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[Flávio Bittencourt]

Manaus: você tem acesso ao fabuloso seringal apenas por via fluvial

Turismo cultural: entre no livro A SELVA, de Ferreira de Castro!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Filme A Selva 2002 Trailer,

Youtube:

 

Enviado em 05/04/2011

Sinopse:Alberto é um jovem monárquico português que, em 1912, se encontra exilado em Belém do Pará. Através de seu tio, é contratado por um capataz para trabalhar no seringal de Juca Tristão, em pleno coração da selva Amazônica. Após uma longa viagem pelo Rio Amazonas, aporta no Seringal Paraíso e vai trabalhar na extração da borracha sob a proteção do cearense Firmino. Depois de um difícil período no coração da selva, Alberto é colocado no armazém do seringal e aí passa a conviver com Juca Tristão - o patrão, Velasco e Caetano, os seus capatazes, Guerreiro - o gerente, e sua bela mulher D. Yayá, além de um velho e misterioso negro, antigo escravo, chamado Tiago. Em pouco tempo, apaixona-se por Dona Yayá, envolvendo-se com ela em um romance inesperado.
Elenco:
Diogo Morgado (Alberto)
Maitê Proença (D. Yayá)
Chico Diaz (Firmino)
Gracindo Junior (Sr. Guerreiro)
Ruy De Carvalho (Comendador)
Karra Elejalde (Velasco)
João Acaiabe (Tiago)
Cláudio Marzo (Juca Tristão)
Antônio Melo (Filipe)
Carlos Santos (Macedo)
Roberto Bonfim (Caetano)
Sérgio Villanueva (Argentino)
Direção: Leonel Vieira
Ano: 2002
País de origem:BRASIL / PORTUGAL / ESPANHA
Fonte 
http://www.filmesdecinema.com.br/filme-a-selva-4542/

 

 

 

 

 

 

 



ABRAHIM BAZE: PESQUISADOR RIGOROSO CUJO

TRABALHO PERCUCIENTE E MUITO BEM ESCRITO

A RESPEITO DO PRIMEIRO ROMANCE CLÁSSICO

SOBRE A AMAZÔNIA BRASILEIRA, INTITULADO

A SELVA [*], DO PORTUGUÊS FERREIRA DE CASTRO,

É CITADO NO PAPER (ARTIGO ACADÊMICO) QUE ESTÁ

REPRODUZIDO AO FINAL DA PRESENTE MATÉRIA:

 

 

 

 

 

 

 

(http://www.call.org.br/entrevista_Abrahim.asp)

[*] - O primeiro grande romance colombiano sobre a

região é  Voragem  COL  -  recentem o pr  nobel  PERU    nommm rommm

brassss:   JAMACHI (contos)    A SAFRA     BEIRADÃO  

CORONEL DE BARRANCO     GALVEZ    MAD MARIA         

O AMANTE DAS AMAZONAS    FIM DE MUNDO SEM FIM

 

 

 

MUSEU SERINGAL VILA PARAÍSO:

ALGUNS CORONÉIS TINHAM ATÉ OBRAS EM

FRANCÊS, INGLÊS, ESPANHOL, ITALIANO E 

ALEMÃO EM SUAS RICAS BIBLIOTECAS NO

INTERIOR DA AMAZÔNIA:

 

 

 

 

 

 

 

 

Tarde de sol 

o armador da rede

range devagar

 

LUIZ BACELLAR (1928 - 2012)

 

 

 

 

 

 

 

"O ESCRITOR AMAZONENSE MÁRCIO SOUZA AFIRMOU,

EM ENTREVISTA CONCEDIDA A UM CANAL DA TELEVISÃO ABERTA,

QUE O ESTADO DO AMAZONAS NÃO TINHA UMA POLÍTICA CULTURAL E

HOJE TEM."

 

(C R...)

 

 

 

 

 

 

25.1.2013 -  Turismo cultural: V.Sª. pode entrar na literatura de Ferreira de Castro! ( - ) - Visite o Amazonas.  F.

