Nietzsche por três reais
Por Raphael Cerqueira Silva Em: 23/02/2026, às 20H57
Em frente ao cineteatro, jovens batem palmas nas coxas e nos sapatos seguindo o ritmo da canção. Uma dona para diante da minha mesa e oferece poemas e aforismos.
— Um compilado de textos autorais postados nas redes sociais — esclarece.
Mostro interesse e, tão rápido quanto os passos dos dançarinos, um livreto salta à minha mão.
— Pra ajudar no orçamento. E pra ajudar na transformação do mundo.
Acho que deixei escapar uma de minhas caretas costumeiras, pois a dona, num sorriso quase cansado, diz:
— Poemas são sementes que se lançam em jardins. Algumas frutificam, outras não. Mas o importante é semear.
A ideia, convenhamos, não é das mais originais. Ela, porém, parece captar meu pensamento e, subitamente, desanda a falar sobre Nietzsche e um tal de Übermensch.
— Só três reais. Eu podia pedir mais caro, mas não ia vender. E minha intenção não é explorar, como esses comerciantes aqui do centro fazem.
Não sei a quais comerciantes se refere. Talvez à loja de calçados à minha frente ou ao pipoqueiro; talvez (tomara que não) ao carrancudo que prepara meus pastéis.
Entrego à dona uma surrada nota de dez reais. Enquanto conta o troco, diz que o Übermensch é forte e misterioso como as rochas. Não entendo o alcance dessas palavras: nunca fui bom com filosofias e, de Nietzsche, nada li.
Ela vai, satisfeita, para os lados da galeria. Eu fico olhando os jovens; o pinguço que brotou sei lá de onde e tenta, a todo custo, entrar na roda; e um drone inconveniente que, lá do alto, vigia tudo.

