RESUMO

O objetivo deste artigo é fazer um apanhado sobre as impressões, ambivalentes por certo, que Lima Barreto deixou sobre Machado de Assis. Será possível desenvolver essa faceta de Lima Barreto - a saber, a de Lima Barreto leitor de Machado - a partir de artigos em que ele se refere a Machado de maneira explícita ou indireta; dos relatos feitos aos amigos nas portas das livrarias; e da crítica literária coetânea ou imediatamente posterior. Aliás, com o passar do tempo, a comparação entre os dois autores ganha cada vez mais corpo por parte da crítica, de alguma maneira radicalizando o que era apenas uma estratégia política, pessoal e literária de Lima Barreto, que procurava um lugar alternativo nessa república das letras. Palavras-chave: Lima Barreto; Machado de Assis; República das Letras

LILIA MORITZ SCHWARCZ

INTRODUÇÃO: UM FLA X FLU LITERÁRIO

Não é de hoje que se trava um verdadeiro Fla X Flu, toda vez em que se procuram traçar comparações entre as obras de Lima Barreto e Machado de Assis. Apesar de Machado de Assis ter falecido quando Lima Barreto apenas despontava para a carreira literária, e de não existirem registros de contato direto entre os dois, já a crítica nacional tentou opor, de maneira irremediável, o autor de Memórias póstumasàquele de Triste fim. Se não é nosso objetivo fazer uma análise mais propriamente literária, e assim comparar estilos e recursos de cada uma das obras, também não é, igualmente, mister tomar qualquer partido nesse sentido. Ao contrário, a ideia que orienta este breve artigo é antes fazer um apanhado possível sobre as impressões, ambivalentes por certo, que Lima Barreto deixou sobre Machado de Assis.

Será possível desenvolver essa faceta de Lima Barreto - a saber, a de Lima Barreto leitor de Machado - a partir de alguns artigos em que ele se refere a Machado de maneira explícita ou indireta; dos relatos feitos aos amigos nas portas de confeitarias ou nas livrarias - e devidamente inseridos em cartas ou artigos destes -, e da crítica literária coetânea ou imediatamente posterior. Aliás, com o passar do tempo, a comparação entre os dois autores ganha corpo, com os profissionais destacando ora o jeito "medroso" e disfarçado de Machado, ora a atitude "ressentida" de Lima.

Ambiguidade é atitude recorrente na vida e na obra de Lima Barreto, que sempre adotava uma postura um pouco escorregadia quando se tratava de delimitar a carreira, os amigos, seus personagens, seus vizinhos no subúrbio carioca, a cultura popular e assim vamos. Ele tentou por três vezes entrar na Academia Brasileira de Letras (declinando antes do resultado da última eleição), mas sempre que pôde desfez da instituição e do modelo de literatura que essa preconizava, ao menos na visão de Lima. Defendia a pureza dos "subúrbios cariocas", local em que vivia, mas não poucas vezes tratou com escárnio as práticas locais, considerando-as "atrasadas". Preconizou uma literatura mais próxima da linguagem das ruas, mas, em seus romances, não poucas vezes brincou com os "erros" e os vícios dos seus vizinhos no subúrbio carioca.

E o mesmo se daria em relação a Machado. Se Lima tinha livros do autor de Dom Casmurroem sua biblioteca doméstica, nos artigos públicos e nas conversas com amigos, ao contrário dessa suposta harmonia, a paz parecia mais "armada". Estratégia de inserção típica de Lima Barreto, que vai se construindo como um "enfant terrible" mas nunca deixa de revelar sua intenção última de se inserir nessa "República das Letras", a oposição a Machado era sem dúvida uma agência necessária para aquele que, mais afastado das instâncias oficiais de consagração, como a ABL, tentava imaginar novos projetos: por vezes paralelos, muitas vezes antagônicos. Seja por sua situação de classe, ou por conta da sua cor, em função de seu projeto literário Lima Barreto parecia se entender como "outro", ainda mais em relação a Machado. Interessante pensar nessas duas formas de agenciamento distintas mas paralelas. De um lado o princípio, moderno, da ascensão social individual, de outro o seu esboroamento, não por causa da insuficiência individual apenas, mas também pelas contradições entre um modelo herdeiro do determinismo racial, e os limites da própria mobilidade social numa sociedade estratificada e sem uma revolução burguesa propriamente dita.2

Neste artigo, portanto, se interessa comparar estilos literários, importa sobremaneira investir nas competições sociais do momento, que não são apenas um "produto" desse contexto, mas também ajudam a "produzi-lo". Afinal, não se pode esquecer que, para além da contenda literária, ambos os escritores se constituíram e se transformaram em "testemunhas" diletas de seus períodos. A noção de "testemunha" certas vezes supõe passividade. Nesse nosso exemplo, porém, há mais negociação, agência e reflexividade entre a obra, o personagem e o contexto desse autor, o qual, aliás, nunca foi mero espectador.

Uma fatia acadêmica

É dessa maneira, e com esse título, que Lima Barreto publica artigo na revista A.B.C., datado de 2 de agosto de 1919. O ensaio ganhou certa importância para ele, tanto que foi incluído em Feiras e mafuás,cuja organização é do próprio escritor e data do ano de 1922, apesar de só ter sido editado, pela primeira vez, em 1953, quando seu autor já havia falecido, fazia bastante tempo.

