FRancílio B. S. de M. Trindade

O AUTOR

Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888. Tornando-se órfão de pai aos cinco anos, é levado por sua mãe e seu padrasto para a África do Sul. Em Durban, faz o curso primário e o secundário com excepcional brilho, chegando a alcançar o prêmio de redação em Inglês. De regresso a Lisboa em 1905, matricula-se na Faculdade de Letras e cursa Filosofia por algum tempo. A seguir, passa a viver como correspondente comercial em línguas estrangeiras, função que desempenha até o fim da vida. Em 1912, colabora em A Águia como crítico. Em 1915, lidera o grupo de moços que publica o Orpheu. Dispersos os seus membros logo após o desaparecimento da revista, Pessoa recolhe-se a uma vida solitária e inteiramente voltada para a criação duma extraordinária obra poética e crítica, de que uma pequena parte vai publicando em órgãos  como Centauro, Athena, Contemporânea e  Presença. São os membros desta última que lhe descobrem o superior talento e se dispõem a divulgá-lo como a um verdadeiro mestre de poesia. Em 1934, candidata-se ao prêmio de poesia instituído pelo Secretariado Nacional de Informações de Lisboa, com a Mensagem, único livro em Português que publica em vida, mas só alcança obter o segundo lugar. Já nessa altura começam a acentuar-se os sintomas provenientes de seus desregramentos alcoólicos. Corroído pela cirrose hepática, baixa ao hospital e dias depois falece, a 30 de novembro de 1935.
 (MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 21 ed. São Paulo : Cultrix, 1985.)


OBRA
Antinous, 1918; 35 Sonnets, 1918; Inscriptions, 1920; English Poems, I, II e III, Interrregno-Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal, 1928; Mensagem, 1934; Poesias de Fernando Pessoa (1942), Poesias de Álvaro de Campos (1944), Poemas de Alberto Caeiro (1946), Odes de Ricardo Reis (1946), Mensagem (1945), Poemas Dramáticos (1946), Poesias Inéditas (1930-1935) – 1955, Poesias Inéditas  (1919-1930), 1956, Quadras ao Gosto Popular (1965); parte de sua prosa foi coligida em volume: Páginas de Doputrina Estética (1946), Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação (1966), Páginas de Estética e Teoria e Crítica Literária (1966), Textos Filosóficos, 2 vols. (1968).

Mensagem, de Fernando Pessoa

O livro de poemas Mensagem (1934) é um poema épico, mítico, místico, crítico e de uma visão progressiva, portanto, é uma epopéia modernista, superando a epopéia de Camões, Os Lusíadas (1572). Esse poema Mensagem é conjunto formado por vários poemas que o compõe, costurado por uma trama patriótica e mística, explorando metáforas insólitas e imagens do imaginário coletivo do espírito de nacionalidade do povo português.
 Massaud Moisés, na sua obra A literatura portuguesa (1985. pág. 18), afirma que “a poesia é o melhor que oferece a Literatura Portuguesa (...) graças a alguns poetas vocacionados (...), como Camões, Bocage, Antero, Fernando Pessoa, entre outros”.
Dentre esses poetas, os maiores, sem sombra de dúvida, são Camões e Fernando Pessoa, que deram origem aos dois  grandes ciclos poéticos lusitanos, merecedores dos epítetos camoniano e pessoano.
 Em Mensagem, único poema escrito em língua portuguesa pelo Fernando Pessoa, escrito entre 1913 e 1934, o poeta arquiteta o livro em 44 poemas divididos em 3 partes: Brasão, Mar Português e O Encoberto. Mensagem é um poema revelador, ditado por um bardo e vate. Nesse texto, Pessoa elabora não só um sentimento patriótico crítico mas também reelabora o espírito sebastianista do povo português:

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao amar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Neste poema Mar Português, Fernando Pessoa chama a atenção do povo português para a importância do mar para nação, já que Portugal deve ao mar todo seu progresso histórico e nacional, pois, a partir das Grandes Navegações, a nação portuguesa consegue seu ápice em relação aos outros países europeus. No entanto, para realizar tal façanha, foi necessário um sacrifício do próprio povo português revelada nos seguintes versos:
 
