[WASHINGTON RAMOS]

                                                 A M O R   E   Ó D I O  -  PARTE II

     Por coincidência, encontrei com ela e a Fernanda logo no início do intervalo, e ela convidou a gente para merendar. Eu disse que estava sem dinheiro, mas ela disse que pagava. Já pensou nisso, Marcelinho, uma garota linda pagar merenda para um cara liso como eu?! Tem também a maneira como ela me olha, os olhos dela brilham muito quando ela fala comigo, e se Você visse a maneira como ela me agradeceu quando me devolveu o livro de Química que eu havia emprestado pra ela. Botou a mão em meu ombro, disse muito obrigada e que eu sou um amigo especial pra ela. Amigo especial. Veja bem, Marcelinho, isso significa que eu sou mais do que um simples amigo pra ela. Isso já define tudo. Agora parece que o chato do Antero está dando em cima dela. Já vi os dois conversando uma vez. Já me disseram que anda espalhando que vai namorar com ela. Que cara idiota! É comigo que ela vai namorar, isso, sim.

  • Olha, Queiroz, acho que Você está confundindo as coisas. Primeiro porque o olhar das pessoas de olhos verdes ou azuis é muito mais intenso e brilhante do que o olhar das pessoas de olhos negros ou castanhos. É uma coisa natural. Em segundo lugar, a Januária é uma pessoa muito bondosa, muito gentil, muito educada. Você está confundindo gentileza com atração pra namoro. Em terceiro lugar, Você não tem condição financeira pra namorar com ela. Você é pobre. Como é que Você vai sair com ela se nem uma motoca velha Você tem? A família dela é de alta classe média. O pai dela é um engenheiro da Siemens que está supervisionando um sistema de telefonia aqui em Teresina. Esse nome Januária foi uma exigência da mãe para homenagear a cidade onde ela, a mãe, nasceu em Minas Gerais. Ela estuda no Pedro II e não num colégio caro como o Diocesano ou o Colégio das Irmãs, porque, quando ela viu a fachada do Pedro II, ela levou um choque emocional, porque se lembrou da fachada da casa de morada de uma fazenda de um tio dela no interior de S. Paulo, onde ela costumava passar férias. Ela foi muito feliz nessa fazenda. São fachadas iguais. Essa é a razão dela estudar no Pedro II. É a preservação de uma lembrança muito querida pra ela. Quem me contou tudo isso foi a Fernanda, que é muito amiga dela. Eu acho que Você não deve se iludir com a Januária.
  • Olha, Marcelinho, tem muitos caras no Pedro II querendo namorar com a Januária. Será que Você também está a fim dela e está me contando tudo isso para eu ser um concorrente a menos?
  • Não, Queiroz, de jeito nenhum! É claro que eu acho ela bonita, mas não sinto atração por ela pra namoro. Eu me enxergo e sei meu lugar. Eu também não tenho condição nenhuma de namorar uma menina como a Januária. Hoje em dia, ela não vai mais para a fazenda do tio dela em S. Paulo. Parece que ele vendeu a propriedade. Agora nas férias ela vai pra Paris, para Londres. Eu não tenho a menor condição de acompanhar uma menina dessa.
  • Ah! Como Você é pessimista e classista, Marcelinho! Pois eu vou em frente! O amor vence tudo, inclusive as barreiras sociais entre as pessoas, principalmente um amor puro, forte e verdadeiro como o que eu sinto pela Januária. Já vi vários casos de amor entre rico e pobre que deu certo. Outra coisa, Marcelinho, Você diz que ela é rica, mas ela sempre chega no colégio a pé com a Fernanda.
  • Às vezes, ela chega de carro. Ela mora perto do colégio, mora ali na rua Olavo Bilac. Eu já vi ela chegando de carro. Boa sorte pra Você, Queiroz!
  • Obrigado, Marcelinho! Até amanhã no colégio!
  • Até.

No dia seguinte, os alunos do Pedro II esperavam a abertura daquela enorme porta que fica na lateral do colégio para eles entrarem quando um Opala Diplomata de quatro portas parou e dele desceu um rapaz bonito e forte. Ele abriu a porta da frente do passageiro, e a Januária desceu. Os dois se abraçaram e trocaram um selinho. Antero e Queiroz, vendo aquela cena romântica, que deixou todos muito admirados, sentiram vontade de partir para a violência. Ambos olharam para uma pedra na sarjeta. Eles haviam comprado presentes para a Januária sem que o outro soubesse. Estavam escondidos na mochila de cada um. Antero, com o dinheiro que a mãe lhe dera para merendar, passou numa floricultura e comprou uma rosa vermelha. Queiroz, com o dinheiro que ele vinha economizando há mais de três meses para comprar um skate, passou na LOBRÁS e comprou uma caixa de bombons finos, embrulhou num papel branco para presente e arrematou com uma fita vermelha dando um laço.

Os outros alunos entraram no colégio. Eles dois, não. Cada um seguiu um rumo diferente. Antero, após dobrar na primeira esquina, tirou a rosa da mochila e a pisou como se estivesse esmagando a cara da Januária ou a própria cara, pois se chamava de idiota e burro.

Queiroz foi andando sem destino. Encontrou um mendigo e lhe ofereceu a caixa de bombons. O mendigo, com bafo de cachaça e de sarro de cigarro, falou: “Não quero essa frescura, não; quero é dinheiro.”  Queiroz disse: “Você tem razão, senhor mendigo, é realmente uma frescura e grande.” Recebeu a caixa de volta, jogou-a para cima e deu-lhe um chute com toda a força de seu pé direito. Ela foi cair a uns cinco metros de distância já meio esfrangalhada. Ele terminou o serviço, pisoteando-a e falando: “Isto é pra tu aprender e deixar de ser abestado! Querendo namorar com uma nojenta que se agarra com um macho no meio da rua. Idiota!”