Dílson Lages, de Entretextos, apresenta Diário de Cajazeiras
Dílson Lages, de Entretextos, apresenta Diário de Cajazeiras

[Dílson Lages Monteiro – editor de Entretextos]

Somos, todos nós, como leitores, uma expressiva metáfora. Cada livro que habita em nós traz um fundamento de semelhança (por aproximação ou diferença) com algum sentimento ou vivência particular, os quais somente se consegue materializar, de verdade, na forma de palavra escrita. Na pele das letras, no barulho das sílabas, nos passos cadenciados ou sem destino das orações.

Somos metáfora, porque lemos a nós mesmos.  “Todo  leitor é um leitor de si mesmo”, definiu Marcel Proust. Desse ponto de vista, comunga Albert Manguel, ao examinar o poder essencial da ficção, analisando as concepções de Flaubert, diz:

“(...) aprendermos os princípios do nosso comportamento não necessariamente por meio da ação material, mas antes por meio de histórias nas quais esse comportamento se apresenta, com suas várias causas e consequências possíveis. (...) Vemos a nós mesmos atuando sob uma miríade de personificações, e podemos aprender (e frequentemente aprendemos) alguma coisa com o que vemos” (2017: 139).

 Ele conclui que a aparente infinidade de narrativas

“não esgota as possibilidades de interações com o mundo, alguma parte disso, um certo episódio ou personagem, um detalhe particular da história, talvez nos ilumine em um momento decisivo de nossas vidas” (idem: ibidem).

Metáforas não são lidas, porém, apenas a partir de seu fundamento. Antes, ou ao mesmo tempo, em camadas alineares, apresentam-se para nós por operações de pensamento variadas (enumerações, causas e consequências, justificativas, comparações etc). Apresentam-se por intertextos lidos ou vividos — também pela recorrência de marcas de linguagem do gênero textual, da semântica, da morfossintaxe, de contexto. Apresentam-se pelos modos de construção do objeto referido: o sujeito, o tempo e o lugar do dizer.

Frisamos: é assim que aprendemos a ler de verdade — quando nos descobrimos como metáfora de nós mesmos, em operações de pensamento, referenciadas por outros textos e pela dimensão fundamental do discurso: as categorias de pessoa, tempo e lugar.

Chegamos ao ponto de nossa satisfação: Diário de Cajazeiras, de dr. João Luiz Rocha do Nascimento. Esse nome expressivo da magistratura, do magistério universitário e da literatura. Nesta obra, sua escritura ganha novo norte, mas não sem antes se manterem marcas autorais de sua forma de expressão no gênero que o consagrou entre nós, o conto. Agora, a visualidade de seu dizer, a habilidade de elaborar cortes e elisões, sem descuidar-se do tom de conversa requerido pela crônica, mantêm-se como essencial na criação dos efeitos de sentido que o ligam à fragmentação pós-moderna, para projetar a memória à primeira instância de enunciar.

Habituamo-nos a ler João Luiz Rocha do Nascimento pelos contos em que dialogam o cinema, a filosofia e a memória. Habituamo-nos ao desafio de reconstruir a ambiência, às vezes, mais entregues às percepções do leitor que à materialidade do texto, em linguagem apurada, na qual não faltam referências textuais ou interditos e recursos cinematográficos. Habituamo-nos a encontrar, em seus contos, a metafísica gerando dilemas existenciais ou o erotismo pondo a sedução no centro da imaginação.

Agora, lemos o Flash do cotidiano de um jeito bem pessoal. Pelo diálogo entre a crônica de memória em si e o diário. Registre-se que a referência ao diário é muito mais alegórica. O diário, ainda que o passo a passo de uma viagem real às origens no campo, no início dos anos 2000, seja o gatilho das narrativas, é uma simbologia para o tempo, o tempo da infância em sua Cajazeiras do Piauí, antigo povoado de Oeiras-PI e hoje cidade. Ao aludir ao diário, o que vigora é o registro em fragmentos, recortes de vivências marcantes que a voz narradora quer guardar como recordação. O diário funciona como uma fotografia em palavras.

