Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 30 de julho de 2010
Tamanho da letra A +A

Paris

Paris

Paris

 

Rogel Samuel

 

 

Havia uma  chuva fina que molha o chão das ruas e põe as folhas das árvores pensativas. Nas três vezes anteriores que estive em Paris chovia sempre. Como todo amazonense, adoro Paris. Sonho morar em Paris, como os amazonenses da época de meu avô. Manaus, réplica, miniatura de Paris. Existia a Casa Louvre, A la ville de Paris, Café da Paz, Au  bon marché, Livraria Palais Royal, Casa Sorbonne, Bijou . "Manaus, pequena Paris". Boulevar Amazonas, Boulevard Álvaro Maia. "A  samaritana". Manaus, toda francesa. Na "Praça da Polícia", uma réplica do "Temple d'amour",  de Versailles. Quando a borracha faliu, os comerciantes quebraram,  mudaram-se para Paris, Lisboa. Os jornais da  época marcam anúncios, despedida. Bela maneira de ir à falência: Iam para Paris. Onde já estudavam seus filhos. Um amigo reacionário me diz, com indignação: "A filha do Lula estuda em Paris". Meu pai estudou em Paris, no entre-guerras. Na realidade, ele era francês, ainda que tivesse nascido a bordo do navio Adamastor, em Remate de Males, que eu só sei onde fica devido a um livro de Mário de Andrade. Antes que a malária matasse todas as crianças nascidas ali, meu  avô, que era alsaciano, transbordou sua mulher e filho para um navio  inglês que passava. O menino ficou em Estrasburgo, a bela cidade, a  Catedral mais bela do mundo. Aliás, ele morava perto da Catedral.  Acordava ao som de seus sinos. A catedral é maior do que a  própria cidade.  Um dia, estando em Frankfurt, em casa de Karl Joseph, eu  disse: "Vou ver Estraburgo". E ele respondeu: "Eu levo você". Fomos, que era domingo, eu, ele e sua esposa brasileira. De Estrasburgo, mandei um  cartão para meu pai, ainda vivo. Lá, depois do almoço, quiseram voltar. No dia seguinte trabalhavam. Eu disse: "Não volto sem ver e ouvir o relógio da Catedral". Passei a infância  ouvindo falar daquele relógio. Karl Joseph e a mulher foram descansar num hotel, na estrada, eu esperei dar 6 horas da tarde  dentro da Catedral.  A primeira coisa que aconteceu foi abrir-se uma portinhola e dali sair  um boneco mecânico, um esqueleto vestido de Morte, bateu com um  martelinho num sininho. Aquilo ecoou por toda a nave. Ao que o grande sino da Igreja respondeu, solene. Grave.  Chove sempre que estou em Paris. Com Annie Gerault, que não tem medo de chuva, cortamos o Bois de Vincennes, pelas margens do lago "des  Minimes", sob chuva forte, à noite. Annie mora na Rue Fondary, não longe da  Torre Eiffel. Um dia fomos ver a nova iluminação da Torre. Depois, já  bem tarde, Annie quis passear pela noite, no Jardin du Luxembourg. Como carioca, logo pensei em assalto. O jardim estava deserto, mas a sensação  era de calma. Lembrei-me então: não estávamos no Rio.

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

Últimas notícias

30.07.2010 - Monte Mor, de Almir Gomes de Castro

A vingança é um dos traços do homem do Interior.

29.07.2010 - São Paulo

A dor em São Paulo é guardada em potes

29.07.2010 - Carta a um poeta

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo.

28.07.2010 - O que está em jogo quando avaliamos textos

Pois bem, não basta engravidar de palavras, é preciso saber costurar, bordar, cortar, embalar, acari

28.07.2010 - 15:50

Romancista Eneas Barros comenta o novo livro

28.07.2010 - Livro sobre a ficção de Raimundo Carrero

o livro é de autoria de Marcelo Pereira

27.07.2010 - Fernando Pessoa

Exprimir é sempre errar.

Listar mais

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (segundo piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages@uol.com.br