• CON-TATO
    O coração
    Pulsa
    Em teu sol
    Riso.
  • LUCIDEZ
    No tédio da tarde
    Escaldante da Teresina
    O louco lapida o gigante
    De ferro frio
    E enfrenta a indiferença
    Da Frei Serafim.
  • INCÊNDIO

    Inconscientemente
    Os caminhos cortam o campo.

    A velocidade do vento
    Varre o vasto vulto
    Da ventania.

    O passo do silêncio
    Sentencia a real-idade
    Da cidade em chamas.

  • PALHAÇO
    Nada mais engraçado
    Que o sorriso do espelho.
  • DESILUSÃO DO DEUS SEM TRONO

    Na xícara de café
    O débil degusta
    A letargia da lucidez.

    O gole desce
    Pelas labaredas
    Do sol em cinzas
    E incendeia o celeiro
    Das revoluções.

    Mas há muito
    O mundo mudou
    A rota da tarde
    E despediu o desejo
    Do Deus sem trono.

     

  • SER
    Somos o pecado
    Amado
    Da revolta
    Do mundo.
  • MOTIVO
    O semblante sério dos bêbados
    Banha o bar de mistério
    E afunda o feto na banheira
    Em cada endereço conhecido
    Nas madrugadas vestidas
    De alvorecer.
  • RASCUNHO PARA PENSAR AS FUGAS

    Uma mosca pousou
    No pasto do pátio
    E plantou o lixo da vida
    No jardim descolorido
    Da alma
    Apagando
    As pétalas secas da tarde
    E espalhando o sujo surdo
    Dos deuses
    Que cortam a cor
    Da coragem
      sobre os
      bancos
      imundos
      do bar.

     

  • QUANDO AS PALAVRAS FOGEM
    O primeiro encanto repentino
    Nuvem que transborda no além
    Traz o corpo do destino
    E o espírito do bem.
    Mas as cicatrizes do passado
    Contagiam de mistério
    O vôo marcado
    Na comunicação do cemitério.
    A palavra sai morta
    Cambaleiam os túmulos
    Entorta o íntimo dos mortais
    E ressuscita no silêncio
    Da consciência.
  • CEGUEIRA

    A fera que tudo devora
    Tudo esquece frente ao infinito
    Como o cavalgar de senhora
    À carta do amor ferido.

    A fera que tudo devora
    Tudo esquece frente ao espelho
    Como a alma da hora
    A sorrir para o velho.

    A fera que tudo devora
    Perde-se
    Nas ondas turvas do orgulho
    E do alto da nudez
    Tenta encontrar-se.