O diário imprime também a ideia de sucessão temporal. Se não a um fato em sequência, a um tempo específico, ou a um lugar: em Diários de Cajazeiras, mais do que a visita ao lugar de nascença, iluminam-se os olhos de um menino à evocação de sua infância no povoado Cajazeiras da década de 1960, sobretudo. Aqui o tempo deixa de ser um fenômeno puramente natural para se transformar em um dado da realidade: uma forma de representação da relação com o mundo, com as coisas e as pessoas. Nesse particular, a memória põe no alto dos degraus a sua dimensão de ficção, lembrando o que dizem Luiz Alberto Brandão e Silvana Oliveira, ao afirmarem que os diários

“são em certa medida ficcionais (lembrando que ficção não é sinônimo de falsidade, mas de suspensão do limite que separa os conceitos de falso e verdadeiro). Tais sujeitos são facetas diferenciadas, máscaras que se trocam, criações mutáveis de nossos desejos. Narrativas de nós mesmos” (2009:19).

                                                                                                                                                                      

Em vinte e dois episódios e dois anexos de homenagem aos genitores, a vida das comunidades rurais do sertão piauiense se descortina em lirismo comovente. Com humor e sentimento verdadeiro. As comunidades rurais da primeira metade do século XX se dão a conhecer: a quase ausência de grandes acontecimentos que não a feira para aquisição de produtos básicos em dia pré-estabelecido; as distâncias num tempo de escassas estradas de asfalto e poucos meios de transporte; os hábitos para vencer a trivialidade do tempo (por exemplo, o jogo de carteado), a dimensão afetiva de familiares e de localidades ligadas a eles (Laguna,Santa-Fé, Grotão, Riacho dos Porcos) ; enfim, a vida do campo e o tempo em que crianças tinham na imaginação o principal brinquedo.

A tudo isso se acrescente, a presença do pitoresco, narrado sem a marca da banalidade e do causo. Para fugir disso, o humor leve e a exploração de uma linguagem afetiva de ênfase na alegria do reencontro e da importância da presença física ou imaginada de pessoas marcantes, por alguma razão cotidiana, na trajetória de vida do narrador. Entra em relevo nesse ponto o ethos que preenche a voz narrativa: a busca de reencontrar personagens, lugares e sensações de outros tempos — porque não dizer a própria identidade perdida — tem como pilar a tênue conexão entre a ternura e a gratidão, amalgamados pela convicção de pertencimento.

Sua Cajazeiras vai se humanizando, mais e mais, à proporção que a leitura avança e que  o menino perseguido pela voz narrativa vai aparecendo sob o manto da recordação. Seus medos, alegrias e sonhos se universalizam em todos os adultos que procuram  a criança que um dia foram. O pequeno povoado Cajazeiras se iguala a todos os povoados do mundo. Mas o modo de dizer é o de JL Rocha do Nascimento, a confirmar que interessa ao escritor, principalmente, colorir a imaginação do leitor com a experiência individual.  

Lendo o Diário de Cajazeiras corroboramos que o tempo não permanece pelas categorias de passado, presente, futuro. Não se estabelece por antes, agora, depois. Ele é uma construção metafórica feita da memória do sentimento. Das sensações do mais profundo da emoção. Da memória do que fica para sempre.

Não é demais relembrar Albert Manguel:

“(...) sabemos que as palavras são nosso meio de estar no mundo, e é através da palavra que identificamos nossa realidade e por meio de palavras somos, nós mesmos, identificados” (2017: 140).

Referências

BRANDÃO, Luis alberto & OLIVEIRA, Silvana Pessôa de. Sujeito, tempo e espaço ficcionais — introdução à teoria literária. São Paulo: Martins Fontes, 2019.

MANGUEL, Alberto Manguel. O leitor como metáfora: o viajante, a torre e a traça. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2017.

NASCIMENTO, João Luiz Rocha do. Diário de Cajazeiras. Teresina: Nova Aliança, 2026.