[Maurício Gomes]
 
Comecei a ler Percursos da Poesia Brasileira, do Século XVIII ao XXI.
 
No Poesia e desordem, que se inicia na página 11, o autor Antonio Carlos Secchin já mostra a sua marca e a sua insubordinação ao falar sobre poesia,.Quando ele diz, com sua verve imperativa que "a poesia deva guardar, antes de tudo, um compromisso interno na sinalização de espaços onde o maior imperativo seja o enfrentamento de normas que ameacem a pluralidade.(...) Ela deve ser a palavra vigorosa diante de todo o arbítrio classificatório, a voz que não se pode perceber senão nas margens. Por isso, a poesia representa a fulguração da desordem, o 'mau caminho' do bom senso, o sangramento inestancável do corpo da linguagem, não prometendo nada além de rituais para deus nenhum.
 
A poesia não se compromete com A Verdade, pois um de seus atributos é exatamente o de prover um circuito clandestino de sentidos que faça oscilar o terreno sólido onde versões de verdade se sedimentaram. Nessa operação, a metáfora ocupa um posto privilegiado. Ao aproximar elementos em geral dissociados, ela desencadeia conexões encobertas pela anestesia do discurso pragmático, guardião feroz da (utópica) univocidade. Mas, ao mesmo tempo em que desvela afinidades, a metáfora também introduz tensões e atritos, uma vez que os termos são subtraídos de suas sintaxes habituais. Justapostos em novo contexto, intercambiam parcelas insuspeitadas de significação, resguardando, porém, um resíduo intransferível, responsável por A ser como B, e não A ser como B. A metáfora é, assim, aquilo que se aproxima e, simultaneamente, aquilo que se fasta, ao sustentar uma junção baseada na diferença: caso contrário, estaríamos no domínio do contínuo, do indiferenciado, vale dizer, do cancelamento da própria possibilidade de se produzir (e se perceber) diferença. A ordem do discurso poético se abastece na desordem sob controle que a metáfora introduz: ela desencadeia, no interior do poema, mecanismos associativos dificilmente localizáveis fora dele, sabotando a expectativa de uma comunicabilidade tácita e harmônica em prol da reverberação de zonas mais sombrias e conturbadas da linguagem. Nessa perspectiva, podemos ampliar nossa reflexão, sugerindo que a poesia poderia ser também encarada como uma espécie de grande metáfora da língua, um discurso que, simulando ser à imagem do outro, já que dele utiliza as palavras e a sintaxe, acaba gerando objetos que desregulam o modo operacional e previsível da matriz. O poema é a doença da língua e a saúde da linguagem..Ele serve para quê? Talvez para insistir que há sempre restos, equívocos, lapsos, fraturas na sintonia do homem com o real. Ignorá-los é acreditar na adequação entre palavras e coisas, na vigência de um discurso homogêneo que negasse a cada um a possibilidade de negociar com as palavras as frestas de perturbação e mudança de que elas e nós necessitamos para continuarmos vivos; a isso dá-se o nome de estilo. É claro que situar a poesia como metáfora da língua não passa de uma... metáfora, inclusive porque a mudança de um registro a outro (de pretensão literária) não é mensurável por um instrumental que permitisse inequivocamente verificar se determinada enunciação atingiu ou não o estatuto poético.. (...)"
 
E ele segue, saborosamente, nas páginas posteriores, de uma forma tão didática de ouvir e ler, tão técnica e tão sem técnica, a des-construir e des-fazer das fórmulas mirabolantes para gostar ou não de poesia. Com isso, ele busca suas memórias, remexe nelas assim: " o que sustenta toda a memória é o mais cruel do esquecimento. Somos o que sobrevive em nós frente às ruínas de tudo aquilo que não foi possível apagar", e como um mágico que tira da cartola o seu coelho, ele tira a salvação para a poesia; "Quando hoje me dizem que não há saída para a poesia, respondo que poesia só tem entrada, e nos conduz a caminhos que jamais supúnhamos existir."
 
Quer mais dele? Vá ler o mestre Antonio Carlos Secchin. Vá comer e beber poesia, assim como ele diz: "a poesia passou a integrar também a cesta básica dos alimentos indispensáveis à vida."

Meu caro escritor, não quero mais largar este livro.