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Para isso ocorrer Portugal pagou um preço deste empreendimento, já que a civilização portuguesa sofreu um caos social: as mães sofreram a distância de seus filhos, os filhos tiveram que amadurecer precocemente para realizar as funções sociais de seus pais, as moças ficaram abandonadas pelos seus amantes. Além disso, Portugal torna-se uma nação vulnerável, facilitando as invasões de inimigos e aproveitadores, devido ao fato de seus homens terem ido em busca das conquistas além mar. Tudo isso acontece em nome de um progresso e de um sonho.
Todavia, o poeta em uma visão progressista e madura da vida moderna revela a necessidade de um sacrifício para que o país pudesse desenvolver e conquistar os seus ideais, pois Fernando Pessoa defende a tese que o limite do homem ultrapassa seus desejos particulares, ampliando em uma visão coletiva e social:

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao amar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Certa vez  o próprio poeta resgata um espírito da nação que “Navegar é preciso, viver não é preciso”. O Bojador, cabo da costa ocidental da África, ao SE das Ilhas Canárias, que representa o limite da navegação portuguesa até ser ultrapassado por Gil Eanes em 1434, passou ao sul do Bojador. Enfim, o Bojador simboliza o limite e a superação dos limites, representa para o povo português a superação dos sofrimentos e do próprio caos social, causado pelas Grandes Navegações, pois para superar os obstáculos, exige dor e sacrifício, mas também o mar é belo e perigoso, tão imenso e glorioso.
I - O infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
 Fernando Pessoa, nessa segunda parte do poema Mensagem que se trata da posse dos mares, coloca como ponto de partida o infante D. Henrique. Mas, a conquista veio depois de uma graça divina, todo o sucesso de Portugal foi uma providência divina. Esse patriotismo do poema Mensagem, além de ser visivelmente crítico, é, místico e mítico. A Mensagem é um texto místico porque nele os destinos da Pátria dependem, acima de tudo, das leis divinas, da vontade de Deus, da sobrenaturalidade: “DEUS QUER,  o homem sonha, a obra nasce.”( PESSOA, 1995, p. 63). Tal clima de misticismo que envolve todo o poema pessoano manifesta-se logo a partir do próprio título da obra – Mensagem – reveladora do papel de oráculo que o poeta assume, no intuito de transmitir a seus irmãos ( a quem ele reverencia no final do poema com a saudação “Valete , Frates.”) uma mensagem (uma profecia?), resgatando uma antiga   denominação de poeta, qual seja, a de “vate”, aquele que faz vaticínios, profecias, sendo significativo observarmos a etimologia do vocábulo mensagem: do baixo latim “missus” (enviado), o que evidencia a missão do poeta de ser o porta voz do povo português, visceralmente místico. Portanto, o poema Mensagem é mítico e místico.
Outrossim, a  Mensagem é um texto mítico dada a sua própria natureza de epopéia, já que, para esta, o mito é uma condição “Sine qua non”. Mas, não seria exagero afirmamos que o poema pessoano é ainda mais mítico que o poema camoniano, já que este foi escrito logo após as Grandes Navegações portuguesas (matéria temática das epopéias em questão), enquanto que a Mensagem  foi escrita quatro séculos depois delas, quando o fato histórico já se encontra bastante distanciado na dimensão temporal para tornar-se mito (condição básica da epopéia). Por isso, no texto de Pessoa, mais do que no Camões, a dimensão mítica, pela ação do tempo sobre os fatos, sobrepõe-se à dimensão histórica: vultos históricos como o Conde D. Henrique, D. Tareja, D. João Primeiro, D. Philippa de Lencastre, D. Duarte, D. Fernando, D. Pedro regente, D. Sebastião, Num Alves Pereira, O Infante D. Henrique, Bartolomeu Dias, Colombo, Fernão de Magalhães, Vasco da Gama, Bandarra e Antônio Vieira, hoje, mais do que nunca, são figuras consagradas como mitos. O próprio Fernando Pessoa, na Mensagem, afirma que “O MYTHO é o nada que é tudo.” (PESSOA, 1995, p. 32). 
 Portanto, em Mensagem Fernando Pessoa provoca o povo português a vivenciar o espírito fraterno e conquistador de seus heróis do passado, porque embora Portugal estivesse em pleno nevoeiro, a nação teria que erguer-se em busca do progresso e da evolução de sua civilização, pois, segundo o poeta, já havia chegado a hora.


BIBLIO GRAFIA

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. São Paulo: Cultrix, 1985.
PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Núcleo, 1995.

 

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