A nova poesia piauiense: versos mínimos, poesia máxima
Em: 05/05/2026, às 12H08
[Dílson Lages Monteiro - professor]
Nas duas primeiras décadas do século XXI, um subgênero de poema ganhou forte simpatia entre leitores. A circulação dele ganhou evidente força a tal ponto que, não raro, seu lugar no sistema literário leva-o a ser comparado ao do soneto no século XIX e na primeira metade do XX. O haicai se consolidou como um tipo de poema já aclimatado à tradição literária nacional e validou uma tendência ou corrente de poemas escritos com poucos versos, mas sem descuidar da plurissignificância própria do discurso literário.
Todo esse cenário é uma construção cultural. Reflete um contexto de absorção de traços linguísticos de um percurso que se inicia com a imigração japonesa, nas primeiras décadas de 1900, e se prolonga com a criação de grêmios literários, espécie de círculos de leitura, de colunas em jornais, passando pela incorporação de concepções oriundas do concretismo, na década de 1940-50, da literatura marginal de 1970 e chega às primeiras décadas de 2000. Agora, porém, incorporando intersemioses da linguagem digital e de domínios discursivos amplamente contaminados pela visualidade, entre os quais, se destaca o campo publicitário.
Na literatura de autores piauienses, a poesia de traços mínimos ganha força inicialmente, entre 1970 e 1980, em autores como Durvalino Couto, Elias Paz e Silva e Rubervam do Nascimento. Para eles, cortar excessos e valorizar a dimensão plástica da palavra são condições indissociáveis da escritura poética, refletindo, em expressivo número de poemas de poucos versos (ainda que isso não se apresente como tônica dominante em todos), mas de “linguagem revertida de significado ao máximo grau possível”, conforme preconiza Ezra Pound.
Essa tendência encontrou em Caio Negreiros e Marleide Lins, esta com poética nascida na literatura marginal de 1970-80, autores conscientes de que escrever menos pode ser significar mais. Negreiros foi pioneiro em 1990, ao criar um bem-acabado projeto de divulgação de poesia em meio virtual, o site Não Ser, no qual poemas mínimos ganhavam movimento, cores e sons. Poesia concebida como uma mescla de linguagens para alterar profundamente o modo de ler.
Nas últimas décadas, essa poesia mínima encorpou-se. Guardadas as especificidades de cada qual no plano da expressão e no do conteúdo, em autores como Ítalo Lima e Alexandre Nolleto, essa forma de dizer achou amparo perfeito. A publicidade e a linguagem dos meios digitais configuram-se vivas no apelo ao leitor, por meio de vocativos e verbos no imperativo; o efeito de choque por rupturas abruptas; a própria disposição gráfica do verso simulando layout publicitário com foco mais no visual e não no texto verbal em si; o uso de registros e usos variados assinalando o hibridismo de gêneros textuais.
Na poética de Alexandre Nolleto, o poema mínimo renovou-se pela exploração metalinguística do suporte. Em muitos de seus versos, confundem-se e se complementam linguagem e suporte. O meio de circulação impôs ao poeta a criação de efeitos de sentido que alcançaria com postagens no Tuiter ou no instagram, espaços em que originalmente seus poemas se publicizaram, semanalmente, com sucesso, nas páginas do jornal O Dia, de Teresina-PI. Em seus versos, a urgência enunciativa e o envolvimento do leitor se fortalecem no uso do aforismo e do humor, com leveza; em poemas neo-românticos, ou de flashs existenciais urbanos.
Nessa mesma linha de literatura mínima, é o que está se desenvolvendo sistematicamente o cultivo do haicai em autores como Thiago E, William Feitosa Jr, Bruno Italo, João Batista, Dílson Lages, este, o escrivinhador destas notas. Para eles, interessa, principalmente, a percepção objetiva do instante e a comparação implícita, o que os mantêm ligados à tradição do haicai, muito embora cada um deles tenha suas marcas individuais e de ressignificação do gênero. Nessa mesma diretriz, está mais de uma dezena de autores do Piauí, com maior ou menor intensidade no cultivo de manifestação poética, conforme evidenciado na antologia Haicai do Japão ao Sertão (Oficina da Palavra), organizada pelos professores José de Nicola e Cineas Santos.
Nessa antologia, figuram os poetas do Piauí Adriano Lobão Aragão, Climério Ferreira, Demetrios Galvão, Dilson Lages Monteiro, Ernâni Getirana, Francisco Magalhães, Graça Vilhena, J.L. Rocha do Nascimento, Marina Campelo, Marleide Lins, Menezes y Morais, Paulo Moura, Rogério Newton, Rubervam Du Nascimento, Thiago E, Val Melo e Cineas Santos.
A propósito, Cineas Santos, de há muito, reverberando marcas linguísticas do fazer literário de 1970, em interlocução com práticas contemporâneas, cultiva o gênero com interesse continuado, em poesia mínima voltada às coisas “miúdas” do cotidiano, de tom ecológico e ironia certeira, às vezes conceitual, outras, em diálogo com a pintura, a fotografia, o cinema, para se fazer ver, ouvir, sentir a identidade piauiense.
Por essas e outras, vale muito a pena ler a poesia mínima, de significado máximo, dos poetas piauienses de hoje. É certeza de imersão no arrebatamento do instante. O aqui e o agora que, para além da presentificação do momento, geram os mesmos efeitos do fascínio do mundo virtual: o impacto do choque visual como presente absoluto.

