Marina Fernandes
Por Denise Veras Em: 27/01/2026, às 10H17
Entrevistei Marina. Minha amiga pessoal de longa data e, mais do que isso, uma pessoa bonita a quem admiro pela delicadeza em sua plena forma de estar no mundo. Nossa conversa foi informal e regada a risadas. Marina é simples, de poucas vaidades e um tanto melancólica, mas isso não é triste, é apaixonante.
Marina, este projeto tem por objetivo apresentar algumas escritoras piauienses para o público que talvez ainda não conheça o trabalho de vocês. Sendo assim, diz para a gente, de que cidade você é?
Sou daqui mesmo, Teresina, Piauí.
Você é arquiteta por formação. Você percebe sua graduação em arquitetura influenciando sua forma de construir um texto? De que maneira?
Menina, sabe que eu nunca tinha parado pra pensar sobre isso? Confesso que não sei dizer se a arquitetura me inspira na escrita ou se é a sensibilidade da escrita que me inspira na arquitetura, visto que não consigo mais aturar o que o mercado da arquitetura tem se tornado nos últimos anos, cada vez mais frio, mais reto, e sem profundidade, sem emoção e sem sentido, ao menos para mim.
O que te leva a escrever? Alguma urgência, um questionamento, memórias, um incômodo?
Creio que seja uma mescla de tudo. Minha cabeça sempre foi muito criativa, em todos os âmbitos da arte, se assim posso dizer, já que considero a escrita, também, uma arte. Criar para mim, sempre foi algo espontâneo, natural, visceral, e eu diria que urgente, pulsante. E quando falo em criações, me refiro a tudo: desenho, pintura, escultura, escrita, melodia. Criar histórias me ajudou muito a “sobreviver” na época de escola. Meu aprendizado nunca foi linear, e eu sofri muito por conta disso. Hoje, consciente de minhas neurodivergências, tudo ficou mais claro, a culpa sumiu, e a liberdade de ser quem eu sempre fui tomou de conta, ao ponto de finalmente permitir sair de dentro de mim a escritora que eu passei a vida abafando, atrás da máscara da profissional arquiteta.
Em uma de nossas conversas você mencionou ter textos em vários gêneros, desde contos a suspenses, dramas, terror, erotismo etc. Existe algum gênero que você prefira ou que te desperte mais interesse?
Eu confesso que me encanta ler suspense, mas também contos eróticos. Tanto ler como escrever. De alguma maneira me permito sentir o que escrevo, o que torna a escrita fluida, sem pudores, e com a entrega de que ela precisa.
Atualmente você tem duas obras publicadas “Inconsequências” e “Desatinos”. O que há em comum entre essas obras?
Ambas possuem um toque de erotismo. Em Desatinos eu colecionei poemas de diversos temas, mas a maioria deles versava sobre autoconhecimento, prazer e maturidade, penso que pela segurança que adquiri com o passar dos anos. Inconsequências foi um passo maior, porque são contos que também envolvem desejo e prazer, e neles eu instigo o leitor a questionar até que ponto deve ir a ética social em detrimento do auto prazer, de desfrutar aquele desejo momentâneo que talvez sequer permita uma segunda oportunidade.
Como é o seu processo de escrita? Você escreve com método, por impulso ou por acúmulo?
Admito que vai muito por impulso. Mas seguramente consequência de um acúmulo de repertórios de toda minha vida, de pequenos estímulos diários e, eu diria, da necessidade crua de escrever mesmo, algo que sempre fiz, mas só agora começo a compartilhar com mais pessoas.
Um fenômeno nada recente tem atormentado artistas desde priscas eras, mas só no século XXI, em tempos digitais, ele ganhou popularidade: a Síndrome do Impostor. Você sofre com esse tipo de sensação?
Constantemente. Cresci me sentido assim, e me sabotando por isso. Convivo com essa insegurança desde que me lembro, e isso tem me privado de vivenciar muitas coisas e principalmente de me expor. A sensação é de que sou uma fraude, de que não sou boa o suficiente para as coisas que me disponho a fazer, e, por causa disso, muitas vezes, sequer tento.
Desde quando você escreve?
Desde que me entendo por gente (risos). Incialmente eram diários, extremamente ricos em detalhes, depois em papéis, depois no meu primeiro computador, onde eu já tinha 3 livros finalizados, quando o HD queimou e eu perdi tudo. Isso, de certa forma, me gerou um bloqueio e eu passei um tempo sem escrever, embora as histórias continuassem nítidas em minha mente. Tanto que hoje já as reescrevi e pretendo publicar em breve.
Há rituais, hábitos ou estados específicos que favorecem sua escrita?
Eu tenho alguns hábitos, como escrever sempre ouvindo música (assim como ler também, só consigo me concentrar com música ao fundo), também tenho o hábito de escrever no mínimo três histórias diferentes ao mesmo tempo, ou fazer coisas diferentes ao mesmo tempo (como escrever, projetar, criar logomarcas...) como se minha mente precisasse ficar alternando em mais de uma coisa para eu não cansar. Tenho sempre muitas ‘abas’ abertas, mas, mais do que isso, tenho um hábito que me incomoda muito pela forma como costumo reagir: quando entro no hiperfoco da escrita (o que acontece sempre) eu não me lembro de mais nada. Não lembro de comer, não lembro de beber água ou de ir ao banheiro e, o que considero pior: fico muito reativa se alguém me desconcentra. Aquilo me desestrutura muito e eu não gosto de agir assim, mas é automático.
Que temas insistem em retornar nos seus textos?
Gosto da sedução, de alguma maneira. Jogos de sedução, às vezes mais doces, outras mais sombrias. Não sei explicar.
O que significa para você ser uma mulher escritora?
Profundo... penso que ser uma mulher escritora muitas vezes é traduzir o indizível, expor o invisível, seja servindo como ponte ou mesmo destruindo esta.
Como você lida com a exposição do texto depois que ele deixa de ser só seu?
Eu sou uma pessoa ansiosa, um tanto infantil, às vezes, então eu fico extremamente empolgada, esperando um retorno, desejando saber o que as pessoas que me acessaram compreenderam do que tentei transmitir, o que acharam do que leram (risos). Sou uma abobalhada, emocionada.
Que livro alguém já escreveu mas você gostaria muito de ter escrito?
Eita! Eu consegui me perceber em tantos livros que já li, mas tem um que marcou minha infância e, talvez muito mais por isso, pelo que ele passou a significar para mim no momento em que me fora apresentando, que é “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach.
Que livro você gostaria de escrever no futuro, mesmo que ainda não saiba como?
Hum... eu não consigo pensar tanto no futuro. Estou tão focada nos que estou escrevendo agora que não consegui fazer vir nada na minha mente relacionado a tema, gênero, sei lá, mas eu gostaria de escrever um best seller, pode ser essa resposta? (risos)
Em seus textos a mulher madura é uma presença marcante. O que a escrita te ensinou sobre o tempo, a perda ou a permanência?
A escrita me ajudou a colocar para fora algumas tantas frustrações, cobranças e autopunições que a maturidade me ajudou a sanar. Terapia também ajuda muito nesse processo.
Se você pudesse dizer algo à mulher que começou a escrever agora, o que diria?
Que ela siga com seu desejo de expressar o que traz dentro de si, mesmo que não possua nenhum leitor, porque o exercício de escrever, por si só, já é suficientemente libertador.
Quem quiser adquirir os seus livros, como deve proceder?
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