“É inútil reparar o corpo, sem lancetar também os abscessos da alma” 

(Dr. Salomão A. Chaib)
 
*Gisleno Feitosa
 
No dia 07 de dezembro de 2017, o Conselho Federal de Medicina (CFM) reconheceu, por meio da Resolução nº 2.172/2017, a cirurgia metabólica como opção terapêutica para pacientes portadores de diabetes mellitus tipo 2 (DM2, os quais tenham índice de massa corpórea (IMC) entre 30 kg/m2 e 34,9 kg/m2, desde que a enfermidade não tenha sido controlada com tratamento clínico. 
 
Anteriormente, o CFM, através da resolução nº 1766/2005, em acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, já havia estabelecido normas seguras para a realização da Cirurgia Bariátrica.
 
Para os que não estão familiarizados com os termos, “Gastroplastia ou Cirurgia Bariátrica” (redução de estômago) é o último recurso contra a obesidade, quando todos os demais tratamentos falharam. A “Cirurgia Metabólica” é a cirurgia para o tratamento de doenças relacionadas à obesidade, como o diabetes. Portanto, na cirurgia metabólica ocorre o mesmo procedimento da cirurgia bariátrica. A diferença entre as duas é que a cirurgia metabólica visa o controle da doença. Já a cirurgia bariátrica tem como objetivo a perda de peso, com as metas para contenção das doenças, como o diabetes e hipertensão, em segundo plano.
 
A primeira cirurgia bariátrica no mundo foi realizada em 1952. Nessa cirurgia, foi retirado um grande segmento do intestino de um paciente. Os resultados não foram bons e devido à intensa diarreia, cirrose hepática e desnutrição, essa técnica foi abandonada.
 
Em 1974, o pioneiro no Brasil, Dr. Salomão Chaib, divulgou os resultados de suas operações iniciais para tratamento de obesidade, utilizando derivações jejuno-ileais do tipo Payne, primeiro procedimento bariátrico a ser aplicado em grande escala internacionalmente. Mas a iniciativa pioneira não teve o sucesso esperado. As graves sequelas derivadas das operações acarretaram grande descrédito entre os médicos sobre a indicação das cirurgias para pacientes com sobrepeso. No final daquela década, tais procedimentos cirúrgicos foram simplesmente abandonados por boa parte da comunidade médica brasileira. A equipe médica do Hospital das Clínicas da FMUSP continuou, no entanto, acompanhando as tendências internacionais para a cura da obesidade, como a cirurgia bariátrica.
 
Salomão Chaib (1918-1993) nasceu em Teresina (PI), no dia 25 de setembro de 1918, residiu em São Paulo por mais de cinquenta anos e foi um dos mais importantes cirurgiões do país. Formado pela Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, foi professor livre docente da clínica cirúrgica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), trabalhando também no Hospital Ipiranga e no Hospital Heliópolis. Lecionou no curso de Pós-Graduação da Santas Casa de Misericórdia, presidiu o Departamento Cirúrgico da Associação Paulista de Medicina e o International College of Surgeons – Seção Brasileira. Foi membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo. Recebeu láurea da Associação Paulista de Medicina (1961) e o prêmio “Fernando Vaz” (1969), no Rio de Janeiro. Fez parte da Academia Nacional de Medicina, do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia, da Academia Piauiense de Letra (Cadeira Nº 40) e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional do Estado de São Paulo (1988). Foi agraciado com o Título de «Cidadão Paulistano» pela Câmara Municipal de São Paulo, em 04.11.1980. Foi colunista dos Jornais: Diário de São Paulo, A Gazeta, Shopping News e City News, escrevendo sobre saúde. 
 
É o Patrono a Cadeira 38 da Academia de Medicina do Piauí.
 
Na Revista O Cruzeiro de 23/08/1972, ed. no 34, em artigo intitulado “Obesidade cortada pela raiz: O INTESTINO”, ele se confessa apaixonado por este órgão e relata casos em que a redução do mesmo, determinou uma regressão na obesidade. Diz, ainda, que o intestino, em determinadas circunstâncias, pode substituir o esôfago e até a vagina. 
 
Como Escritor (contista, cronista) Dr. Salomão Chaib publicou diversas obras, estre as quais: “Bases para uma Boa Alimentação” (1953); “E Agora, Doutor?” (1971); “Drama de Consciência” (1990); “Trajeto” (1991); “Ambição Fatal” (1991), com Amanda M Delboni; “Como Viver Melhor e Vencer” (1993). Escreveu também livros de caráter científico: “Tratamento cirúrgico do megaesôfago” (1968); “Abdome Agudo” (1988) e “Gastroenterologia Clínica e Cirúrgica” (este, em colaboração com outros autores).
O Dr. Salomão Azar Chaib era filho do comerciante sírio (da vila de Malula) Azar Salomão Chaib e da senhora Adélia Chaib. Irmão do professor, jurista e escritor Jorge Chaib e de professora aposentada da UFPI, Ausair Chaib Gomes, dentre outros. Sua filha, a Dra. Carmem Chaib Mion, psicanalista, é casada com o Prof. Decio Mion Júnior, médico, professor da USP, especialista no tratamento da hipertensão arterial e autor de 17 livros médicos e dois para o público leigo: “Abaixo a Pressão” e “Abaixo a Pressão, Colesterol e Peso”. O apresentador de televisão Marcos Mion é filho do casal e neto do Dr. Salomão Chaib. 
 