No ensaio em questão, o escritor discorre explicitamente acerca de sua percepção sobre a literatura de Machado de Assis, assim como define quais seriam suas diferenças (respeitosas) diante do fundador da ABL. Importante, também, é que Lima parece separar vida e obra de Machado de Assis. Ou seja, se discorda dos modelos de ascensão social, da maneira de lidar com a questão racial, com a institucionalização da vida literária, a profissionalização do escritor etc., que ele faz encarnar em Machado, já com relação à obra subsistem outras tantas ambiguidades. No artigo ficam também claros projetos distintos de inserção no grupo literário carioca, que ditava normas nesse contexto, assim como estratégias não só literárias como políticas.

O artigo foi publicado num periódico conhecido por suas análises políticas e sociais, e considerado como parte da imprensa alternativa. No A.B.C.nosso escritor tinha grande familiaridade e afinidade. Seu diretor, Paulo Hasslocher, era reconhecido dentre a geração que sucedera Bilac, e considerado a antítese dos famosos literatos que se reuniam na Confeitaria Colombo e na Livraria Garnier. Usava polainas elegantíssimas, vestia-se como dândi, mas era temido por seus artigos desaforados.

Em 14 de dezembro de 1918, por exemplo, Lima fazia nas páginas da revista sua campanha mais recorrente: contra a alienação dos grandes jornalistas e literatos de seu tempo. Em sua "Carta Aberta" voltava àquela que parecia ser uma "missão" pessoal, não fosse igualmente uma estratégia particular de inserção:

Além da educação de todos eles, além do misoneísmo fatal e necessário aos jornalistas dos grandes jornais, há, para determinar esse uniforme julgamento deles sobre a agitação dos operários e as teorias que os animaram, o que se pode chamar a ambiência mental da imprensa periódica. Essa é feita com o desconhecimento total do que se passa fora da sua roda, determinando esse desconhecimento um desprezo mal disfarçado pelas outras profissões, sobretudo as manuais, e pelo que pode haver de inteligência naqueles que a exercem. Junte-se a isto uma admiração estulta pelos sujeitos premiados, agaloados, condecorados, titulados e as opiniões deles; considere-se ainda as insinuações cavilosas dos espertalhões interessados nisto ou naquilo, que cercam os homens de jornais de falsos carinhos e instalam no seu espírito o que convém às suas transações [...].3

A "Carta Aberta" de 1918 dá um pouco o tom do debate, assim como define o lugar de onde fala Lima. Ele seria, segundo sua própria definição, aquele sujeito avesso aos prêmios e condecorações, aos espertalhões, e aos jornalistas sociais. Não se quer aqui julgar o que o escritor era ou não era; antes sublinhar como gostava de se definir por "contraposição", na contramão da situação, para ele encarnada por Machado de Assis.

Esse é também o tom da crônica "Uma fatia acadêmica". Escrita em 1919, ela recupera, mesmo que com algum tempo de distância, o ambiente de recepção de Triste fim de Policarpo Quaresma, assim como as aspirações, nada secretas, de seu autor. O livro fora publicado, pela primeira vez, na edição vespertina do Jornal do Commercio, e durante dois meses: de 11 de agosto a 19 de outubro de 1911, estando a história completa após 52 folhetins. O Jornal do Commercio era considerado o periódico mais importante em circulação no Rio de Janeiro e contava com duas edições diárias: uma da manhã e outra da tarde. Publicar na seção intitulada "Folhetim do Jornal do Commercio", o mais prestigioso noticiário à época, só mostrava como Lima era nome ascendente no cenário local. Nesse espaço especial, os folhetins eram uma verdadeira coqueluche - com suas histórias de suspense, amor e aventura -, nessa cidade que, a despeito da queda da monarquia, ainda se comportava como uma verdadeira corte, difundindo vogas e costumes. Só para se ter uma ideia, o folhetim de Lima foi sucedido por O mistério da torre. Romance inglês, escrito por A. Conan Doyle.

Chamado de "frutinha do nosso tempo" por Machado de Assis, "folhetim-colibri" por José de Alencar, o gênero era originário da França e havia sido adotado por autores de renome como Balzac, Eugène Sue ou Alexandre Dumas.4Como mostra Marlyse Meyer, le feuilleton teria surgido em meados do século XIX e preenchia função delimitada. Era o local mais frívolo do jornal, do vale-tudo, em que se contavam piadas, comentava-se sobre crimes, ou eram apresentadas receitas e charadas. Além do mais, o folhetim acabou representando também o território dos escritores iniciantes, que tinham nos jornais um espaço dileto de divulgação dos seus trabalhos, o que muitas vezes contribuía para o início de uma carreira literária promissora.

Triste fimnão fugiria ao estilo, com suas três partes anunciando desfechos "tristes": primeiro, o final da carreira de Policarpo como funcionário público - por conta de uma petição mal compreendida em que ele requeria que o Tupi fosse transformado em língua nacional; segundo, por causa da falência do sítio do herói, que pretendera provar as maravilhas de nossa agricultura tropical; e terceiro, quando o personagem se voluntaria ao exército de Floriano e acaba preso; desiludido. Aventura não faltava, mas crítica também.

