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    TERAPIA   Consigo me ver nos seus olhos. Neles me vejo como quem vê a si no silêncio.   Consigo ser o sal de seus sentidos e o sol das emoções vestidas pelo suor suave que me confunde os verbos.   Consigo tocar a lucidez da sua face e a loucura dos pensamentos mergulhados no mar que nos atira à areia.   Consigo o céu pousa na palma de minha mão. Eu astro e rei brinco de tiro ao alvo.     CEM PALAVRAS   Por que a palavra? Se os pulos param a garganta se as mãos se pregam ao rosto e os pés tocam o ar como quem vê na fonte dos olhos a visão da serpente?   Por que a palavra? Se o coração da falta se desfez se o cérebro despedaçou o silêncio como quem pisa o brinquedo da criança?   Por que a palavra? Se a fala esgotou o peito e as gotas do olhar fertilizam o corpo de fúria e desgosto?     SIM   Amar assim como mar à tona na frágil maratona do naufrágio em sim.   Amar assim os cabelos da beldade nas pedras das montanhas o impulso do olhar na impureza do céu a pele de papel nos lírios da luz.   Amar assim o ar tão visceralmente sim o fogo, a água, o ser.      ROSAS NO CÉU   A mulher manda uma mensagem aos olhos do oleiro e acende rosas no céu dos corações.   Os rostos transpiram o sabor dos sentidos e ardem de emoção no silêncio da hora vadia.   Os corpos navegam na sensação e a distância que os une eterniza o noite.   E tateia o vento e seus suspiros.      (IN)CERTEZA DA ILUSÃO   Entrego a ti o trajeto de minha emoção e naufrago no afeto de teu tribunal.   Teu coração pequeno não comporta o compasso de meus passos e machuca o caminho das sensações.   Entregou-me a ti teu coração cortado pelo olhar da tarde que desce no degrau do firmamento.   Entrego-me a teu coração o curso do sol que divide o hoje entre o ontem e o amanhã.     SOMBRA DE EROS Para Aldairis   A tua alma brilha nas paredes do meu quarto no silêncio da noite escura.   E os raios de teu riso oferecem ao ar os riscos de tuas cores:   O vermelho paira na pele e o calor róseo de preto e branco veste a luz.   Ofusco-me com o rumor de tua presença e a alma de teu sorriso ilha brilha na lembrança livre de impedimentos.     TEMPESTADE   O tempo traz o temporal de teus cabelos para a miragem de minha face e desfaço-me em silêncio enquanto mudo o mundo com os olhos mudos e adormeço tua solidão no rio dos lábios dos nossos destinos.   TAL VEZ   Um dia talvez a tarde se deite debaixo do meu lençol e o corpo do tempo seja  o seio que seguro em minhas mãos.   Um dia talvez Os versos do olhar liguem o céu à terra e o corpo do tempo seja o seio que desliza em meus lábios.   Um dia talvez teus labirintos sejam a linha line(ar) do pensamento e o presente reviva colorindo o peito.     DELÍRIO     Sepultei o silêncio dos versos para perfurar a sala com minha luz de lua.   E a aventura voando veloz nas nuvens vestidas de sombras deixou para trás o amor em chamas.   Agora sepulto os prédios da cidade nas curvas do teu alvorecer e as pálpebras sentem a distância da união que nos separa.   Sepulto os presentes do teu perfume e fumo a fumaça do ar que restou depois da noite.     SUSPIRO   Tudo o que em ti me vive respiro em mim.     POR-VIR   I A brisa dos cabelos luminosos da praça suaviza o vício de te ter em sonhos.   II O ar da noite lilás dos lábios lança as labaredas do corpo ao vício de em sonhos te ter.   III A nuvem dos olhos lobos do tempo in(ter)liga o feitiço das horas ao sonho de te ter em ví-cio.   IV A nuvem, o ar, a brisa reduzem-me ao delírio de ser uma redoma diante de ti.   LEI DA NATUREZA   O girassol dos teus cabelos deixa tonto o ar e o rastro de luz na escuridão de meus pensamentos claros de amor e fogo.   O girassol nos meus olhos gira o sol no sangue do desejo de me completar em ti.   O girassol dos teus cabelos nos meus olhos transcende o céu sobre nossos pés.     MULHER DE NEON   Folhas mortas se es(palha)vam pelo jardim quando a flor irrompeu e invadiu o vazio da casa.   As plantas (re)vigoraram as graças do sol-riso e o espaço cedeu ar para a luz do céu azul.   