[Domingos Pelegrini]
 
Poesia é coisa de minutos, vem de repente e, por isso, sigo o conselho de Maiakovski, andando sempre com papel e caneta. Contos pedem algumas horas e romances uns nove meses como as gestações. Vou me interessando por um assunto, lendo e pesquisando, me engravidando, até começar o parto sentado, escrevendo todo dia.
 
O romance Mulheres Esmeraldas, que terá seu primeiro lançamento em Londrina, quinta-feira a partir das 19 horas na Livraria da Vila do Aurora Shopping, começou a nascer na década de 1980, quando morei em São Paulo. Fui para lá esperando ser redator publicitário mas sequer entrei em agência de propaganda, passando a escrever reportagens para revistas. Na Avenida Paulista abriu a lanchonete O Engenheiro Que Virou Suco, que motivou sugerir à Playboy reportagem sobre profissionais liberais que fugiam daquele saturado mercado de trabalho para vida nova nas novas cidades do Oeste brasileiro. 
 
Fui para Alta Floresta, no alto de Mato Grosso, e – por incrível coincidência – lá deparei com o amigo londrinense Apolo Theodoro, que ia visitar seus irmãos então tocando garimpo. No hotel dos também londrinenses irmãos Oliveira, ouvi histórias de garimpeiros: como trabalhavam do primeiro sol à primeira estrela, comiam mal e dormiam pior, animados pelo sonho de enriquecer, e às vezes enriqueciam até de um dia para o outro. 
 
Muitos entretanto também de um dia para o outro empobreciam, bebendo loucamente e pagando bebida a todos, promovendo noitadas e até comprando vitrolas e tevês para levar a garimpos sem energia elétrica. Na Boate Saramandioca, num show de Valdick Soriano, um garimpeiro ainda de calções embarreados pedia uma lata de cerveja e o garçom levava onze, dez eram para ele lançar a outros, e assim tomou dez latas e pagou 110 a preço várias vezes maior que no varejo. 
 
No hotel comentei tal loucura, e alguém disse que garimpo com cabeça no lugar só no “garimpo de mulher”, que uma ex-caminhoneira, uma ex-prostituta e uma ex-policial tocavam sozinhas mas com apoio da polícia. Liguei para a Playboy, sugerindo reportagem sobre as loucuras garimpeiras, em contraponto com o tal garimpo das mulheres, mas a sugestão não foi aceita. 
 
Voltando a São Paulo, onde morava pertinho do Hospital das Clínicas, vi crescer dia a dia a aglomeração de repórteres cobrindo a longa agonia do presidente Tancredo Neves internado ali. Tinha sido eleito pelo Congresso o primeiro presidente civil depois dos cinco presidentes militares da ditadura, e sua agonia era acompanhada dia a dia pela nação. Os fios de rádios e televisões, diante da entrada do hospital, cobriam o chão formando um grosso emaranhado.
 
Depois em Londrina reencontrei Apolo, que perguntou da reportagem sobre o garimpo das mulheres. Falei que tinha sido rejeitada pela Playboy, e ele: porque então você não escreve um romance disso? Na hora não pensei no assunto mas, voltando a São Paulo, vi a imensa comoção causada pela morte de Tancredo, o povo chorando abertamente em torno do hospital, e pensei que aquilo sim daria um romance.
 

Dormi e sonhei que chegava em São Paulo num carro com três mulheres, e apontava a elas o hospital onde morreu Tancredo. Quem seriam elas, pensei ao acordar e... claro, só podiam ser as três garimpeiras. Aí fui engravidando, emaranhando Tancredo e as garimpeiras, para escrever o romance Garimpo de Mulher, que deixei décadas no computador até recentemente reescrever como Mulheres Esmeraldas. Um longo e gostoso parto, e espero que os leitores gostem do recém nascido tão longamente gestado.