Cláudio Soares responde:

Vamos lá, José, vou tentar dar a minha opinião, mas, talvez, a sua ótima pergunta merecesse até um estudo inteiro para ser bem respondida. :) Os dois eram negros (fato), mas a diferença básica era que Machado pretendeu ser e foi um "escritor apesar de negro" e Lima fez questão de ser um "escritor negro". A diferença, aparentemente sutil, é importante. Eu não tenho dúvidas de que Lima admirava Machado. Havia livros do bruxo na biblioteca do Lima, a famosa "Limana" (Um dos livros que faziam parte dessa biblioteca do Lima era "Psicologia Mórbida na Obra de Machado de Assis", do Dr. Luís Ribeiro do Vale). Acho também que Lima, como tantos outros, que consideravam Machado como um "alheio" à política, não compreenderam muito bem sua fina ironia. Ora, Machado foi um dos nossos primeiros comentaristas políticos. Francisco de Assis Barbosa, em sua magistral biografia de Lima, diz em certo trecho "Um (Machado) fazia literatura pela literatura, ao passo que o outro (Lima) desejava mais do que isso". Devo discordar do grande jornalista e biógrafo. Ambos foram críticos do seu tempo. Lima era mais literal, Machado mais oblíquo. Lima Barreto detestava quando alguém o comparava a Machado. Dizia que Machado "escrevia com medo", enquanto ele "escrevia sem medo da palmatória". Machado era enxadrista, logo, por natureza, um estrategista, sabia muito bem o jogo que estava jogando, os adversários que tinha, por isso, obteve admiração (o "chefe da literatura nacional") e certo reconhecimento ainda em vida (menor do que tem hoje, certamente). Lima, ao contrário, enfrentava o status quo, sem escudo, por isso saiu machucado. Ele também dizia que Machado "inventava tipos sem nenhuma vida", que "não tinha naturalidade", que era "um falso em tudo". Sabemos que Lima Barreto praticamente escreveu sua vida em seus romances fortemente biográficos. Eu particularmente acho que seus "desgostar" era mais por não ter compreendido bem a estratégia de Machado. Por isso, achava que Machado era um omisso, em especial, sobre a causa dos negros. Ele via Machado como um "escritor aristocrata", enquanto se considerava um "escritor proletário". É mais ou menos isso, José, só que muito mais... :) Forte abraço.

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