A obra apareceu como livro só em 1915, publicada pela Revista dos Tribunais; única edição que o autor acompanhou em sua vida. Apesar de ter pago por ela, Lima alegava haver sido obrigado a se conformar com uma edição pobre e cheia de "gatos", por conta da falta de verba. No Diário íntimo,em março de 1917, desabafa: "Devo unicamente ao Lima, pela impressão do Policarpo, a quantia de quatrocentos e quarenta e dois mil réis".5O autor queixava-se não só do dinheiro que despendeu, como daquele que usou para dar publicidade à obra, assim como das poucas críticas que recebeu. E continuava o regime de lamúrias: "Meu livro, o Policarpo, saiu há quase um mês. Só um jornal falou sobre ele três vezes (de sobra). Ele saiu nas vésperas do carnaval. Ninguém pensava em outra coisa. Passou-se o carnaval e Portugal teve a cisma de provocar guerra com a Alemanha".6

Apesar das queixas, que já começavam a se colar à própria imagem pública de Lima, a crítica de A Épocaque apareceu no dia 18 de fevereiro de 1916, na seção de novos livros, logo na primeira página, era bastante favorável. Entre outros destacava o lado "marginal" do autor, e a notoriedade conquistada a partir de sua postura e personalidade avessas aos formalismos da Academia Brasileira de Letras. O texto é grande, mas vamos segui-lo quase na íntegra, uma vez que ele permite entender quem era Lima, já no contexto de publicação desse livro:

O autor de "Escrivão Isaías Caminha" vai dar à luz "Policarpo Quaresma". 'É um livro comum em que pretendo mostrar a pluralidade de muitas das nossas pretensões brasileiras', diz-nos ele. Sabendo que, dentro de dias, Lima Barreto publicaria um livro fomos procurá-lo. No Rio de Janeiro não há quem não o conhece. Ele vive em todos os bairros, arrabaldes, subúrbios, e é visto em toda parte. Pergunta-se a qualquer pessoa: "Tu viste o Lima?". Ela responderá imediatamente: "Vi-o, em Campo Grande, hoje, pela manhã, jogando bilhar". Pouco vive em casa, que só o tem para dormir, de forma que é motivo de curiosidade em toda parte saber onde, quando ele escreve e lê. Ninguém lhe contesta a leitura, e é suposição de todos que ele a faz nos bondes, nas barcas, nos trens... A rua é o seu elemento. Todos os seus livros, contos, pequenos escritos reassumam esse seu amor pela rua. Lima Barreto não é jovem, já passou dos trinta, mas continua cheio de mocidade e ardor. Nasceu no Rio de Janeiro; é carioca da gema, e admira a beleza estonteante da sua cidade. Estudou engenharia e abandonou o curso. Escapou de ser doutor, diz ele. Fez-se empregado público. Oficial da Secretaria de Guerra e, parece, é o desespero dos chefes. Procuramo-lo. Andamos de botequim em botequim, de confeitaria em confeitaria, e fomos encontrá-lo em uma brasserie da rua Sete de Setembro.7

Após ter destacado o lado público do escritor, que sem ser jovem de idade era relacionado ao surgimento de uma nova geração, o jornalista começa então a entrevista:

- Então, Barreto, vais publicar?

- Vou.

Lima estava cercado de amigos, como é seu hábito, e os amigos cercavam as garrafas de cerveja que repousavam na mesa.

- Que livro é? [...]

- Meu livro não é novo. Consta do "Policarpo Quaresma"...

- ...Aquele que foi publicado no "Jornal do Commercio"?

- Esse mesmo e graças à generosidade e boa vontade do dr. Félix Pacheco. - É, portanto, conhecido. Não achas?

- Não. É um folhetim, poucos seguem. Perde-se um, perde-se outro... Tu sabes?

- - É um livro de humor?

- Humor! Deus me livre! Aqui há humoristas ingleses, hindus e até tupinambás, por isso, não desejo absolutamente me enfeitar com semelhante qualificativo [...]. É um livro comum, em que pretendo mostrar a puerilidade de muitas das nossas pretensões brasileiras. Terei errado? Não sei. Terei acertado? Não sei.

- Em que meio se passa?

- Na classe média. Não posso sair dela. Tinha mesmo vontade de sair, mas não me é possível. Por exemplo: eu desejava fazer um livro, em que entrasse um presidente da República, como o sr. W. Braz, que tem uma sala de cinematógrafo e um gramofone em palácio. Não era bem que eu comparasse a Luiz II, da Baviera, com o seu teatro para ele só, a ouvir Wagner? Hein? Mas, como te dizia... desde o meu "Isaías Caminha", que só trato de obedecer à regra do meu Taine: a obra de arte tem por fim dizer que os simples fatos não dizem. É este o meu escopo. Vim para a literatura com todo o desinteresse e com toda a coragem. O fim da minha vida é as letras. Eu não peço delas senão aquilo que elas me podem dar: Glória. Não quero ser deputado, não quero ser senador, não quero ser mais nada senão literato.

Não peço às letras conquistas fáceis; não lhes peço gloríolas, peço-lhes coisa sólida e duradoura. E posso falar de cadeira, as teria feito de sobra.

Eu abandonei tudo por elas; e a minha esperança é que elas me vão dar muita coisa. É o que me faz viver mergulhado aos meus desgostos, nas minhas mágoas, nos meus arrependimentos...

- Barreto, estás entusiasmado, estás queimado.

