[Luigi Ricciardi]

Livros de ficção que trazem personagens históricos como integrantes de suas narrativas podem, apesar de talvez gerar polêmica com especialistas nas vidas dessas determinadas pessoas, trazer um olhar interessante e mais próximo sobre eles, contribuindo para uma reflexão sobre a história. O que dizer então de um romance povoado de personagens históricos e cuja narrativa tem como mote um dos momentos mais agitados e polêmicos da história do Brasil? Última hora, do vencedor do prêmio SESC 2017 José Almeida Júnior, se passa nos bastidores que levaram Getúlio Vargas a cometer suicídio em 1954.

Além do próprio Vargas, vemos Samuel Wainer, Carlos Lacerda, Nelson Rodrigues, entre outros, povoaram a história que tem Marcos como protagonista e narrador. Marcos é militante do partido comunista. Esteve na reunião com Luís Carlos Prestes que decidiu levar à frente a Intentona Comunista de 1935. O narrador é casado com Anita, antiga companheira de luta no partido. Eles têm um filho, Fernando, que é conservador e apoia uma intervenção militar no país. Só nesse aspecto familiar já teríamos um bom romance, mas ainda há muito mais.

Marcos, depois de muito resistir, aceita trabalhar no recém-criado Última hora,

capitaneado por Samuel Wainer. O narrador acredita ser uma contradição trabalhar em um jornal que está declaradamente apoiando Getúlio Vargas, enquanto os outros todos fazem um ataque direto. Além do viés político, há um problema pessoal: Marcos sofreu na pele o autoritarismo do governo getulista. Mas depois das pressões do filho e da mulher, ele decide se render ao salário cinco vezes maior do que aquele que ganhava no jornal de esquerda. Eis o moto do romance que sofrerá muitas reviravoltas e colocará Marcos entre a cruz e a espada, ou entre a ideologia comunista x burguesia.

 

José Almeida Júnior

Como diz Luiz Ruffato na contracapa, sim, a linguagem usada pelo autor tem um estilo mais tradicional, mas isso, de maneira nenhuma, é um demérito. As cenas são bem construídas, muito bem ambientadas. Os diálogos também, soam naturais e não têm nada de forçado ou artificial. Embora seja um ótimo material de conhecimento histórico, para aqueles que desconhecem o período, o livro, em momento nenhum, assume essa função, até porque, na sua própria gênese, a boa literatura não tem um compromisso com uma “verdade” histórica, pois está calcada na ficção, apesar de receber, como nesse romance, doses cavalares de realidade.

Última hora é um bom romance não só para aqueles que se interessam por história, mas por aqueles que se interessam por jornalismo, militância política, bares cariocas, entre outros. É também, e sobretudo, um romance que deleita, com uma história bem contada. Livro daqueles que se tem pena, e uma certa tristeza, em se virar a última página.