A Carta de São Vicente
Por Halan Silva Em: 18/06/2026, às 22H39
[Halan Silva]
Fundada em 22 de abril de 1532, por Martim Afonso de Souza, Itanhaém é a segunda cidade mais velha do Brasil. Por ela, passou o padre José de Anchieta, na missão de evangelizar Tupiniquins e Guaranis, cujos remanescentes são os Guaranis Mbya. Esses indígenas ocupavam um vasto território nas encostas da serra do mar, localizado na parte mais ao sul da Índia brasílica, região com predominância da mata atlântica. Da memória do padre José de Anchieta em Itanhaém, resta o lugar onde ele se abrigava, uma pedra que ficou conhecida como a cama de Anchieta.
Maravilhado com a exuberância e a diversidade da floresta tropical, o padre José de Anchieta escreveu, em 1560, a sua famosa Carta de São Vicente, documento em que, de maneira poética, relata aspectos variados da fauna e da flora brasileira, além de fornecer informações preciosas sobre a cultura dos povos indígenas. É maravilhosa a sua descrição do beija-flor, que soma elementos poéticos e míticos dos povos autóctones:
“Há ainda outros passarinhos, chamados guainumbî, os mais pequenos de todos; alimentam-se só de orvalho; desses há vários gêneros, dos quais uns, afirmam todos, que se geram da borboleta”.
É provável que o padre José de Anchieta tenha se referido a certa espécie de mariposa, a mariposa beija-flor, que possui amplo registro nos biomas do Brasil, em especial na mata atlântica. Ainda que num pequeno parágrafo, a Carta de São Vicente traz a primeira menção às nossas abelhas nativas:
“Encontram-se quase vinte espécies de diversas de abelhas, das quais umas fabricam o mel no tronco das árvores, outras em cortiços construídos entre os ramos, outras debaixo da terra, donde sucede que haja grande abundância de cera. Usamos do mel para curar feridas, que saram facilmente pela proteção divina. Havendo porém, como disse, muitas espécies de mel, falarei unicamente de um, que os indios chamam eiraaquãyeta, que quer dizer, “mel de buracos”, porque estas abelhas tem muitas entradas nas colmeias. Logo que se bebe desse mel, toma todas as juntas do corpo, contrai nervos, produz dor e tremor, provoca vômitos e destempera o ventre”.
Para mim, está evidente, o padre José de Anchieta fala do mel da abelha feiticeira ou vamo-nos-embora que, de acordo com a cultura popular, dizem produzir um mel alucinógeno, que por vezes chega a ser letal. Sobre as abelhas nativas do Brasil há uma obra seminal, mais abrangente que o relato do padre José de Anchieta, trata-se de Memória Acerca das Abelhas da Província do Piauí, no Império do Brasil, de Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco. Nesse opúsculo, Leonardo observa o comportamento das abelhas nativas e o modo como o homem, tanto de maneira racional quanto predatória, beneficiava-se do mel e da cera das quarenta e duas espécies elencadas. Afora isso, Leonardo demonstra grande preocupação com a conservação e preservação da natureza - o que foge totalmente à racionalidade do homem de seu tempo.

