[Gisleno Feitosa]

Meados de 1976, recém chegado a Barras do Marataoã, hospedado no Hotel da Tia Chiquinha, fui acordado pelo seu Bebé, vigia do Hospital Leônidas Melo. Seu Bebé, muito educado, falava baixo e eu demorei a acordar, com a "pancadinha" na porta. Trazia um recado do Dr Zé Lages: como estava febril, pedia que eu fosse atender a um chamado, no hospital, se possível.

Era um domingo, em torno, de 23:30 horas; chuva fina e persistente. Saí, passo ligeiro, procurando me inteirar, com o companheiro, do ocorrido, que me agradava. Ninguém na rua. Dobramos a esquina da Empresa F. Cardoso; mais à frente, a esquina do bar do doutor Leonel. Surpreso, avistei um vulto, com passos curtos, envolto num lençol de flanela, chapéu de aba larga na cabeça, à altura do prédio da Ancar. Antes que perguntasse, seu Bebé foi dizendo: "É ele". "Ele quem, moço?", perguntei. "É o Doutor Zé Lages!"

Apressamos o passo e o acompanhamos, já dobrando a esquina do Colégio. Era realmente o Dr Zé Lages, tremendo de febre, mas temendo que eu não acordasse, resolveu ir ao encontro do paciente. Insisti para que ele voltasse para a sua cama. Ele não aceitou. Pediu somente para que eu ficasse com ele. Atendemos, juntos, o paciente. Acompanhei o Mestre, até sua casa, no retorno.

Pela manhã, ao chegar ao hospital, lá estava ele, firme e forte, como sempre. A isso, hoje, chamamos: "humanização da medicina". Ele me ensinou, com atos e sem palavras, há mais de quarenta anos!