Por Rogel Samuel - especial para Entre-textos 

Contam que, depois de cassada pelos militares, em 1969, Adalgisa Nery ficou sem dinheiro. Tinha 64 anos. Ela nasceu no Rio de Janeiro, em 1905. Em 1976  se internou, numa clínica de idosos de Jacarepaguá, no Rio, onde faleceu em 1980, aos 75 anos. Consta que Adalgisa, desamparada e pobre, quando na Itália o grande Murilo Mendes soube e de lá veio para lhe dar os quadros de Ismael Nery, ex-marido de Adalgisa, falecido em 1934. Murilo tinha sido o grande amigo de Ismael Nery. O pintor lhe dera os quadros antes de morrer. Dizem mesmo que todo quadro de Ismael era pintado exclusivamente para Murilo Mendes.  

Assim o poeta ofereceu as obras de Nery à grande poetiza. Murilo era amigo de André Breton, René Char, Albert Camus, Magritte, foi traduzido por Ungaretti e, na Espanha, por Dámaso Alonso e Angel Crespo. Em 1972 recebe o prêmio internacional de poesia Etna-Taormina. Foi professor de Cultura Brasileira na Universidade de Roma e depois, na Universidade de Pisa. Murilo Mendes terminou a vida em plena glória. Adalgisa Nery terminou a vida esquecida e pobre. Hoje, nenhum de seus livros é lido, ou melhor, publicado.

Adalgisa Nery casou-se depois da morte de Ismael Nery com Lourival Fontes, chefe do DIP de Vargas. Separou-se em 1953. Em 54, tornou-se colunista diária do jornal «Última Hora». Eleita deputada à Assembléia Nacional Constituinte em 1960, pelo Estado da Guanabara (Partido Socialista Brasileiro). Em 1962 é novamente eleita deputada estadual, pelo PTB. Em 1966, é reeleita, agora no MDB, ano em que se desligaria do jornal Última Hora. Em 1969 teve o seu mandato e direitos políticos cassados pelo AI-5 da ditadura militar. Eu gostaria de ler sua coluna em «Última hora», quem publicará?

Murilo Mendes nasceu em 1901, em Juiz de Fora, Minas Gerais e em 1920 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde seria o maior amigo de Ismael Nery. Ismael era de Belém, e nasceu em 1900, morrendo em 1934, muito jovem. Ismael era um rapagão bonito. Depois da morte de Ismael Nery, em 1934, Murilo se converteu ao catolicismo. Mas são informações que circulam nas conversas literárias e carecem de confirmação.

Em Adalgisa Nery, «a poesia se esfrega nos seres e nas coisas» (“Mundos oscilantes”, José Olympio, 1962, RJ).  Ela sente a força misteriosa da modernidade, algo animal, de circo, de locomotiva, carinho e aeroplano, alegre e triste, socialista:

Nunca sentiste uma força melodiosa
Cercando tudo que teus olhos vêem,
Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa
Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem?
Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas
Deparando com um campo devoluto
Semelhante a uma virgem esquecida?
Num circo, nunca se apoderou de ti, um amargor sutil
Vendo animais amestrados
E logo depois te mostrarem
Seres humanos imitando um reptil?
Nunca reparaste na beleza de uma estrada
Cortando as carnes do solo
Para unir carinhosamente
Todos os homens, de um a outro pólo?
Nunca te empolgastes diante de um avião
Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,
Ou de qualquer outra invenção?
Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho do dia
Ao mistério da noite,
Na extensão da tua dor
E na delícia da tua alegria?
Pois então, faz de teus olhos o cume da mais alta montanha
Para que vejas com toda a amplitude
A grandeza infindável da poesia que não percebes
E que é tamanha!

Quando estava no poder, Adalgisa Nery tinha a casa freqüentada  pelos grandes intelectuais da época, como Aníbal Machado, Álvaro Moreira, Jorge de Lima, Mário Pedrosa,  Manuel Bandeira e o próprio Murilo Mendes. Ela, famosa, talentosa, grande escritora, escrevia em «O jornal» e em «O cruzeiro», antes da sua coluna diária. Era bonita, socialista, sensual, polêmica, avançada e amante, No «poema da amante», exemplo de sua poética amorosa, diz ela:

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que está presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda está ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
Desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.
(Mundos oscilantes. José Olympio, 1962, RJ )

Os títulos eram femininos e ousados, como «Eu em ti» (1937, poesia), «A mulher ausente» (1940, poesia), «A imaginária» (1959, romance). Escreveu poemas eróticos extraordinários. A temática passional, quente, neo-romântica. Ela ainda seria lida com prazer, hoje, e espero que não esteja esquecida simplesmente porque era socialista.

 

>