A luminosa-idade encontrou abertas as portas do (re)cinto e as paredes estremeceram ante o corpo e a alma imaginariamente nus.   Mas o brilho partiu e o jardim ag(ora) perfumado de cores feneceu na escuridão dos cômodos desabitados.   Folhas mortas se espalhavam pelo jardim e a mulher de neon o vento que abriu as janelas.     ASSIM   Não se entregue assim por inteiro se a tarde demora e o demônio mora na hora mórbida desse momento.   Não se entregue assim passageiro se o pássaro pousa em sua audição o som triste da natureza.   Se entregue assim por inteiro se o coração suspira o suor do silêncio e a noite diz sim.   ANATOMIA   o olhar vermelho trilha o papel de tua tez de teias e armações.   Trilha a ponte da amizade que as mãos uniu sobre os escombros dos ombros cansados.   O olhar vermelho trilha a trajetória da bala ardendo em teu peito.     CONJUGAÇÃO   Eu te per-tenso Tu me pertences Nós nus pertencemos Em todos Os tempos Verb-ais     CORAÇÃO SEM FRONTEIRAS   Vou viajar pelas curvas de teus beijos e me perder nas alças da tua blusa.   Vou velejar pelos traços do teu corpo e ouvirei a rua ri para meus desejos.   Vou viajar pela tua pele de pólvora enquanto a avenida verseja a sinfonia da noite.   Vou velejar pelas cachoeiras dos teus cabelos e adormecerei sob o céu dos teus olhos.     SENHORA DE MIM   O espaço cola minha alma à tua e sou presa fácil do olhar fixo dos passarinhos.   O ar acaricia teu rosto e a febre da tua boa esfria meu estômago quente.   Sou presa fácil: meus pés pisam o asfalto que cola minha alma à tua.     JANELA DO INFINITO   Árvore que brilha sob o cabelo o galho de flores ilumina a noite de cinzas e estrelas.   Sob o cabelo a beldade se debruça em sonhos nas sombras do presépio de Natal.   Sob o cabelo a beleza é uma mulher de asas e delírios.     ALMA (DES)ENCONTRADA   Arranquei os espinhos do teu corpo com os dentes e lambi meus lábios com os tentáculos de minhas mãos vazias.   Arranquei os dentes de teus espinhos e pisei as tuas curvas de serpente que me furaram a pele e me deixaram surdo   Arranquei o corpo dos teus espinhos e a essência do teu perfume cegou-me o ego.   Arranquei os espinhos do teu corpo com os dentes e tento sair do labirinto de não ser mais eu.     POEMA ENTRE QUATRO PAREDES À Alda – de meus olhos – Íris   Em meu lençol o suor se dis-sol-vê sobre o teu perfume.   Em meu lençol teus olhos brasas de asas na pele do ar.   Em meu lençol tuas mãos travesseiros na noite insone.   Em meu lençol condeno-me a imaginar-te assim como a manhã sem fim.   FELIZ ANIVERSÁRIO   não velarei o amor perdido na cratera do coração e no corpo sem voz.   Não velarei o amor perdido se as sementes das cicatrizes morrem entre rochas e o ontem testemunha a hora colorir-se no calor da Surpresa andante.   Não velarei o amor perdido. Velarei o Presente da noite solitária  que se atira em meu colo nua.     LUZ PARA A ALMA   A flor nasce nos olhos da lua diante do espelho que sou.   O jardim (re)vela portas para as lembranças das folhas flutuando em silêncio.   O jardim diante do espelho que sou soa o tom das tardes de abril e suga do céu todas as nuvens para o verde nascer nos olhos da rua.     O NECTA DA MIRAGEM   As flores da paisagem extravasam as vozes da estrada e caem sobre mim os ruídos da tarde.   Fico surdo mas a rua é ruínas e vejo o sol nas penas dos pássaros devorando o gosto da viagem.   E vejo versos no vento que queima o calor dos corpos.     COLHEITA   Recolho os resíduos do dia antes que a noite anoiteça a cor de minha alma.   Recolho as mãos da janela os olhos do telhado a voz da mesa e desapareço nos rostos dos fantasmas que me perseguem.   Recolho os resíduos do dia  e me escondo nas sombras dos versos que soluçam o trânsito do vento.     (DES)EQUILÍBRIO     A rotina armou o círculo no curto espaço que respiro.   O cheiro das ruas ruiu  no ritmo das calçadas e o gosto do grito gira em meu beijo.   Já não navego o ego  para o norte da noite e o ar desarma o destino que respiro.     