- Vamos beber cerveja.8

Cultivando uma aura de "escritor mal comportado", Lima Barreto ia esculpindo, junto com sua obra, sua própria figura e imagem. De um lado, a fama de escritor quase maldito, ou ao menos mal comportado; de outro, a imagem de um literato sério, comprometido com a realidade e distante da futilidade. Dez dias depois, no dia 28 de fevereiro, o mesmo jornal volta a mencionar elogiosamente o Triste fim:

Lima Barreto acaba de dar à publicidade esse livro. Que se poderia dizer de um livro de autor de Isaías Caminha? [...] Lima Barreto é mais que um escritor. Nem os seus personagens se distinguem por isto ou por aquilo, mas por serem tão somente o que são psicologicamente, malgrado hábitos e costumes que poderiam dar deles mesmos uma ideia falsa ao observador incauto. Por isso a obra desse esquisito inquisidor da alma humana é mais uma obra de análise do que de arte. Mas análise livre, sem "parti pris", revelando ao correr da pena, as nossas intenções, tendências, qualidades e defeitos irresistíveis, irredutíveis, fundamentais. Não se procure aqui o artifício da frase de efeito [...]. O que para os "artistas" é um fim, para esse detalhista de caracteres humanos é um "documento", uma circunstância probante, um meio necessário para mais acentuada evidência. É vezo nosso comparar valores intelectuais; pois bem: Lima Barreto pode ser comparado, no seu "processus literario", a Dostoievsky, cuja análise subterrânea é até hoje fonte inesgotável para muito psicologista pernóstico [...].9

Lima ganhava certa fama, transformava-se num "importante inquisidor da alma humana", afastando-se da literatura de "efeito". Sua escola era a do realismo, a de Dostoievsky, da obra que é documento. O tom do artigo é o mesmo daquele envergado por Lima, em sua entrevista, e vem ao encontro das altas expectativas do autor. Afinal, a essas alturas, esse não era escritor desconhecido. Ele já havia publicado Recordações do escrivão Isaías Caminha(1909), que lhe conferiu certa notoriedade, mas lhe custou igualmente caro, por conta das críticas que fez ao racismo velado vigente no Brasil e, sobretudo, por causa das denúncias ao lobby da imprensa: "4o poder da República". Em Isaías Caminhao escritor desnudava os bastidores do Correio da Manhãe sem um pingo de ingenuidade teria afirmado: "Eu não tenho inimigos, mas meu livro os terá".10

Mas se com os dois romances Lima pretendia escandalizar, ao descrever a "futilidade da elite carioca", a pouca qualidade do jornalismo nacional e a falta de densidade do positivismo militar no país, o resultado, em termos de recepção, continuava aquém das aspirações de Lima. No caso de Triste fim, além das duas referências em AÉpoca, só apareceriam críticas no jornal A Imprensa, em 20 de agosto de 1916, na coluna "O Dia", de Alcindo Guanabara. Essa coluna era das mais polêmicas, com seu autor usando o pseudônimo de Pangloss, famoso personagem de Voltaire, que representava um filósofo dogmático. No artigo em referência, Alcindo defendia a criação da Academia dos Novos e alegava que o público crescia e pedia, pois, uma nova geração de escritores. Denunciava piratarias, a impossível concorrência com os estrangeiros, a exploração dos editores e ao final introduzia Lima Barreto como caso exemplar dessa nova era da literatura nacional: "É claro que a consequência disso é que o sr. Lima Barreto, que poderia vir a ser um profissional e viver comodamente dos seus romances, está condenado a passar a sua vida escrevendo-os por desfastio, nas horas de ócio que lhe sobraram das que for obrigado a empregar no seu ganha-pão a sério [...]".11

Como se vê, ia se delineando um grupo paralelo de escritores, digamos assim, que procuravam encontrar outras instituições de consagração; outras modelagens do self, do escritor, da literatura no e para o Brasil; outras revistas e jornais, novos lugares de sociabilidade. E nessa roda Lima parecia ir ganhando lugar central. Tanto que era também redator chefe da revista Floreal (1907), que surgia anunciando a formação desse novo grupo literário, sendo Lima editor e diretor da nova revista. De formato pequeno, media 15 por 22 cm, a publicação tinha como objetivo combater "os mandarinatos literários e o formalismo de regras de toda sorte";12 obstáculos que tinham como meta, segundo eles, apenas limitar a entrada dos jovens no cenário da literatura nacional.13 No entanto, carente de uma máquina administrativa e industrial mais forte, sem contar com ilustrações chamativas, e tendo na sua redação apenas escritores ainda pouco conhecidos, a publicação viveu apenas um ano.

Mas nosso escritor também atuava como jornalista da imprensa regular e da nanica. No Correio da Noite, Lima converteu-se em crítico de arte, recomendando ou desanimando, artistas, poetas ou espetáculos. Escreveu, ainda, para revistas como Careta e A.B.C.Nessa última, e como vimos, o escritor colaborou assiduamente, chegando a um total de 42 participações, entre crônicas e artigos. Já na Careta, Lima esteve presente em dois períodos distintos - 1º de março de 1915 a junho de 1916 e depois de setembro de 1919 até a sua morte em 1922. Lima escrevia sobre tudo: cultura, política, problemas higiênicos, sociais, transportes, mundanidades, enfim, o que passasse por perto da corte e de seus arredores.

