Imagem do Piauí colonial
Imagem do Piauí colonial

* Reginaldo Miranda                                                                                                        

Entre os pioneiros colonizadores de nosso sertão figura Manoel do Rego Monteiro e sua esposa Maria da Encarnação, que estabeleceram seu domicílio no Piauí em princípio do ano de 1719, quando arremataram os dízimos do Pyaugohy e ribeira de Pernagoá, em parceria com o sargento-mor Feliciano Pereira Bacelar.

Manoel do Rego Monteiro era português, ao que se supõe, tendo nascido por volta do ano de 1675. Mais tarde, mudou-se para a vila de Cachoeira, no recôncavo baiano, onde convolou núpcias com Maria da Encarnação, e constituiu família.

Depois de empreender viagem para São Luís do Maranhão, compareceu em 21 de janeiro de 1719, ao edifício da Provedoria e respondendo ao pregão, depois de cobrir lances menores, arrematou o contrato dos dízimos da capitania do Pyaugohy e ribeira de Pernagoá, pertencente ao triênio 1719/1720/1721, pelo preço de quarenta e sete mil e quinhentos cruzados, comprometendo-se a pagar na forma seguinte: vinte mil cruzados pagos por todo o ano vindouro de 1720, e o restante para todo o ano de 1725. Conforme consta no auto de arrematação, o lanço vitorioso foi “de Manoel do Rego Monteiro, morador na Cachoeira, distrito da Bahia, que presente estava por si, e como procurador bastante que mostrou ser de Feliciano Pereira Bacelar, outrossim morador no mesmo distrito, sócios em igual parte”(AHU – Maranhão – Doc. 1455).

Tudo faz crer que os sócios mudaram-se para o Piauí em princípio daquele ano e foram bem sucedidos na cobrança dos impostos e no cumprimento das demais cláusulas contratuais, porque em sociedade ainda viriam a arrematar os mesmos dízimos em outras oportunidades.

Novamente, encontramos documentos de nova arrematação pelos mesmos sócios e dos mesmos dízimos relativos ao triênio 1725/1726/1727. Desta feita encontraram grandes dificuldades para arrecadar dos dízimos do Riacho do Pernagoá, como então se chamava a região do extremo-sul do Piauí, vez que os dizimeiros de Pernambuco não reconheciam aquela região como anexada ao Piauí e, consequentemente, ao Estado Colonial do Maranhão, opondo diversos obstáculos aos indicados contratantes.

Por essa razão, buscaram os referidos contratantes a interferência de el rei, dizendo que “da sua cobrança lhes põem dúvidas sobre os que tem Pernambuco com a dita cidade do Maranhão, uns dizimeiros com outros, querendo que o sertão do Pernagoá pertença a Pernambuco contra o que sempre se fez arrematando-se no Maranhão o que tocava ao Pernagoá, e assim consta do termo da sua arrematação junta,  o que se fez sempre com razão por ficar mestiço o Piauguí com a Peraíba e não haver  entre um e outro sertão, rios caudalosos; e do rio de S. Francisco até a Pernaíba serem somente 8 diasde viagem, e deste mesmo rio ao Piauguí serem outros tantos dias, correndo as vertentes de um e outro rio para a Capitania do Maranhão fazendo o Pernaíba rio caudaloso, donde em embarcações se atravessa para o Maranhão, cujas razões foram causa de se ordenarem os seus dízimos para o Maranhão, e não para Pernambuco que fica em distância de mais de duzentas léguas, e assim se acham os suplicantes em grande dano pela falta da cobrança de dízimos com as dúvidas e impedimentos que lhe fazem os de Pernambuco se não poderem satisfazer pontualmente o seu contrato, e assim protestam já pelo dito impedimento, e de se lhe dever abater a importância os dízimos que não cobrarem no Pernagoá na forma da sua arrematação, e para esse efeito requerem se lhe passem as ordens para o governador e provedor do Maranhão façam executar as cobranças dos seus dízimos da sua arrematação e juntamente se lhespasse ordens para o governador de Pernambuco e seu provedor da fazenda para que os rendeiros dos dízimos desta praça não impeçam a cobrança dos suplicantes na forma da sua arrematação” (AHU – Maranhão – Doc. 1455).

Essa correspondência é assaz importante porque os peticionários esclarecem as razões pelas quais, em 1702, havia o termo de Parnaguá sido desanexado da freguesia de São Francisco da Barra do Rio Grande(Barra, hoje Bahia) e anexado ao de Nossa Senhora da Vitória(Mocha/Oeiras - Piauí), sobretudo em atenção à facilidade  de comunicações e ao curso das águas. Em consequência disto é que um ano depois do Piauí(1701), também os sertões de Parnaguá tiveram os seus dízimos cobrados no Maranhão(1702).

Logo depois de estabelecido com fazenda no vale do Canindé, Manoel do Rego Monteiro receberia a patente de capitão-mor e fundaria diversas fazendas. Faleceu por volta de 1732, deixando grande descendência no Piauí. De seu consórcio deixou os seguintes filhos:

1. Josepha do Rego Monteiro, pede a sesmaria São Martinho, no sertão do Gurgueia(1732);

2. Maria do Rego Monteiro, residente na fazenda A Volta, no rio Canindé, foi casada com Hilário Vieira de Carvalho, o velho, vereador de Oeiras, ancestrais das famílias Vieira de Carvalho, Miranda e Rocha, de cujos troncos descende o autor dessas notas;

3. Martha do Rego Monteiro, em 1.4.1729, recebeu em sesmaria a fazenda São Martinho, no sertão do Gurgueia, casada com Mathias Rabelo de Sepúlveda, falecido antes de 1762, filho do capitão Alexandre Rabelo de Sepúlveda, colonizador português, fundador da fazenda Boqueirão, no vale do rio Guaribas, afluente do Itaim, antes de 1693;

Em 1734, dona Maria da Encarnação, viúva de Manoel do Rego Monteiro, doou 16 bois para ajudar na construção do Hospício de Religiosos da Companhia de Jesus, na vila da Mocha, e o seu genro Hilário Vieira de Carvalho, doou vinte mil réis para a mesma causa, inscrevendo-se, assim, entre os beneméritos do lugar. Ficam essas notas para o resgate da memória desses patriarcas piauienses e compreensão de nossa história.

(Publicado no Diário do Povo, 18.12.2016)

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*REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Atual presidente da Associação de Advogados Previdenciaristas do Piauí Contato: [email protected]