 

 

"Museus

Museu do Seringal Vila Paraíso

 
Diretora:

Maria Nazarene Maia

Gerente:

Judith Guimarães Vieira

Endereço:

Igarapé São João – Afluente do Igarapé do Tarumã Mirim (Zona Rural).

Acesso: Somente por via fluvial (barco: De 25 a 30minutos)

E-mail:
Telefone/Fax:

(92) 3234-8755

Horário:

De terça a domingo, das 08h às 16h.

Histórico:

Este museu é resultado do pólo de cinema do Amazonas, atraindo visitantes que desejam conhecer de perto o modo de ser e viver do homem do seringal, conduzindo os visitantes aos tempos áureos do Ciclo da Borracha.

Acervo:

É formado por ambientações de época - ciclo da borracha - com móveis e utensílios que testemunham a riqueza dos seringais, quando a borracha estava no auge de seu valorização econômica.

Serviços:

Visitas Guiadas, direcionadas a estudantes, pesquisadores, turistas e ao público em geral.

Roteiro de visitação:
  • Trapiche;
  • Barracão de armazenamento das pelas de borracha;
  • Casarão do seringalista;
  • Barracão de aviamento;
  • Capela de N. Sra da Conceição;
  • Banho das mulheres;
  • Trilha das seringueiras;
  • Casa do seringueiro;
  • Tapiri de defumação da borracha;
  • Cemitério cenográfico;
  • Estrebaria;
  • Casa de farinha;
  • Barracão dos seringueiros.
Preço:
  • Inteira: R$ 5,00;
  • Estudante R$ 2,50.
Obs.:
O valor cobrado é remetido para manutenção do museu."

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APRESENTAÇÃO ERUDITA E GENIAL, POR UM AUTOR

ESPECIALIZADO TANTO EM LITERATURA AMAZONENSE,

QUANTO EM HAICAIS, DO HAICAI DE LUIZ BACELLAR,

GRANDE POETA DO AMAZONAS, BRASIL:

"O que é Satori?

 

(Prefácio do livro de Luiz Bacellar,

por Rogel Samuel [COLUNISTA DESTE PORTAL

ENTRETEXTOS])

 

As aves aquáticas

vagam aqui e acolá

sem deixar pegadas

mas suas veredas nunca as esquecem.

 

DOGEN (1200-1253)

 

 

Há uma expressão de Zen que diz: “um espelho de boas qualidades é tão puro como a água que deixou de correr”. Isto, diz Takuzo Igarashi, representa o estado de mente em que se encontra o espírito do Zen, quando toca as coisas se refletem na “sabedoria que é como o espelho”, tão simples e tão claras, que é quando aparecem na água pura de um céu sem nuvens. O céu não está na água, nem a água está coberta de céu. A água pode estar correndo lentamente, de acordo com outra expressão do Zen: “um movimento em tranqüilidade”. Pode-se dizer que o Haicai é espelho da mente do poeta.

2.      A iluminação de Buddha se fez em três etapas. Na primeira parte da noite ele tomou conheci­mento da existência do antes, antes dos estados de consciência. Na segunda parte da noite ele adquiriu o conhecimento de como os seres passam dum estado de consciência (existência) a outro. Neste ponto ele percebeu a lei de dukkha (a lei do Sofrimento) e a lei da Causa do Sofrimento, a primeira e a segunda Nobres Verdades. Enfim, na ultima parte da noite, ele penetrou no conhecimento das causas subjacentes à existência, no processo das origens explicadoras da existência, na origem de tudo, inclusive do Universo. No Dhammapada, v. 153-154, Ele declara solenemente: “Na última vigília da noite, cheio de compaixão pelos seres vivos, fixando meu espírito nas origens interdependentes e meditando acerca da ordem do devir e de sua cessação, ao sol nascente alcancei a iluminação suprema”.