SINESTESIA     A minha face se refaz nas pedras das tuas palavras e o suor segue os trilhos das nossas almas incertas.   No caminho as trevas descortinam as vertes do inconsciente e liberta o medo que nos apavora.   Somos criatura da noite devorando a dor que nos alimenta.   E os defeitos desfeitos de todos os sons diluem-se na confusão dos sentidos.     PERMANÊNCIA     Minha pele não vê a superfície oculta e o tato toca o corpo sem sentir o tom das tuas mãos.   Meu nariz não respira o cair de tua presença como sombra de meus passos nem o olfato fala teu cheiro de flores do campo.   Meus olhos não degustam a grama da cama macia e o paladar mastiga os lábios sem engolir o gosto dos beijos de açúcar.   Mas a pele, o nariz, os olhos em meu coração, poesia.     ETERNO REGRESSO     O tecido do sofá continua a lua de ontem mas o violino parou de tocar e o som é a gota do rio no contraste silencioso da consciência.   As lembranças teimam em repetir-se: o sofá na lua de ontem continua na linha contínua e nua do pensamento.   O violino parou de tocar e a música do silêncio cura da loucura de (re)viver o eterno regresso a si mesmo.     GOSTO DE AUSÊNCIA   A dor do sol no céu desenha dunas no horizonte do vago olhar dos girassóis.   O eu percorre a areia e como água some no seco deserto que deserdou os sonhos de deus.   O eu silencia o soldado de si no mundo em brasas abafado no peito.   O eu busca o dia no corpo da praia e arde em angústia o gosto da ausência.     A GÊNESE DA ORAÇÃO     Em estado de poesia a palavra procria a imagem e semelhança do homem.   Em estado de poesia a imensidão dança pequena no infinito dos olhos e os pensamentos emoções molham de lágrimas as lembranças alegres.   Em estado de poesia o poeta menino colhe música com o tato e a tristeza é canção.     REDENÇÃO     No divã divagam os versos da viagem infinita e finda o tempo e recomeça de novo na noite voraz do pensamento.   Divagam as vagas do corpo os espelhos da vidraça a visão de Van Gogh em-louco-sido.   Divagam devagar os braços da lua que clareia a cama com o mar sem ondas.       (EN) LATA (DO)   Sob o signo das horas o sol solto em minha s(ali)va segue o livro torto de tuas leis.   Minhas palavras de rótulos e lavras nem (sen)tem tuas mãos e o sal do silêncio seca a garganta.   Sob o signo das horas minhas palavras (des)confiam dos olhos livres da luz que me incendeia o céu sem nuvens.     O ENIGMA DO OLHAR   o amor dorme entre as estrelas e a terra arrisca os riscos do sorriso.   Somente o céu socorre a expressão da face  na distante contemplação dos astros.   Somente o corpo sente a poeira dos poros e a possível arte de se reencontrar no toque dos olhares.     CARNE DE PAPEL     Sem o corpo o espírito vaga no ar da paisagem oculta.   Sem o corpo o espírito vaga por onde crescem os fantasmas de tuas fortalezas.   Sem o corpo a paisagem oculta a sinuosa curva do sonho que se dissolve pelo chão.   Sem o corpo, a noite escurece o céu de silêncios e o espírito se perde entre as estrelas para te encontrar onde a memória alcança.       SOU MAIOR DO QUE SINTO   Paro para explodir o que em mim sobrevive depois da tempestade.   As ruínas do eu naufragam em minhas veias e o sorriso se desfaz no vento que leva a voz do sonho.   Fico a esperar os raios da manhã rirem da vaidade dos deuses enquanto bebo a fumaça do ar.   O silêncio me serve de consolo e me abraça com a vontade de devorar o mundo e arrancar o coração das paredes.   Paro para explodir o que em mim sobrevive mas sou maior do que eu sinto.     A (RE)INVENÇÃO DO HOMEM   A água na vidraça despedaça o desejo e desce pelo seio da parede e despe o peito da distância   e a ti me une.   A água na vidraça despedaça o desejo e abre em pedaços o guarda-roupa de faces e disfarces no céu que nos une.       PASSOS DE ANDARILHO    Piso nas palavras com a pólvora do dia-a-dia e dissolvo o sol do pensamento no brilho da tarde passageira.     BLECAUTE   Apago o pensamento como quem parte para longe e ponho na terra o pó do poente.   