[WASHINGTON RAMOS]

                                             Ú N I C A   O P Ç Ã O

     Com o bilhete na mão, ele não sabe o que fazer; não sabe para onde ir. Sente como se tudo estivesse ruindo a seu redor, como se ele próprio estivesse se estirando num altar de sacrifícios para ser imolado. “Dona Carla me pediu para lhe entregar este bilhete.” Havia uma pontinha de riso na voz da empregada. Ô, humilhação! Ser motivo de zombaria para uma doméstica! “Pegue suas coisas e vá embora de minha casa. Está tudo acabado entre nós dois. Nosso filho fica comigo. O carro, também. Não venha com onda de me pedir pensão. Você não tem moral pra isso, pois quem sempre sustentou esta casa fui eu. Não se preocupe com suas compras em meu cartão de crédito. Vou pagar todas. Apenas suma de minha vida. É só isso que te peço. Carla Ribeiro.”

     Agora, com o bilhete na mão, ele se lembra dos pais, que pediram tanto que ele não se casasse com a Carla. Dizem que intuição de pai e mãe não falha. Realmente não falhou em seu caso. Sua mãe tão bondosa, tão amiga, a vida toda cuidando dele e dos irmãos para que fossem pessoas dignas, e ele agora numa situação indigna para um homem. Sua mãe, que chorou tanto quando soube que ele estava andando com maconheiros e fumando a erva. Ela veio lhe perguntar se era verdade, e ele, covardemente, negou e continuou na companhia daqueles trastes. Foi preciso que um deles fosse preso por porte de entorpecentes para ele se tocar e se afastar.

     Lembrou-se do pai, tão dedicado à família, tão trabalhador, que procurava ser seu amigo, mas era rejeitado, pois ele, influenciado pelas más companhias, achava que o pai era um careta. “Filho, não se case com essa moça; ela é de condição social muito superior à sua; é de alta classe média; isso não dá certo.” Ele teimou e casou, inclusive achando que estava fazendo grande coisa, que ia ser feliz. Não foi nem está feliz. Pelo contrário, com o bilhete na mão, está amargando a dor de um pontapé precedido pela disputa da herança do sogro entre ela, sua mulher, e os irmãos dela. Após a morte do velho, aumentou o desprezo dos cunhados por ele como se ele representasse uma ameaça à distribuição dos bens. Com certeza, eles pressionaram a Carla para se livrar dele. Ele e a Carla passaram então a trocar olhares vazios, frases frias e a repartir a famosa solidão a dois.

     Começou a sentir raiva de si mesmo, se recordando de que nunca foi aceito pela família da Carla. Os cunhados sempre olharam pra ele por cima do lombo e com nariz empinado. Os sogros não escondiam o desdém que sentiam por ele. No único Natal em que deixou de ir para a casa dos pais para ficar com a mulher na casa dos sogros foi vítima de pilhérias. Mas conseguiu dar o troco em uma delas. Foi quando o Freitas, o irmão mais velho, disse que havia visitado o MoMA em Los Angeles, e o irmão mais novo, rindo, disse: “Mas explica aí, Freitas, o que é o MoMA porque tem gente que não sabe e pode pensar que é mama.” Ele, então, aproveitou e bateu com força: “Vocês dois é que pensam que é mama, porque MoMA é a sigla em inglês de Museum of Modern Art, e ele não fica em Los Angeles, fica em Nova York.” Foi como jogar água fria na fervura. Silêncio total. Os dois cunhados meteram o rabo entre as pernas e se calaram. Os sogros, os convidados e a Carla olharam pra ele com despeito e raiva. Depois, já em casa, ela reclamou: “Por que tu humilhou meus irmãos daquele jeito? Por que não ficou calado?” Ele respondeu: “Não humilhei ninguém, apenas me defendi de uma ignorância que eles queriam atribuir a mim com uma indireta. Das pessoas que estavam ali, sou o único que nunca fez viagens internacionais. Além disso, não tenho culpa se o inglês deles é capenga.”

     Desse dia em diante, o casamento, que já vinha ruim por causa da herança, entrou ainda mais em parafuso, um parafuso que só apertava as dobradiças da solidão a dois. Dormiam em lugares separados. Ela, no quarto; ele na sala.

     Agora, ele ali com o bilhete na mão, sem saber para onde ir. Não tem condição de pagar aluguel nem mesmo de uma quitinete. Pedem avalista, e ele não tem cara de pedir que algum amigo seja seu avalista. As imobiliárias que não pedem avalista exigem um adiantamento de pelo menos três meses de aluguel. Ele não tem esse dinheiro. É um simples funcionário público. A única opção é voltar para a casa dos pais. Vai voltar de mãos abanando, quando devia voltar com condições de fazer a reforma que a velha residência está precisando.