imagem criada pelo CHATGPT
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Entendidos me disseram mais cedo que a noite não seria tão fria quanto a de ontem — que, segundo eles, foi a mais fria do ano. Não sei. E confesso: não sou entendido em questões climáticas. Aqui no meu quarto — apesar dos agasalhos, das luzes, do notebook ligado e do Garoto que trouxe comigo para me acompanhar na oficina de escrita que começou há pouco — sinto um frio danado.

            Nesta última quinta-feira do outono — mais gélido que coração de vilã de novela — chocolate e literatura, espero, me aquecerão.

Enquanto o professor conta suas Histórias Miseráveis, penso naqueles que, por diversos motivos, não têm teto, poltrona, notebook, agasalhos, guloseimas ou palavras para lhes aconchegar. Os desvalidos de tudo, os miseráveis dos quais nos fala a crônica que acaba de ser lida.

            Para o próximo encontro, orienta o mestre, cada aluno deve produzir um pequeno texto — os devaneios dos cronistas, infelizmente, sempre à mercê dos limites de caracteres. Um texto em que o narrador se depare com uma situação inusitada. Logo me vem à lembrança aquela noite — não tão fria quanto esta — em que subia o morro.

            O sino cravava as onze quando saltei do ônibus. Olhei a lua minguando lá no alto; ajeitei o vade-mécum e os outros livros sob o braço; dobrei a esquina.

Meus passos ecoavam na solidão da rua.

Um sujeito, trepado no muro da escola, olhava por entre os balaústres. Cabreiro, atravessei para a outra calçada. Ele se virou; fingi que não o vi. Súbito, brotou do meu lado feito uma assombração.

— Cara, esqueci minha bicicleta ali dentro, disse, aproximando-se.

Apressei o passo. Nunca gostei de conversar com desconhecidos — ainda mais desconhecidos de aparência estranha e atitudes suspeitas.

Ele insistiu:

— Eu deixei a bicicleta lá dentro porque precisei ir no banco hoje cedo. E só agora lembrei de voltar pra buscar.

Bota esquisitice nisso, não é, cismada leitora? Foi o que também pensei, agarrado aos livros que pegara emprestados na biblioteca.

Eram tempos estudantis e, naquele momento, trazia comigo uns trocados que não chegavam a seis reais, a vontade de assistir ao episódio de Carga Pesada e sonhos — além dos livros, claro.

            — Será que fica alguém vigiando ali?

Eu sabia que não: passava por ali a semana inteira e nunca tinha visto ninguém. Mas não diria isso àquele sujeito cujo rosto se escondia sob o boné e a barba malfeita. Aliás, não queria lhe dizer nada.

— Sei, não — rosnei, apressando ainda mais o passo.

— Cumé que vou fazer pra trabalhar amanhã? Eu trabalho na roça, sabe?

Procurando a claridade dos postes, fui para o meio da rua. O irritante me seguiu.

Olhei de novo para o céu. Se a lua estivesse prenha, talvez o santo guerreiro viesse em meu auxílio.

O vento trouxe atabaques, xequerês e palmas de um terreiro distante. Rapidamente me apeguei aos seus orixás — na precisão, os fervorosos leitores sabem, a gente se agarra a tudo.

            — Cê mora onde?

A boca do estômago gelou.

— É por aqui que cê mora?

Tentando manter a voz firme, respondi que era mais à frente. E ele, em passos cada vez mais largos, retrucou:

— É pra lá que tô indo.

O suor me empapava a camisa. Esse homem vai invadir minha casa, vai roubar tudo o que tenho... vai me matar? De canto de olho, tentei ver se estava armado. Algo pesado em seu bolso fazia a bermuda pender para a esquerda. Pistola ou canivete? Definitivamente, era uma cilada.

— Cê mora lá pros lados do Boqueirão? — perguntou quando nos aproximávamos da encruzilhada.

Num impulso, menti que sim. Ele baixou a aba do boné e estacou. Vai me atacar, pensei, preparando-me para gritar como um histérico.

            — Vô nessa, gente boa.

E, dizendo isso, enveredou pela rua de baixo.

            Entrei em casa tremendo mais que vara verde.

Nem lembrei de ligar a televisão.

 

*escrita durante a oficina de crônicas do Professor José Castello realizada pelo IEL - Instituto Estação das Letras - no primeiro semestre de 2026