Em 1909 , Lima e Noronha Santos, colega de Floreale de outras aventuras, editaram juntos O Papão - Semanário dos Bastidores da Política, das Artes e... das Candidaturas, panfleto contra a candidatura de Hermes da Fonseca à presidência da República. Hermes representava o antigo poder do Marechal de Ferro, por contraposição a Rui Barbosa, o intelectual brilhante e dono de conhecida oratória. É desse lugar, dissonante, que Lima criaria esse panfleto: "em nome da liberdade, da cultura e da tolerância". Rui seria derrotado nas urnas, em março de 1910, e Hermes da Fonseca eleito presidente. Mas o clima era de tensão; tanto que uma passeata de alunos foi duramente reprimida pela polícia da corte, levando a vários feridos e algumas mortes. Em setembro daquele ano é marcada a realização do julgamento dos responsáveis pelas mortes dos estudantes e Lima foi convocado para formar o júri. Mais ainda, secretariou o Conselho e redigiu a sentença que condenou o tenente Wanderley e seus soldados. Isso, mesmo diante das pressões que sofreu dentro do Ministério da Guerra - local em que Lima trabalhava como amanuense - e que também pagava os salários dos advogados dos militares.

Começava, então, a ser reconhecível - ser identificado e se identificar - um grupo de oposição. Unidos por contraposição, eles se consideravam críticos a tudo: à política mais convencional, aos jornalistas inescrupulosos, e ao que consideravam ser os circuitos literários conservadores, congregados na Academia Brasileira de Letras. Além de Lima e Antonio Noronha, faziam parte do circuito Bastos Tigre,14 Domingos Ribeiro Filho,15 Curvelo de Mendonça,16 Fábio Luz, sendo Emílio de Menezes (eleito para a ABL, em escrutínio apertado, no ano de 1914) uma espécie de modelo boêmio para o grupo. Sabe-se que havia muita ambiguidade nessa atitude; muito jogo de querer e desfazer.

De toda maneira, é evidente o movimento de buscar outros círculos de sociabilidade, uma rede de geração, e, dentre esses jovens, a liderança parecia recair em Lima. Praticando uma literatura realista e engajada, muito inspirada por autores como Tolstói, Dostoievsky, Flaubert, Balzac, Taine, Bouglé, Stendhal, Voltaire, Eça de Queirós e Renan - que figura na abertura da versão original de Triste fim -, o grupo procurava por uma brecha nesse edifício da literatura que ia se construindo e tomando forma mais definida.

Já Lima Barreto, por mais força que tivesse no interior do grupo, oscilava nas mãos da crítica. Ora era recebido como um enfant gâté, ora como um escritor menor, cuja referência à realidade diminuía a imaginação. O momento estava mais inclinado para as leitoras apaixonadas, que buscavam na literatura platitudes e pouca perturbação. "A literatura é o sorriso da sociedade", escreveu Afrânio Peixoto, sinalizando bem o espírito imperante.

Segundo Lúcia Miguel Pereira,17 o primeiro decênio do século XX oferecera apenas dois romances de peso. Canaãde Graça Aranha, pretendia se diferenciar das obras literárias de seu tempo, mas acabou caindo na vala comum daqueles que imaginavam um Brasil modelado por exemplos externos. Luzia Homem, de Domingos Olímpio, teve boa recepção, mas seu autor não confirmaria, com seu segundo romance, Almirante, as expectativas geradas pelo livro de estreia. Segundo a mesma crítica, Aluísio Azevedo afogara-se no naturalismo e condenara-se ao silêncio; Inglês de Sousa andava afastado da literatura; Coelho Neto imobilizava-se com seu verbalismo, e os simbolistas andavam pouco produtivos.

Entretanto, se o terreno da literatura parecia um pouco árido, em outros setores a produção era mais fértil e irrigada. Silvio Romero e José Veríssimo animavam o ambiente da crítica; Euclides da Cunha virava best-sellerinaugurando um estilo que misturava relato jornalístico etnográfico, pintado com história social e sociologia da época; Joaquim Nabuco convertia-se em grande memorialista; Oliveira Lima renovava as análises históricas; Rui Barbosa inflamava com seus discursos; e na poesia Alphonsus de Guimaraens, Raimundo Correia e Olavo Bilac jogavam colírio nos olhos das moças e rapazes casadoiros. Já na literatura, desde a morte de Machado de Assis em 1908, a crítica parecia não encontrar outro nome que com ele rivalizasse. Acusavam-se as fórmulas importadas - sobretudo as receitas francesas - e a pouca densidade desses pequenos dramas.

E na contramão dessa que era reconhecida como uma pasmaceira literária, parte da intelectualidade nacional vivia da agitação política e cultural que marcou a Primeira República. Passada a comoção da abolição e vivenciada a certeza de que não viriam novas re-escravizações; após a proclamação da República e a revelação de suas primeiras fragilidades; depois das promessas das primeiras constituições e projetos de lei, sobravam insegurança e insatisfação perante essa "república que não foi".18

