A Noite Escura dos Fracos
Em: 17/03/2026, às 23H17
[Halan Silva]
À medida que chegava o fim do mês, João Caminha bebia mais e mais. Era impossível vê-lo longe da cachaça e do cigarro – bebia e fumava compulsivamente, como se o mundo fosse acabar dali a instantes. Alguma coisa o convenceu de que o álcool afastaria os maus pensamentos que pouco a pouco lhe arruinavam a alma. Às noites eram difíceis, de pesadelos com o Brito, o agiota que foi X-9 do DOPS; nos pesadelos o Brito gargalhava, a ponto de mostrar o dente de ouro. Desesperado, Caminha remexia-se de um lado para o outro na cama, e despertava aos gritos, no momento em que os capangas do Brito desciam de um veículo descaracterizado. Quando Caminha não bebia tudo era diferente, esses malditos pesadelos começaram depois que ele estourou a margem de consignados, para saldar uma dívida contraída no pôquer.
Na estação ferroviária, o chefe insistia para que Caminha largasse a bebida e a jogatina, fazia convites para que entrasse na igreja dos crentes. Caminha sempre desconversava, dando a mesma resposta para o chefe: - Quem bebe e joga não pode ter um pingo de vergonha. Temendo a exclusão da mesa de pôquer, Caminha procurou o Brito, um argentário que diziam está com os dias contados: o infeliz tinha pigarro e sofria de uma moléstia desconhecida. Porém, tudo não passava de boatos, o pigarro era forçado e o traste gozava de boa saúde, era longevo, pertencia ao clã dos carneiros, uma gente que só morre depois dos cem anos de idade. O fato é que Caminha se cansou da cara do Brito, por isso recorreu a outro agiota, queria se livrar do ladravaz do Brito a qualquer custo, nem que para isso tivesse que pagar juros mais elevados ao Alcides.
Na mesa de pôquer, o comentário era um só: Caminha fez uma grande burrada - saltou do caldeirão para cair na fogueira. Os ferroviários conheciam o infama do Alcides, ele era da mesma laia do Brito. Pagando apenas os juros da dívida, Caminha se viu sufocado, como um réu sem patrono, razão por que não hesitou em botar a casa na mesa de apostas – mas a perdeu logo na segunda rodada. Os dois meses que lhe deram para entregar a casa passaram como um relâmpago; no cume do desespero Caminha pegou várias vezes o Canela Seca, cal. 38, no cofre. Na primeira vez, faltou coragem para municiar o revólver, limitou-se a apontar a arma descarregada para a sua imagem refletida no espelho, dizendo para ela o que lhe veio à mente:
- “Pow!”, “Pow!”, “Pow!”, toma seu perdedor de merda!
Na segunda vez, foi mais ousado; apesar de embriagado, com a roupa emporcalhada de vômito, Caminha conseguiu meter uma bala no tambor, fazendo-o girar no pino do tambor, antes de encaixá-lo de volta na armação do trabuco, para em seguida tentar a sorte apertando o dedo. Mas, ao sentir o cano do arma no ouvido, tremeu nos cambitos, ficou paralisado, sem condição de acionar o gatilho. Na última vez que Caminha buscou o revólver, estava sóbrio e decidido, sem dificuldade carregou o tambor com seis balas. Entretanto, ao se encaminhar para o cadafalso, ligou para o chefe da estação ferroviária, disse que de corno para cima o chefe era tudo; somente parou de ofendê-lo quando escutou os tiros de foguetes, o que lhe fez lembrar de algo importante: a decisão da taça Libertadores da América. Em poucos minutos, o Flamengo iria entrar em campo para enfrentar o Boca Juniors na Bomboneira. Esse detalhe fez com que ele esquecesse o trezoitão.
- O diabo que perca esse jogo, mas não eu! - Disse em solilóquio, enquanto procurava a camisa do Flamengo no guarda-roupa.