Apago o pensamento como quem volta da guerra vencido por muitas batalhas e ponho-me no deserto incerto do destino.   Apago a escuridão como quem acende dúvidas no dilúvio das certezas e ponho o pensamento na poeira que dissolve o meu coração.       ARTIFÍ(CIO)   Arranjo de anjo na sala de estar. Flores do silêncio no ar.   Pairam no peito todos os deuses.   Pecam as mãos sobre a maciez das maçãs no rosto que cai no colar dos olhos.   Eros arrota risos e sonhos de projetos per(feitos) nos braços do céu.   Pairam no peito todos os demônios: arranjo de anjo na sala de estar.       A MIOPIA DA IMENSIDÃO   O sol cega os galhos da casa com cinzas das estrelas e o céu se decompõe no mar dos olhos do míope.       A NUDEZ DA MADRUGADA   O devaneio despe os passos do homem que vaga na noite.   A madrugada se molha de chuva e as gotas da tarde reacendem na memória o dia correndo sobre rodas o beijo da aventura vagando no peito e o tédio da hora intacta.   A madrugada se molha de chuva e sobre o tapete de lembranças levitam na visão o dia rindo da rua o beijo da aventura voando na face e o tédio da hora intacta.   A madrugada se molha de chuva e o devaneio despe os passos do homem que sendo muitos é ninguém.     PAREDES QUE DESABAM     A rotina da tarde despe o dia e atormenta o tempo da casa em pesadelos.   O mundo cai sobre as paredes e os degraus do pensamento diluem-se em tormentas.   A rotina da tarde despe o dia e anuncia o tédio no vazio da chuva que serena na minh’alma.       PARANÓIA     Há um monstro no armário entre as paredes no rio da infância um monstro no ar.   Por que não me beijo se o vente ferve as veias e o animal que sou serve-se do som da noite?   Há um monstro um monstro que se mostra na frágil aparência da pena em cada extensão de meus dentes.       ROTINA   A solidão do domingo prega peças no peito da casa vazia.   Os cômodos se calam à sinfonia das janelas abertas ao sinal do dia no céu do telhado.   O silêncio percorre a transparência das paredes e a ciranda do tempo anuncia o sol no céu do telhado.         (RE)PRESA   A água debaixo da ponte agita-se com o reflexo do céu e devora a noite tecendo o rio de estrelas.   Debaixo da ponte os lábios das margens molham-se de delírios e os lírios olham a imensidão.   Debaixo da ponte o corpo da água escorre entre os dedos de concreto e esbarra no beijo da vegetação.       ONDAS DA PAISAGEM Ao lado do lago os vultos da vegetação se vestem na vertigem das horas.   O reflexo das águas flui flores na fuligem dos olhos.   A sombra das árvores voa na superfície do céu e no sono do silêncio.   Ao lado do lago a distancia entre os amantes amor-tece as cores da natureza.       DES-TINO   No livro de lírios leio rios de águas barrentas.   E na paisagem o barro seca a terra racha em tênue canção.   Leio rios onde as casas se chamam abandono e as dádivas da natureza o destino colheu.   Leio rios nas estradas da infância por onde meninos em seus cavalos d’pau fabricam poeira e oásis.   Leio rios nas fazendas ricas de miragens que o tempo comeu.       MANTO DE SOMBRAS   Como os pardais nos fios da estação o pensamento pousa no pôr-do-sol e vigia as janelas adormecidas.   A cidade muda se multiplica na multidão sem voz e a pele dos prédios sufoca a luz.   A cidade muda esconde o céu e a escuridão dos apartamentos cala para celebrar o silêncio das nuvens.       CÉU DE ASAS   Como a manhã sem pressa no alto da colina nasce a palavra na retina onde crescem a lavoura e vôo do céu.   Nasce sem presa a manhã no leito lento do rio onde reses ruminam a mina do sol.   Nasce sem pressa a manhã nos palácios de palha onde o corpo repousa o silêncio do cio.   Como a manhã sem pressa no coração da imagem crescem a lavoura e o vôo do céu.       MARATAOÃ Para José do Rêgo Lages   o rio corre em meu coração e separa os sentimentos da areia.   A vaga das águas vai virando pó em pensamento e a estrada encurta distâncias.   O rio viaja no horizonte onde dançam os cabelos das carnaúbas e soluçam os olhos do sol.   O rio corre em meu coração e deságua nas correntezas do caminho.