamos um antigo sobrado, originário dos anos 30 ou 40 do século passado, ainda habitado, no alto de uma suntuosa colina e rodeado por mata nativa e alguns campos agrícolas. Diante do velho e imponente casario, descemos do veículo, batemos palmas, e esperamos alguém aparecer. No lapso entre as palmas e a recepção dos anfitriões, nos deleitamos em observar sob todos os ângulos os traços do velho casarão, coisa inimaginável para aqueles rincões. Diante de tanta beleza, de duas uma: ou aquilo era fruto da nossa imaginação, ou se tratava da sede de alguma fazenda importante daquelas paragens.

Após sermos recepcionados pelos residentes, que por sinal foram muito receptíveis, passamos a nos inteirar. O velho sobrado era herança da antiga “Fazenda Tara”, um importante latifúndio datado da primeira metade dos novecentos, instalada ali. Não era a Tara dos O'Hara, do clássico norte americano "E o vento levou"; mas a de um importante agropecuarista unionense chamado Joaquim Pereira Barros, o "Quimbarro", ou o "Quim da Tara". A Tara do "Quim" fora bastante produtiva, assim como a do velho Gerald O’Hara do cinema. Na fazenda se plantava, se criava e se produzia. Nos primeiros decênios do século XX , “Quim” se transformara num dos maiores produtores de açúcar do Piauí, posição que o levou a ascender economica e politicamente na região. A lavoura de cana, ainda não abundante como a que se encontra hoje na região era utilizada para a produção de rapadura e aguardente. No engenho da fazenda, denominado Engenho São Cândido, se produzia uma das cachaças mais apreciadas na região - a Aguardente São Cândido. Além de ser encontrada nos balcões dos botecos e butiquins da acanhada União, também era exportada.

Depois de apanharmos algumas informações, iniciamos uma investigação mais criteriosa calcorreando a antiga propriedade. Começamos adentrando no interior do imóvel, composto de um térreo com muitos cômodos, e de um andar. Pelos cômodos, notamos a existência, embora desgastada, de alguma mobília original da época. Na sala grande, entre o terraço e a cozinha, subimos uma pequena escada feita de madeira lavrada, ainda original, que nos levou a parte superior do imóvel. Na parte de cima, há dois cômodos, bastante espaçosos, com algumas desgastadas janelas de madeira com frestas para a frente e laterais da casa. O chão era assoalhado também por madeira lavrada, já em estado bastante desgastado. Pelo que se percebeu, eles eram utilizados para o armazenamento de algum estoque, certamente a produção da Tara.

O que mais nos chamou atenção foi as paredes, bem robustas, construída de tijolo assado, medindo cerca de 70 centímetros de espessura. Não era engenharia para qualquer um! Ao descermos e nos colocarmos na frente do “palacete”, nos dirigimos à lateral esquerda do terraço, onde seguimos por um extenso corredor sombreado por um alpendre que nos levara aos fundos da habitação. Nos fundos avistamos o quintal, repleto de árvores frutíferas, entre elas, muitas mangueiras. Pelas sombras das mangueiras, caminhamos até o fundo do quintal, que se ligava diretamente à mata nativa, que começava logo mais atrás. Logo de cara, avistamos uma “jandáia”, pássaro raro de se encontrar nas redondezas.

Trilhamos uma pequena vereda que nos levou mata adentro, e não demorou muito para nos depararmos com algumas formações rochosas bastante imaginativas, e de confundíves formas. Uma grande rocha nos chamou atenção. Paramos e observamos. A cada piscar de olhos, avistávamos uma forma diferente: uma silhueta humana, um monstro, um dedo apontando para os céus... Estaríamos em "Sete Cidades"!? Ou seria muita "Confusão" em nossas cabeças!?! Imaginamos estar avistando um “moai”. Nos perguntamos: não estaríamos na Ilha de Páscoa?

Após nos deleitarmos com as formas contemplativas da natureza inexplorada da Tara, continuamos o nosso itinerário pela "fazenda". Nos foi apresentado as ruínas de uma antiga capela, situada a oeste da “casa-grande”, há alguns metros, seguindo pela estrada. Ela era utilizada para o exercício espiritual da família do fazendeiro.  Entretanto, infelizmente, não foi possível avistá-la. Já não existia “pedra sobre pedra”. A capela foi o primeiro bem que “tombou” com o declínio da fazenda. José Raimundo Sousa em suas andanças pela propriedade encontrou mata adentro, sob a sombra de uma velha árvore, uma caldeira abandonada, muito enferrujada, certamente a que servia ao Engenho São Cândido na produção de aguardente da Tara do “Quim”. Voltando a falar nele, este tinha uma filha, que lhe é atribuída à colocação do nome de "Tara" a propriedade. A "Tara" do Quim foi inspirada na "Tara" dos O’hara, de E o vento levou, já aqui citado. Dizem que a moça, herdeira de todo aquele patrimônio, era fã da obra, mais tarde filme. Na “boca do povo”, a casa teria traços arquitetônicos da mansão original!!

 Já eram 11:30. Depois de muitas caminhadas, conversas e visitas a moradores, esquecemos o nosso interesse original: a busca pelo tronco dos escravos! Retornamos para União com ganas de que o vento nos levasse de volta a sede da antiga fazenda, ainda cheia de mistérios e histórias a desvendar. A Tara é uma verdadeira máquina do tempo que nos faz retornar a um passado importantíssimo para o desenvolvimento econômico, social, cultural e político do município de União. Infelizmente esse importante patrimônio histórico ainda não foi devidamente enxergado pelas autoridades públicas. A Tara luta contra o tempo. Enquanto a Tara não tomba, a nossa tara sobre a "Tara" continua! Esperamos que logo os ventos nos levem de volta ao casario que um dia foi sede de uma das mais prósperas  propriedades da antiga União.