3.      Satori é a experiência do Nirvana, a percepção de um instante. Nirvana significa a cessação do processo de vir-a-ser. É a paz, a tranqüilidade do céu sem nuvens e da água sossegada, mesmo em movimento. A absoluta realização na realidade do instante, na eternidade que o instante porta. Mesmo em um segundo de percepção podemos ver o Eterno. O Nirvana, o estado da mente de um Buddha, não é nem de aniquilação, nem de não-aniquilação, nem outra coisa: só inteligência viva e suprema da Atenção, porque o Buddha disse só haver um caminho para o Nirvana, que é o da Atenção (Sattipatana Suttra), e esta é a Quarta Nobre Verdade, ou Óctuplo Caminho.

 

A libertação repousa na existência da água em tranqüilidade refletindo um céu sem nuvens, ou seja, na Segunda Nobre Verdade, a verdade da Causa do Sofrimeiro, que é explicada por este vira-ser, por esta lei de causa e efeito chamada carma.

O Buddha definiu o carma: “Isto tendo sido, aquilo vem a ser”. Ou seja, não existe um eu substancial, nem alma, pois o processo de vir-a-ser está em completa mutação, e um sujeito não pode ser e estar mudando sempre em cada ponto. O “Eu” é um vir-a-ser, que é carma. O Carma é o que aparece, mesmo o Universo. Sem Carma, não é, portanto nada sofre mudança (ou lei do Sofrimento). O carma cria a roda do Sansara. “Nem Deus ou Brahma podem ser criadores da roda do Sansara; um fenômeno vazio segue seu curso sujeito a causas e condições”, disse o Buddha. Por isto se diz que o Budismo é ateu.

 

4.      Se saber é sabor, a questão “o que é satori” fica sem resposta. Primeiramente, porque poucos o experimentam. É falar do que não se sabe. No Budismo se diz: quem fala não sabe, quem sabe não fala. Só é possível a transmissão de uma experiência através da poesia, do Haicai. Sendo uma experiência, o satori é a apreensão, a percepção do lago velho num céu sem nuvens de Bashô, onde uma rã salta. O satori é a espada do silêncio que tudo penetra. Por isso tudo, mesmo os deuses não têm existência inerente, o Budismo é cheio de deuses, mas todos são vazios, criados por minha própria mente na hora de praticá-los. Vazios de existência inerente, mas cremos que verdadeiros. Pois o Despertar é uma coisa Súbita, Abrupta. Ser, sem objetivo nem proveito, é Despertar.

 

Quando o Buddha vinha de sua Iluminação encontrou um homem que lhe perguntou quem era e quem tinha sido seu mestre. O Buddha não teve mestres. “Sou Aquele que compreendeu o que devia ser compreendido, e abandonou o que devia ser abandonado. Eu sou o Buddha, o Desperto”. Satori significa “despertar para a verdade côsmíca”. Significa “a mente concentrada além do pensamento”, como diria Kapleau. E experimentar a dignidade da realidade e tornar cada atividade um fim em si mesmo.

5.      Budismo é religião? Zen é religião? Podemos dizer que sim e que não. Não como compreendemos as outras religiões, baseadas na fé. Se você tem de ter fé, no Budismo, será fé em si mesmo, e fé no Guru, um homem de carne e osso. E assim mesmo, é dito que você tem de observar o Guru vários anos até se decidir em considerá-lo mestre, Guru é o Buddha. Budismo é ciência, embora mista. Um interessante ensaio de Hannah Arendt, “Religião e política” nos parece muito esclarecedor a respeito. Não a respeito da crítica que ela faz do comunismo, chamando-o de “religião”. Mas do que ela diz acerca da ciência, a “crença no saber”.

 

6.     Na visão impura, há sofrimento e libertação do sofrimento, há céu e inferno. Na visão pura, não há nem sofrimento, nem libertação do sofrimento, nem céu, nem inferno, ou melhor há sofrimento, mas não há sofredor. Na visão pura não há nada que seja certo ou errado. Não há mesmo libertação, porque não há prisioneiro, nem o de que se libertar Não há dualidade.

