[Elmar Carvalho]

No dia 10 passado, no hall da Academia Piauiense de Letras, enquanto aguardava a posse da nova diretoria, da qual faço parte, fiquei a conversar com o historiador Reginaldo Miranda e com o professor Osvaldo Assunção, curador de artes plásticas, que estava a prestar serviços à entidade, com vista à instalação de sua pinacoteca. Vendo o Osvaldo com a escala métrica em punho, no cumprimento de seu mister, brinquei com o confrade Reginaldo, parafraseando Cristo, enquanto apontava o instrumento de medições: “Não julgueis para não serdes julgado; com a mesma medida com que medirdes, sereis medido.”

Osvaldo parou por alguns instantes o que fazia, e, conhecedor de minha ligação afetiva com a sua terra natal, José de Freitas, me perguntou se eu sabia do episódio (um tanto anedótico) que possibilitou a amizade palaciana do notável padre Sampaio. Respondi que não, passando ele a nos contar o segue abaixo, em resumo.

Estava o padre Sampaio a orar na igreja da Glória, quando ouviu rumores de acólitos do séquito palaciano. Soube, então, que a família da princesa Isabel viera para a missa de costume, mas que o vigário se atrasara e a sua celebração não poderia acontecer.

Joaquim Sampaio Castelo Branco (era esse o seu nome completo), do alto de sua baixa estatura física, mas sem embargo de sua alta erudição e preparo teológico, informou que era sacerdote e poderia celebrar o culto católico. Causou certo impasse entre os circunstantes, que não o conheciam, até que um ministro do império disse que ele poderia fazer a celebração, mas, se ele não fosse efetivamente do clero, poderia responder por isso.

O padre Sampaio, no momento de iniciar a homilia, solicitou a um dos presentes (não sei se ao ministro imperial ou se à própria princesa), que lhe desse a palavra inicial, tendo a pessoa sugerido a palavra “não”. Sampaio usou a advertência crística do “não julgueis”, e esta foi o motivo de a minha blague ter feito Osvaldo Assunção se lembrar desse fato. Creio que tenha feito um belo sermão, tendo em vista que ele se tornou um grande orador sacro. Osvaldo Assunção acrescentou que esse episódio se encontra narrado no livro de Pastora Lima Lopes de Carvalho, que por muitos foi superintendente do Complexo Escolar de José de Freitas.

Segundo ainda o professor Osvaldo, quando Joaquim Sampaio foi ordenado padre, sua mãe e matriarca da família, senhora de muitos cabedais, disse que ele, na qualidade de sacerdote, seria o dono de todo o patrimônio familiar. Ele, ante essa prodigalidade, recomendou a libertação de todos os escravos. Esse pleito foi negado. Ele, então, pediu que ao menos fosse alforriada a escrava que fora sua mãe de leite, cuja reivindicação foi atendida.

Quando eu era um garoto de 13/14 anos, no período em que morei em José de Freitas, várias vezes passei em frente ao Grupo Escolar que leva o nome do Padre Sampaio, quando ia em demanda do açude Pitombeira, belo e aprazível balneário, rodeado de colinas e criulis. Procurei saber quem ele havia sido, mas não encontrei nenhuma pessoa que me desse uma boa resposta.

Somente muitos anos depois, no Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, de Wilson Carvalho Gonçalves, meu confrade e amigo, e no Dicionário Histórico e Geográfico do Estado do Piauí, do saudoso Cláudio Bastos, que tive a honra de contribuir para sua publicação, quando fui presidente do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, encontrei a resposta que buscara em minha meninice.

Em tributo a esse grande piauiense, irmão do famoso engenheiro Sampaio, construtor da célebre fábrica de laticínios, ambos nascidos na Fazenda Ininga, que foi restaurada e é preservada pelo professor Paulo Libório, encerro este breve relato com o seguinte trecho do verbete inserto na obra de Wilson Gonçalves, acima referida, que merece todos os encômios:

BRANCO, Padre Joaquim Sampaio Castelo. (Vila do Livramento, José de Freitas – PI, 1860 – Rio de Janeiro, 1892). Sacerdote, professor e escritor. Grande orador sacro, ilustrou, pela sua cultura e cintilante inteligência, o clero brasileiro. Foi presbítero na Diocese do Maranhão. Professor catedrático de francês no “Liceu Maranhense”. Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Santo Apolinário, de Roma (Itália). Bacharelou-se em Teologia pela Universidade Católica de Paris (França). Foi confessor da princesa Isabel. Jornalista vibrante e vigoroso. Diretor-proprietário do jornal O Mensageiro de São Luís do Maranhão, destacando-se como apologista da Abolição da Escravatura. (...) Elegeu-se deputado-geral pelo Piauí para o biênio 1889 – 1890, todavia, não tomou posse, em virtude da dissolução do Congresso Nacional (Decreto de 17-08-1889). 

Na foto, a fazenda Ininga.