De toda maneira, é preciso desconfiar da ideia de uma República Velha: no sentido de antiga, conservadora. Na verdade, muitos autores vêm mostrando como ela tinha pouco de "Velha", no sentido de fechada e só marcada por projetos de exclusão social.19 Diverso é o movimento de escritores como Lima, e outros do seu grupo, que paralelamente vinculam sua visão sobre o Regime com os modelos literários. O fato é que os primeiros vinte anos da República, sobretudo o período que vai de 1906 a 1920, conheceriam uma crescente reação de boa parte da população, expressa por intelectuais - dentre jornalistas, políticos e doutores, principalmente aqueles oriundos das classes médias urbanas, mas também provenientes das camadas mais baixas e populares -, igualmente frustrados com o frágil processo de democratização experimentado no país. Por sua vez, o governo continuava controlado pela mão forte dos grupos militares, que mantinham a nação em estado de sítio. Tal tipo de sensibilidade deu lugar a sentimentos díspares, que iam da revolta (como a da Armada em 1892-3 e a da Vacina em 1904), ao moralismo, passando pela melancolia ou desembocando no mero saudosismo. Sobrou um grande sentimento de ceticismo, que não pousava em nenhum regime específico e muito menos numa fórmula importada fácil.20

Mas o momento era muito mais amplo e incluía uma cartela de reinvindicações e a construção de uma agenda cidadã. O novo cenário incluía agora a industrialização e a urbanização crescentes, assim como o espetáculo dessa verdadeira Torre de Babel, feita de imigrantes vindos de muitas partes da Europa e também do Oriente. Essa é igualmente a época da Reforma Pereira Passos, prefeito do Rio de Janeiro entre 1903 e 1906, responsável por expulsar a pobreza para as áreas mais suburbanas e transformar o Rio de Janeiro num cartão-postal. Símbolo maior foi a "nova avenida Central" - atual avenida Rio Branco -, exemplo do projeto urbanístico, com suas fachadas art nouveau, feitas de mármore e cristal, seus modernos lampiões à luz elétrica, lojas de produtos importados e transeuntes à francesa; tudo devidamente caricaturado por Lima. Marcos paralelos e complementares seriam a expulsão da população pobre que habitava os casarões da região central e a criação dos "cortiços". Era a ditadura do "bota-abaixo", que demolia residências e disseminava as favelas, cortiços e hotéis baratos - os "zunga", ou os "caixotins humanos", na expressão de Lima.21

É, portanto, esse o contexto que ajuda a entender as novas opções, estratégias e oportunidades disponíveis. Nesse cenário, Lima se construía como voz aguda, clamava pelo nascimento de uma nova literatura, defendia o reino do realismo e, delicadamente, opunha seu lugar ao de Machado de Assis, a despeito da cautela nos ataques e das críticas mais indiretas. Machado morto talvez pudesse ser mais facilmente "superado", e as armas precisavam ser institucionais, mas também literárias. A cultura e o próprio contexto de época são então arregimentados por Lima Barreto, de forma a caberem em seu projeto literário. O cobertor é que era um pouco curto demais, para a cama de casal.

LIMA COMENTA MACHADO

Da segunda metade da década de 1910 até sua morte, foi na revista A.B.C. que Lima Barreto publicou de maneira mais frequente. A.B.C., uma revista que se definia como "analítica e crítica", foi fundada em 1915. Em seu volume inaugural, que vendeu 10 mil exemplares - começava-se atacando um jornalista, muito conhecido à época: o escritor Paulo Barreto. Diretor da Gazeta de Notícias, ele passou para a história da literatura brasileira com o pseudônimo João do Rio, que bem mostrava o lugar de onde falava e produzia. João do Rio logo se transformou em adversário dileto de Lima, por conta de sua postura dândi, e por causa do tipo de crônica que escrevia, considerada "fútil" e enganosa. Lima Barreto não poucas vezes mostrou sua contrariedade.

A.B.C. contava com colaboradores distintos e de peso: além de Lima Barreto faziam parte das suas páginas nomes como Agripino Nazareth, Oliveira Lima, Astrojildo Pereira, Mario Mattos, Jackson de Figueiredo, Benjamin Costallat, Osório Borba e Hamilton Barata. Os grupos eram diferentes, mas em seu conjunto a revista propunha a criação de uma "confraria" de jovens - um marcador social de diferença pautado na ideia de geração - e contrária ao establishment literário, estacionado, segundo eles, na ABL.

Pois bem, foi nesse periódico, no dia 2 de agosto de 1919, que Lima escreveu:

Em 24 do mês passado, a Academia Brasileira de Letras admitiu entre os seus membros o eminente Sr. Alfredo Pujol. Não houve quem mal dissesse dessa escolha porquanto possuindo o Sr. Pujol todas as qualidades de fortuna e posição que se exigem em tais estabelecimentos, tem ainda por cima talento, o que não é coisa excepcional nos homens de sua categoria, além disso uma honestidade intelectual que impõe a ele mesmo o desejo de ser galardoado pela sua própria inteligência, o que é raro.22

Note-se que, com o objetivo de elogiar, Lima vai construindo a identidade do escritor oculto (ele próprio) que, por sua vez, critica de forma sempre indireta os demais membros da Academia: sem talento, honestidade intelectual ou inteligência. Mas vamos deixar Lima Barreto desenvolver seus argumentos:

Recebeu-o o Sr. Pedro Lessa, Ministro do Supremo Tribunal Federal, afamado jurisconsulto e, como quase todo advogado, homem de letras e, no seu caso, dos mais conspícuos. Como veem, são ambos pessoas de competência acima do vulgar, tanto nas letras como fora delas; e, se me meto, como agora me meto, entre eles, é por ser as letras uma República onde todos devem ser iguais.23

Mantendo uma atitude pretensamente respeitosa, Lima não deixa de mobilizar sua famosa ironia que fica na fronteira do elogio e do escárnio, anunciando, pela negativa, que igualdade não existiria, nem ao menos nessa República das Letras.

