Diego Mendes Sousa fala sobre Igaraçal
Em: 13/06/2026, às 22H49
João Pedro Alves - Publicada originalmente no Correio Braziliense
"O livro 'Igaraçal' (Editora Litteralux, 2026) consolida o meu amadurecimento estético e criativo, com uma visão lírica e telúrica de profunda investigação existencial".
João Pedro Alves - 1) Como define esse novo livro?
Diego Mendes Sousa - Defino "Igaraçal" como um espaço de travessia e transição poética. O livro se equilibra em um intervalo de tensões sensíveis: a água e o fogo, o transbordamento e a seca, o cotidiano bruto e o encantamento lírico. Funciona como um inventário de assombros e de iluminações, onde a palavra serve para resgatar as memórias e salvar o que o tempo tenta apagar.
2) É um trabalho que remonta às origens? Que origens são essas?
Sim, o livro é um enigmático e mágico mergulho nas minhas origens telúricas, afetivas e universais. Remonta diretamente a Parnaíba, no Norte do Piauí, minha terra natal. Evoca as paisagens litorâneas, o rio Igaraçu, braço do rio Parnaíba, o ambiente náutico (o título deriva de igara, 'canoa' em tupi-guarani) e a vivência do Nordeste costeiro. Resgata a ancestralidade familiar — as figuras dos amigos, dos avós, e a memória física e metafísica da casa da infância. Reencontra as raízes da alta poesia universal e mítica, mesclando o local e o cosmo.
3) Cada poema começa com uma epígrafe. Como reuniu essas referências e qual a importância delas?
As epígrafes foram reunidas a partir da vasta e da constante bagagem de leituras, que transita com erudição pelo vasto conhecimento humano.
Elas funcionam como portais ou faróis que iluminam o caminho de cada poema. Longe de serem meros ornamentos, as epígrafes estabelecem um diálogo intertextual. Elas provam que a poesia não brota no isolamento, mas sim de uma linhagem viva e contínua dos criadores de linguagem de ontem e de hoje.
4)O ritmo da sua produção poética é intenso. A que atribui essa velocidade?
Tenho um ritmo criativo torrencial — chegando a lançar múltiplos livros em curtos períodos de tempo. Atribuo essa velocidade à urgência da própria vocação e à sensibilidade nata. A poesia é uma necessidade vital de registro diante da fragmentação e do tormento abissal do tempo moderno. Meus versos nascem em jorros porque a realidade e a memória exercem uma pressão constante sobre mim, exigindo tradução imediata em canto.
5) O que lhe interessa dizer neste momento?
Neste momento de maturidade estética, interessa a este poeta expressar a permanência da beleza e do sagrado diante das ruínas. Meu objetivo está em dizer o que sobrevive: o afeto, a paisagem interior que resiste ao exílio em Brasília, a fusão do mito com a dor real, e a capacidade da linguagem de fundar um território simbólico de resistência emocional contra o esquecimento do mundo.
6) Como a inserção das fotografias foi pensada?
As fotografias integradas à obra "Igaraçal" são lentes de Jairo Nunes Leocádio, um mestre da fotografia filho da minha cidade natal. Elas foram pensadas como um contraponto visual e sensorial à palavra, expandindo a atmosfera do livro. Elas não servem como meras ilustrações literais dos poemas. Elas atuam como velários da paisagem, capturando os silêncios, as sombras e os horizontes de luz que os versos sugerem. Trata-se de um casamento estético onde imagem e texto dividem o mesmo temperamento nostálgico, místico e geográfico.
A geografia da Parnaíba adquiriu um forte caráter de Pasárgada ou território da infância perdida. O meu distanciamento geográfico aguçou o lirismo da nostalgia. Na minha poética, o cais parnaibano torna-se o símbolo universal do ponto de partida para onde a mente deste poeta sempre retorna para lavar os pés e recuperar a pureza ancestral. Desse modo, Parnaíba fornece a matéria-prima para realizar o que a crítica literária aponta como o maior triunfo de minha estética: partir de uma experiência estritamente local e geográfica para refletir e tocar a experiência humana universal.
Igaraçal é o entre-lugar que remete ao universo náutico, às embarcações de madeira (igara) e ao movimento de travessia.
Parnaíba é geograficamente marcada pelo encontro das águas doces do Rio Parnaíba com o Oceano Atlântico. Essa transição física traduz-se em uma linguagem que flui entre a calmaria do cais e a imensidão abissal do mar.

