A mulher que passa

 A mulher que passa

 

 

Rogel Samuel

 

 

 

Passa. Ela passa, a viúva, elegante, balanço, o festão, o debrum, nobre, exata, ágil, belas pernas de estatuária, passa, e ele a vê, do café onde bebe ele a vê, perdido, crispado, ele a vê, a sente, a sabe, no seu olhar há o germe de um furacão, no seu olhar há a doçura que se embala, há o frenesi que mata, o relâmpago... ou é o tempo, a noite? Ele, a aérea beldade, e de seu olhar vem um relâmpago de renascimento... ela a verá outra vez? ou só a verá por um instante na eternidade? 

 

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!

Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,

Tu que eu teria amado - e o sabias demais.

 

 

 

A uma Passante

 

A rua em derredor era um ruído incomum,

Longa, magra, de luto e na dor majestosa,

Uma mulher passou e com a mão faustosa

Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.

Eu bebia perdido em minha crispação

No seu olhar, céu que germina o furacão,

A doçura que se embala e o frenesi que mata.

Um relâmpago, e após a noite! - Aérea beldade,

E cujo olhar me fez renascer de repente,

Só te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!

Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,

Tu que eu teria amado - e o sabias demais.

 

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Círculo do Livro, 1995.

Tradução, posfácios e notas de Jamil Almansur Haddad.