Antes de sair de casa, Caminha conferiu a boniteza no espelho da sala, botou um desodorante barato, pôs a camisa no ombro e saiu para o bar do Gaguinho, para assistir a final da Libertadores da América com os amigos de cachaça. A noite não estava para o Boca Juniors, o Carvalho gritava como um louco, até o Gaguinho que não é de beber entrou na farra. Mas, na segunda-feira a conta veio dobrada, Caminha amanheceu numa sede lascada, com uma bruta dor de cabeça, parecia que seus miolos não cabiam mais na caixa craniana. Para aliviar aquele inferno, tomou um antiácido e foi falar com o Alcides, estava sem um tostão para botar no pôquer. No íntimo, o seu mecanismo de defesa do ego gritava: - o que se perde no jogo, somente no jogo pode ser recuperado. Caminha estava confiante, pela primeira vez a sorte lhe sorriu - não à toa sonhou três vezes com fezes. Alcides não tinha coração, para o diabo só faltava as penas, sempre tirava o couro de quem lhe pedia dinheiro emprestado.
- Tá complicado lhe “ajudar”, a eleição está bem ai, botei uma dinheirama nas mãos de cinco prefeitos, o calote é quase certo. – Disse Alcides, fechando a camisa para ocultar o peito carinado.
- Não gosto de pedir emprestado, mas preciso que me arrume alguma coisa, vou recuperar tudo que perdi no jogo. – Respondeu o Caminha, um pouco nervoso.
Sabendo que Caminha militou no P. C do B, Alcides tocou-lhe nos calos.
- Não se acanhe, gosto de “ajudar” as pessoas, e não se esqueça da lição do velho Karl Marx: Quem não deve, não “tem”!.
- Mas onde Marx disse essa tolice, em O Capital garanto que não foi?! - Respondeu-lhe o Caminha, aborrecido com a desfaçatez do agiota.
- Esse pensamento não está nos livros, acontece que Karl Marx era um cabra conversador, entende? – Respondeu-lhe Alcides, enquanto cheirava as verdinhas.
- Vai já cair um toró, o senhor pode me adiantar logo esse dinheiro? – Perguntou-lhe o Caminha, encurtando a conversa.
- Pegue, vá! O dinheiro é seu. – Entregou-lhe Alcides as notas contadas e presa numa liga.
Caminha foi o primeiro a chegar na boca de pôquer, que os frequentadores mais assíduos preferiam chamar de Cassino Royal. Quando Caminha se preparava para a última rodada, para o tudo ou nada, o chefe da estação ferroviária se aproximou, furtivamente, por trás do espaldar da cadeira de Caminha, justo no momento em que ele botava as últimas fichas na toalha verde. De soslaio, Caminha percebeu o chefe, que não deixou por menos:
- Vida boa, não é seu João Caminha! – Disse-lhe o chefe.
- É, meu amigo, porém breve. – Respondeu-lhe o Caminha, com certa naturalidade.
Depois de perder tudo, Caminha deixou a boca de pôquer e pegou um ônibus com o último dinheiro que tinha na carteira. Durante o percurso ficou pensativo, mas ouviu atentamente a conversa de dois operários, que se acomodaram no banco à sua frente.
- Tô fichado na construtora, lá no Iraque o salário é bem melhor. – Falou o operário mais velho.
- Lá é quente como diabo, o clima do deserto é só para eles, que estão acostumados. - Respondeu o operário mais jovem.
- Mas isso não muda nada, na ferrovia a gente só trabalha à noite. – Respondeu o operário mais velho.
- Ah, se é assim vou fichar amanhã, soube que o avião sairá de Fortaleza na segunda-feira. – Disse o operário mais moço.
- Se você tivesse leitura, poderia pegar a vaga de apontador, está muito difícil arranjar gente com leitura. - Observou o operário mais velho.
Sem ter onde morar, sem ter condições de pagar o Alcides, Caminha resolveu agir como os prefeitos que perdem a eleição: dar calote nos agiotas. A conversa que ouviu no banco do ônibus foi providencial, a vaga de apontador ainda estava aberta. Considerando que o avião iria partir na segunda-feira, Caminha correu contra o tempo, passou em casa para libertar o guriatã, pegar umas peças de roupas e o baralho de 52 cartas e quatro naipes. Ao entrar no ônibus, dormiu quase toda a viagem, acordou na altura da passagem da Serra Grande. Em Fortaleza tudo foi muito rápido, após o embarque imediato, o avião decolou para o Iraque com os operários da construtora. Como dizem que o lobo perde o pelo, mas não perde o vício, Caminha viu ali uma oportunidade de ouro para levantar algum dinheiro - improvisou um carteado em pleno voo.
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