Quando era estudante de medicina, no Rio de Janeiro, Salomão Chaib preparava alunos para o vestibular, dando aulas de inglês, química e História Natural. Com 21 anos, sofreu grave intoxicação alimentar, juntamente com trinta hóspedes do Hotel Imperial, no Catete, ao se alimentar com salada mista e presunto infectado, num almoço de domingo.
 
Acidentalmente, Dr. Salomão Chaib se contaminou, durante um procedimento cirúrgico rotineiro, contraindo o vírus da hepatite C. Lutou bravamente contra a morte, mas veio a falecer, após sete longos anos de árdua batalha, em 1993.
 
Em seu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras, o Dr. Salomão Chaib assim se expressou: “Meu pai aqui chegou vindo de uma civilização milenar, duma terra sem horizontes. Ansiava por liberdade. Seu povo estava escravizado e colonizado impiedosamente, levado a servir, sob a bandeira de nação odiada, à luta pela grandeza e progresso de seu próprio algoz. Jurou ele que seus filhos não nasceriam colonos, nasceriam livres, numa coletividade generosa e bela, que lhes desse paz e trabalho. Foi assim que veio moço para o Brasil. E para o Piauí, que ajudou e honrou, trabalhando de sol a sol, viajando a pé pelos sertões agrestes, vendendo, aprendendo a língua, fazendo amigos e armando a nova pátria. Aqui se casou. Naturalizou-se brasileiro. Constituiu família. Nasceram-lhe os filhos. A pátria de seus filhos era a sua pátria”. ... “Guardo da infância despreocupada, dos primeiros instantes do convívio com outras crianças do grupo escolar, a observação de uma delas: *Carcamano Não Tem Bandeira”. ... “Em casa dei a notícia do acontecimento a meu pai. E ele, com profunda tristeza, explicou-me: A Síria tem bandeira, mas está ocupada por país estrangeiro”. (*Em Teresina, carcamano sempre designou, de modo pejorativo, os árabes. (A. Tito Filho, 07/12/1988, Jornal O Dia. Postado por Jordan Bruno). 
 
No livro intitulado "E agora, Doutor?", o Dr. Salomão Chaib conta "A lição de Doralice", uma garota de dezesseis anos que, após uma discussão com a mãe, tentou pôr fim à vida, bebendo soda cáustica. O depoimento emocionante é a história verdadeira de uma paciente chamada Doralice (o nome não é real), que foi atendida pelo médico da FMUSP. Num relato comovente, com humildade, ele nos afirma que tão importante quanto cuidar do corpo sofrido e curá-lo é cuidar também do espírito e da alma, por mais dura e dramática que seja a situação. Doralice ficou mais de seis meses internada no Hospital das Clinicas, na cidade de São Paulo. O Dr. Salomão Chaib foi o médico responsável pelo seu tratamento durante todo o tempo em que esteve internada. 
 
Quatro cirurgias e complicações marcaram o período de sua internação. Porém, após seis meses, Doralice estava curada e recuperada, podendo então voltar às suas atividades diárias. No entanto, dois dias após Doralice deixar o hospital, o Dr. Salomão Chaib recebeu um chamado urgente, para ir ao pronto socorro do HC. Doralice se suicidara bebendo formicida. Por isso ,o dedicado médico escreveu: “Perdão, Doralice. Na verdade, eu estava cego. Preocupado com os males do corpo, esqueci seu espírito, mais doente ainda. Como pude descuidar-me das feridas da alma? Este é o eterno engano dos cirurgiões, que palpam tumores e não se lembram de que há um coração oculto vibrando em ânsia, sonhos e sofrimentos. (...) Em sua breve existência, na inexperiência da sua imaturidade, veio ensinar a homens velhos e calejados que é impossível curar o corpo sem lancetar os abscessos da alma”. Um relato cruel, expondo a frustração de salvar a vida de uma jovem que ingeriu ácido na tentativa de suicídio e após a alta repetiu o ato. A medicina precisa cuidar do corpo, mas não pode esquecer a alma, a mente, as emoções, e a espiritualidade.
 
Em “O caminho da verdadeira medicina”, Dr. Salomão Chaib revela qual a maior carência: “A alma tal como o corpo, necessita renovar diariamente sua ração para manter-se firme e sadia. Seu principal alimento é o afeto, e as vitaminas de que se nutre chama-se: atenção, cortesia, consideração, presença, palavra amiga. Como os passarinhos, bastarão pequenas migalhas, que nada custam, mas cuja falta fazem-nos minguar e morrer.  É preciso que as façamos saber todos os dias e repetidas vezes, quão importantes são, como necessitamos delas. Todos têm necessidades de se sentir importantes para alguém. Quanto mais autossuficiente, ativo, dominador for o ser humano maior é a carência de carinho”.
Concluo esse trabalho, com uma mensagem do Dr. Salomão Chaib, no artigo “Coração precisa de carinho e dieta”, publicado no Jornal Shopping News. citado no livro “Como eu como?”, de Paulo Eiró Gonsalves, 2004: “Carinho e amor prolongam a vida até em animais”.
 
*Gisleno Feitosa é Membro Titular da Academia de Medicina do Piauí, da Academia Brasileira de Médicos Escritores (ABRAMES) e Conselheiro do CRM-PI.