• UTOPIA
    Descobri o Brasil
    na brasa
    que queimou
     as árvores
     da
     E
     S
     T
     A
     D
     A
  • CHUVA NA ALMA DO RIO

    Correm pelo rio
    flores sem perfume
    e as faces do silêncio.

    Correm as águas de dezembro
    e a malícia das margens
    germinando inundações.

  • À SOMBRA DOS COQUEIROS

    As ondas na areia
    arrastam os ventos áridos
    e limpam os olhos das varandas.

    As ondas na areia
    aposentam o tempo
    e o velho garimpa Debussy

      a
     n  s
     l  s
          u      a

    das deusas de vidro.

  • PERIPÉCIA URBANA

    No cio do trânsito
    o edifício faz travessuras.

    As vidraças do prédio
    acompanham os dragões
    nas blusas das passantes
    e das janelas dos apartamentos
    a distãncia entre os mundos
    curva-se aos breves versos
    dos olhares.

    Além da fronteira das ruas
    o observador conta
    nos detalhes da tarde
    as pétalas das roas.

     

     

  • POR-DO-DIA

    A cara
    e o coração
    do sábado
    cortam o sabor da avenida.

    A cara
    O coração
    O sábado
    A avenida

    O coração
    O sábado
    A avenida

    O sábado
    A avenida

    A avenida

  • VELOCIDADE MÁXIMA

    O motoqueiro ronda a rotina
    nas ruas da velocidade.

    O capacete no braço
    fumaça no ar.
    O broto na garupa
    fumaça no ar.
    A emoção em duas rodas
    fumaça no ar.

    A pressa da cidade voa
    e o passeio devora a hora
    quando os corpos na calçada
    recolhem-se para o silêncio.

    O motoqueiro ronda a rotina
    e desmonta a noite
    na porta do céu.


     

  • SAUDAÇÃO AO CARTEIRO AMIGO

    O pombo bota o recado
    na caixa do correio
    a atravessa a rua
    com versos no bico do verbo.

    Vai semeando as sementes do céu
    na terra do coração
    e acenando para os anjos.

    Vai levemente
    vestindo-se de verde
    e pedalando a bicicleta nas nuvens.

     

  • SAMBA NA AVENIDA

    O motorista toca
    a festa do tráfego.

    Carros alados alargam
    a imagem da estrada
    e a paisagem caminha
    com a sereia sambando
    na avenida.

    O motorista trafega
    nos risos das ruas
    e constrói o além
    nas luzes do farol
    que sinalizam a viagem.

     

  • CANIBALISMO

    A pantera reina na selva
    e seduz a seiva
    que agiganta o leão.

    A fera rasga a teoria da floresta
    e crava os tentáculos
    na toca do rei.

    Preso no próprio casulo
    o coração cospe
    a condição de cativo.

    E a ferocidade dos bichos
    cria uma cidade
    de cimentos e cinzas.


     

  • PASSAGEIRO DO SOL

    O ritmo dos rebeldes rege
    a velocidade da desgraça urbana
    e o dia dispara nos corações
    raios desaguando rios
    no caos das avenidas.

    As correntezas das ruas
    correm como reses
    nos campos do sonho
    e iluminam a passagem do sol.