 

7..     Mas satori é libertação. Libertação de quê? Talvez do próprio questionamento sobre o que satori seja. Libertação do questionador, do sujeito que põe a questão. Portanto, da dúvida e da certeza. Só há dúvida quando pensamos que as coisas podem ser de outro modo. Quando elas não são o que são. Quando as deixamos em paz, sem perguntas, elas não são certas ou erradas, culpadas ou inocentes de serem como tais. Aliás nada há o que perguntar, tudo é prazer e paz absoluta no satori, tudo é ação sem resultado no satori, tudo é. O horizonte da sabedoria e do concreto. Nada mais concreto do que o satori. Hegel, que na Fenomenologia do Espírito falou da “ascensão ao concreto”, sabia. O espírito absoluto é concreto, as pedras são abstratas, na sua indefinição, ignorância e surdez. O concreto é o que se encontra em consonância com o saber.

 

8.      Satori é liberdade. Nega Foucault que haja algo que seja por natureza libertador, já que a liberdade é uma prática. Não existe, diz ele, um espaço apropriado para a prática da liberdade, tal que esta prática possa ser exercida neste ou naquele lugar Mesmo quando um certo espaço é arquitetonicamente projetado para o agir libertário, como o Familistêre (1859) a que ele se refere, o fato de ninguém poder entrar ou sair sem ser visto por todos significava que ninguém era livre, pois todos fiscalizavam a todos, e a investigação representava um fenômeno policialesco (“a vontade de saber”) no campo complexo das relações de poder da distribuição espacial (The Foucault reader).

A liberdade pressupõe a felicidade, e é precisa­mente isto que a sociedade não pode tolerar. Ela até aceita a ilegalidade (a fim de que o poder policial seja possível e justificável). A liberdade é a espera de nada, é um conceito muito próximo do de “libertino”. Dizem que só o imperador era livre. As mais íntimas forças humanas são nega­das pela realidade e tudo contribui para o cerceamento. A liberdade: uma revolução, a irrupção violenta da subjetividade rebelde. Nada a impede. Ninguém pode prender um homem livre, dizia Krishnamurti; podem acorrentá-lo na fossa de uma masmorra, podem arrancar-lhes os olhos, mas interiormente ele permanecerá livre.

 

9.      Liberdade de quê? A liberdade não é um absoluto. A liberdade aqui significa espaço. Pequenas se fazem ás coisas, e amplos, incomensuráveis se dão os espaços da liberdade. Não se pode aprisionar a liberdade de pensamento, além do pequeno ego, aberto a um desconhecido devir, novo, significa ultrapassar esse limite. Não significa fazer o que bem se entende, mas assinar em baixo de suas próprias responsabilidades. Por isso, não existe liberdade sem amor, sem a prática dos símbolos de humanidade, dos vazios sem obstáculos da imaginação concreta de um mundo humano.

 

10.    Mestre Dogen escreveu uma frase enigmática que diz: “o tempo precisa estar comigo”. Se o tempo têm a característica de passar de hoje para amanhã, de ontem para hoje, ser é tempo. O haicai significa isso: “o tempo está comigo”. É uma apreensão do tempo. “Tarde de sol / o armador da rede / range devagar”. O que há de comum entre a tarde de sol, o armador de rede, o som de ranger e os três incluídos e o tempo presente, o tempo devagar; o amazônico é a rede, a tarde. O universo amazônico, a vida amazônica inteira pode estar contida nestes três pequenos versos de Luiz Bacellar. Do sol à terra, da tarde à rede, num golpe, devagar. Toda preguiça do tempo range nos seus gonzos, numa oposição lúcida entre o todo (a tarde) e o uno (rede), numa relação do homem com seu universo. A rede range, sob o sol que está fora. Significa isso, range sob o forte calor, não há corpo sobre a rede que não seja o do poeta que talvez durma, sonhe. O “ar” de “tarde” ressoa no “ar” de “armador” e de “devagar”. Mas é sempre “ar”. O universo encapsulado num grupo de nove palavras se liberta para sempre. Por isso o leitor de um haicai não deve esperar ler muito, o haicai melhor se dá num quadro na parede do que no feixe de páginas de um livro, O haicai é uma janela aberta para o caminho, para a música do Universo.