E Lima continua, agora transcrevendo o discurso de Pedro Lessa, a própria "peça acadêmica". "Peça" pode ser objeto de uma coleção, mas também uma atuação teatral. Por isso, "prega-se uma peça", no sentido de enganar o leitor. Como veremos, fiel a seu humor mordaz, Lima chama de "excelente" o que vai demolir. Eis o texto de Lima que contém a reprodução do discurso de Lessa:

Estou bem certo que a liberalidade de juiz que deve ser o mais forte dote do caráter do Sr. Pedro Lessa, não me levará a mal ousar tal. Cada um tem o direito de ter uma opinião e de a dizer, por mais humilde que seja. Vou, portanto, servir-me de uma fatia da sua peça acadêmica. Afirma S. Ex., num tópico de seu excelente discurso de recepção o seguinte: "Mas, há, além dessas duas qualidades que tão magistralmente analisastes, mais uma faculdade que se converteu numa segunda natureza do inesquecível mestre: o extraordinário poder de abstração. Machado de Assis como todos os grandes gênios, só acessoriamente, secundariamente, como de um meio para chegar ao seu fim principal, se ocupou dos homens em determinadas condições, em um certo ambiente, em uma época especial. Nada mais longe da verdade do que supor que os seus livros são crônicas ou fotografias da cidade em que nasceu, dos seus conterrâneos e contemporâneos. O que faz o constante objeto de seus estudos é o homem, todo o homem, a espécie humana com os seus instintos, os seus sentimentos, as suas paixões e defeitos. Assim como o que absorve a inteligência dos verdadeiros cientistas sejam astrônomos, físicos ou naturalistas, são primeiro que tudo os fenômenos comuns, de todos os dias, de todos os lugares, cujas leis se esforçam por conhecer, e não os fatos raros, as exceções, as anomalias, os casos teratológicos, empolgantes especialmente para os espíritos vulgares, inferiores, assim também no domínio da observação física, como base da grande arte é o constante, o geral, o comum, que provoca e fixa a curiosidade dos grandes espíritos".24

E continua Lima, interrompendo o discurso do acadêmico:

Há aqui muitas coisas que me causam dúvidas, as quais, apesar da minha insignificância, vou tentar expô-las ao excelentíssimo Sr. Ministro. Duvido, por exemplo, que o Sr. Dr. Pedro Lessa me diga que a eletricidade seja fenômeno comum, de todo dia. É um fenômeno teratológico; muito excepcional mais que a chuva, os ventos, etc. [...] A combustão, o fogo, coisa tão comum à vista de quase toda a humanidade, desde muitas centenas de milhares de séculos, só há pouco tempo mereceu a atenção dos sábios, mas as propriedades das seções de crônicas de há muito tempo.25

Usando um estilo que lhe era comum, Lima começava a desfilar sua erudição na área das ciências naturais, juntando-se na defesa ao realismo: que explicaria a ciência mas a literatura também. O percurso é longo, mas todo ele deságua em Machado de Assis:

O que pensa V. Ex. da arte de Machado de Assis e de outros que não conheço, é reduzi-la à análise das almas aos seus sentimentos elementares [...]. Essa arte algébrica de descrição de sentimentos puros: amor, ciúme, orgulho, vaidade, etc., não conheço, nem mesmo em Machado de Assis. Enfim, eu sou ignorante... Tratarei, porém, da Abstração. Abro agora mesmo o Dicionário de Franck que V. Ex. conhece muito bem: "ABSTRACTION(de 'abstrahere', tirar de). Dugald Stewart, dans ses'Esquisses de philosophie morale', définit l'abstraction: 'Cette operation intime qui consiste à diviser les composées qui nous sont offerts, afin de simplifier l'objet de notre étude'". Podemos parar...26

A crítica dirige-se ao desacordo no que se refere à noção de "abstração": estranha ao universo das ciências, mas também quando se trata de lidar, segundo ele, com outros espaços de produção de conhecimento.

A partir daí nosso escritor começará a separar a ideia e a qualidade da "abstração" de Machado de Assis, que seria tão improvável quanto um fenômeno natural negar seu curso:

A Arte, cujo dever é representar, com os seus recursos e os seus métodos, tendo por limite a Natureza, há de abstrair muito e muito menos que qualquer das ciências elevadas. Um escritor cuja grandeza consistisse em abstrair fortemente das circunstâncias da realidade ambiente, não poderia ser - creio eu - um grande autor. Fabricaria fantoches e não almas, personagens vivos.27

Aí estava a defesa do estilo literário que Lima advogava: o realismo e uma literatura tão militante como de cunho autobiográfico. "Os nossos sentimentos pessoais" - continua ele -

com o serem nossos, são também reações sociais e a sociedade se apoia na terra. No meu humilde parecer, Machado de Assis não abusava, como quer o Sr. Dr. Pedro Lessa do poder de abstração. Não tocava, é verdade, em certos detalhes, em certas atitudes de seus personagens, por isso ou aquilo; evitava pôr em cena certos ou punha pelos nomes aqueles personagens indispensáveis às suas criações com os quais antipatizava; mas indicava ligeiramente esses detalhes, essas atitudes, para poder caracterizar a sua novela. É a sua fraqueza, que o Sr. Dr. Pedro Lessa quer fazer força.28

Tratando do tema como se fosse uma questão de natureza (em si imutável), Lima vai afastando de Machado a ideia da abstração/ imaginação. Também nega a Machado seu diálogo com a "sociedade que se apoia na terra". A tudo isso chamava de "fraqueza", não "força".