 

11.    O satori é, pois, aquilo de que não podemos falar, “aquilo de que se deve calar”, aquilo, aquele conceito para o qual só nos podemos aproximar cautelosamente. O satori é negativo, ou seja, sei o que ele não é. O satori é a verdade da poesia.

A poesia não fala de algo, ela é. Só a poesia faz falar o que é, a saber, a linguagem desperta. Por isso, sua luz é a linguagem, que é aquilo que sempre pode mais: revela a profunda agudez das coisas, ilumina o profundo mundo da realidade, a nudez das coisas, acionando o seu vigor, sua liberdade é da ordem da linguagem, que é anterior ao pensar. Só há pensamento quando há um pensador, portanto o aprisionamento do sujeito se dá quando o sujeito se recria ao pensar, ele não pode sair de sua prisão porque ele é a própria prisão, e com o “eu” não há espaço, não há nada além do centro, do núcleo do “eu”. Quando o “eu” some, há o satori. Ou seja, não havendo dualidade sujeito-objeto, há dissolução do sujeito na imensidão onde tudo é alegria, totalidade, tudo é poder da atenção, júbilo. O 'eu' é sempre triste, o 'não-eu' é sempre glória."

 

(http://www.portalentretextos.com.br/especiais/o-que-e-satori,136.html)

 

 

 

 

 

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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.7 no.1 Belém Jan./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222012000100014 

RESENHA

 

Da freguesia de Ossela ao seringal Paraíso: a trajetória de um jovem imigrante português no mundo da borracha amazônica

 

 

Marília Ferreira Emmi

Universidade Federal do Pará
([email protected])

 

 

 

 

"BAZE, Abrahim. Ferreira de Castro: um imigrante português na Amazônia. 2. ed. Revista e ampliada. Manaus: Valer, 2010. 266 p. il. 1 DVD. ISBN 85-7512-194-4

O livro "Ferreira de Castro: um imigrante português na Amazônia", do escritor amazonense Abrahim Baze, editado pela Valer em 2010, consiste numa edição revista e ampliada da edição que foi lançada em Portugal em 2001. Encontra-se encartado na presente edição um DVD do filme "A Selva", baseado no livro com mesmo título que projetou o escritor português José Maria Ferreira de Castro em nível mundial. Esse filme é dirigido pelo também amazonense Márcio Souza.

Resultado de uma longa e intensa pesquisa realizada em Portugal e na Amazônia, o trabalho constitui uma cuidadosa biografia de Ferreira de Castro, que ainda adolescente chega a Belém em 1911 e, não encontrando ocupação no comércio da cidade, é arregimentado ao lado de trabalhadores nordestinos para o seringal Paraíso, localizado no rio Madeira, estado do Amazonas. Ao biografar Ferreira de Castro, Abrahim Baze usa como pano de fundo o romance "A Selva", que aparece retratado ao longo de sua narrativa. Inicia suas reflexões situando a história da extração da borracha na Amazônia, os personagens, atores sociais dessa particular economia sustentada no sistema de aviamento, que caracterizou o extrativismo amazônico. Esse trabalho permite, ainda, aos que não leram o clássico "A Selva", penetrar no universo da obra de Ferreira de Castro.

As relações de exploração que marcaram o sistema de aviamento são descritas em traços precisos por quem é profundo conhecedor desse sistema, demarcando com acuidade o lugar de cada personagem, elos dessa cadeia de dominação/subordinação. Desse modo, aparecem na narrativa as firmas exportadoras, o seringalista, o guarda-livros, o encarregado e o seringueiro. Também há lugar reservado ao regatão, um componente tão presente nessa trama.

Embora privilegiando em sua narrativa o período compreendido entre 1911 e 1914, que marcou a vida de Ferreira de Castro no seringal, Abrahim faz um recuo histórico desde o nascimento na aldeia de Salgueiros – freguesia de Ossela do Conselho de Oliveira de Azeméis – até a vinda para Belém. A decepção do adolescente em não encontrar o tão esperado trabalho no comércio da cidade é o motivo que o leva a ser arregimentado, ao lado de imigrantes nordestinos, para o seringal Paraíso. As agruras da vida no seringal são descritas por diferentes prismas. Abrahim registra, ainda, o regresso a Belém, as dificuldades encontradas nesse regresso e, depois de muitos percalços, a viagem de volta a Portugal.

A saída do jovem José Maria Ferreira de Castro de Portugal se dá no contexto das Grandes Migrações, quando um contingente significativo de europeus de várias nacionalidades atravessa o Atlântico em busca de melhores condições de vida.

A Amazônia, no período áureo da borracha, era o eldorado, um pólo de atração de imigrantes. Zé Maria tem o perfil do imigrante português desse período: jovem com idade inferior a 14 anos, passageiro de 3ª. classe, que emigrava visando trabalhar com um comerciante português, amealhando recursos que permitissem voltar para sua terra com melhores condições econômicas. Chegando a Belém, não consegue realizar esse sonho e a alternativa que encontra é o trabalho no seringal, local incomum para imigrantes europeus, mas que era o principal destino de migrantes nordestinos.

A leitura do livro de Abrahim Baze sugere uma reflexão sobre a economia e sociedade amazônicas do período áureo da borracha aos primeiros anos de crise. Apresenta uma descrição dos atores sociais dessa economia, não apenas por documentos  escritos, como também por fotografias. Neste sentido, chama atenção o anexo com fotografias e a reconstituição da história do seringal Paraíso, importantes registros para a preservação da memória.

A interessante narrativa de Abrahim transporta o leitor para o universo amazônico, rico em belezas naturais que contrastam com as difíceis e até desumanas condições de trabalho a que eram submetidos grandes contingentes de seringueiros, cujas vidas davam suporte à concentração de riqueza dos 'barões' da borracha. Ainda fazem parte desse universo, os índios – antigos donos da terra –, que se sentem incomodados com a presença do estranho e reagem; e a riqueza das plantas nativas, que mereceram cuidadosa descrição por parte do autor. Abrahim também deixa registradas interessantes observações sobre as manifestações culturais dos seringueiros nordestinos, que, por meio de festas e folguedos, buscavam uma fuga do trabalho penoso, ao mesmo tempo em que contribuíam para o folclore amazônico.

O trabalho de Abrahim – embora não seja essa a intenção do autor – aborda as diversas fases do processo migratório: a trajetória do jovem José Maria Ferreira de Castro começa como o emigrante que deixa a aldeia de Ossela, em Portugal, passa para a condição de imigrante ao entrar no Brasil e se fixar na Amazônia, e cumprindo esse percurso, retorna a Portugal. Desse modo, a leitura permite visualizar o ciclo completo do movimento migratório: emigração, imigração e retorno. A perspectiva do retorno, ainda que muito diferente das condições idealizadas, é parte integrante do projeto migratório.

Finalizando, considero o livro de Abrahim uma interessante contribuição para todos os que se dedicam a pensar a sociedade e a economia amazônicas do início do século XX, bem como para a reflexão sobre as experiências migratórias desse período.

Abrahim Baze é graduado em História e estudioso de Museologia. Foi responsável pela organização do Museu Fernando Ferreira da Cruz, da Beneficente Portuguesa, e do Centro Cultural Luso-Brasileiro do Amazonas. É autor dos livros "Luso Sporting Club – Memória da Sociedade Portuguesa no Amazonas"; "História da Rede Amazônica"; "Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas", entre outros."

 

(http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1981-81222012000100014&script=sci_arttext)