A Arte, por sua natureza mesma, é uma criação humana dependente estreitamente do meio, da raça e do momento [...]. Arte, por ser particular e destinar-se a pintar as reações de fora sobre a alma e vice-versa, não pode desprezar o meio, nas suas mínimas particularidades, quando delas precisar. Tendo que pintar o desgosto de um leproso, como a sua vida evolui, eu não posso me ater abstratamente ao sentimento de desgosto. É meu dever primeiramente dizer que ele é leproso, que é rico, que é burro ou inteligente; e, depois, descrever a sua ambiência, tanto de homens, de coisas, mortas e vivas, para narrar, romancear o desgosto do mesmo leproso. Todos os leprosos, Dr. Pedro Lessa, não manifestam a sua dor da mesma maneira; e, para se a compreender artisticamente, são precisos, muitas vezes, detalhes que parecem insignificantes [...]. A arte seria uma simples álgebra de sentimentos e pensamentos se não fosse assim; e não teria ela, pelo poder de comover, que é um meio de persuasão, o destino de revelar umas almas às outras, de ligá-las, mostrando-lhes mutuamente as razões de suas dores e alegrias, que os simples fatos desarticulados da vida, vistos pelo comum, não têm o poder de fazer, mas que ela faz, diz e convence, contribuindo para a regra da nossa conduta e esclarecimento do nosso destino. É o que aprendi em Taine, em Guayau e Brunetière, que nunca me ensinaram a cerebrina abstração que o Sr. Dr. Pedro Lessa julga ser sinal dos grandes escritores.29

Lima desfila então suas afiliações ao realismo literário, e na mesma proporção vai separando Machado de Assis de sua própria turma e virtudes. Literatura seria conversa marcada com "o meio e a raça", elementos que, segundo ele, constituem a própria possibilidade de fazer arte. Literatura, para Lima, não se separaria do contexto do leproso, do burro, do inteligente. A estratégia é, assim, certeira: constituir a si, com o pretexto de descrever o outro. E, mais solto, Lima Barreto passa a fazer a cantilena dos seus autores de plantão:

Swift, diz V. Ex.,é um escalpelador da alma humana. Swift não seria Swift se fosse isso. Bousquet o é, Shakespeare o é, Dostoiewsky o é; mas Swift, não. Verdadeiramente não tem personagens; não há na sua obra o que chamamos romance hoje. O único personagem, se há um, é ele. De um romance de aventuras fantásticas dele mesmo, Swift fez uma grande, larga, forte e amaríssima sátira, não a este indivíduo, não a esta classe da sociedade, não a esta sociedade; mas ao gênero humano todo, tomado em globo. É um autor à parte, sui generis, sem igual quase pela invenção libérrima, a não ser Cervantes, Aristófanes, o seu patrício Defoe, Rabelais e poucos outros. A sua sátira é a mais anti-humana que tenha saído da pena do homem. [...] Machado de Assis não tem nenhuma semelhança com esse doloroso Jonathan Swift: ele não tinha força interior bastante para lutar e quebrar-se contra o Destino.30

Machado nada teria para se aproximar de Swift - nada de tão "doloroso" - assim como não lembraria Dickens. Dessa maneira, Lima ia deixando claras suas posições em relação a Machado (e com relação ao discurso de Lessa também). Apesar da cortesia inicial, o artigo vai mostrando exatamente o oposto. Machado não tinha "abstração", "alma", ou força para contradizer o destino:

Dickens faz até "fé de ofícios" dos seus personagens, não esquece um acidente terreno, não deixa de ver a singularidade de um trecho de rua em que reside um seu herói! As suas minúcias fatigam mais do que as de Balzac, que ele admirava muito. Alude o Sr. Dr. Pedro Lessa a Thackeray. Mas meu Deus! - este sempre foi tido, para os seguidores da doutrina dos rígidos gêneros literários, como um panfletário, sobretudo nos seus grandes e imortais romances. Será isso Machado de Assis? Qual! Nunca o velho Machado seria o colaborador do Punch, aí pela década de 40, na Inglaterra. 31

A partir daí o argumento de Lima Barreto fica ainda mais claro, e é como se ele separasse o joio do trigo: ele estaria de um lado; Machado de outro:

Machado era um homem de sala, amoroso das coisas delicadas, sem uma grande, larga e ativa visão da humanidade e da Arte. Ele gostava das coisas decentes e bem postas, da conversa da menina prendada, da garridice das moças. Quem inventou esse negócio de humoristas ingleses para ele foi o grande José Veríssimo, que admirava com toda a razão Machado de Assis: mas eu sei bem porque ele inventou essa história... Vai ficando longo este meu desatino que fiz o possível, se tal coisa é possível, de pôr nele, não só ordem, mas o respeito que me merece o Sr. Dr. Pedro Lessa. Creio que não fiquei longe do propósito.32

Machado de Assis é transformado em literato aristocrático, das coisas em ordem, de conversa com "moças"; das frases decentes. Lima, por sua vez, parece se definir como "burguês", no sentido de precisar e defender uma sociedade mais aberta. Suas ambiguidades são em parte ambiguidades desse encontro em si ambíguo num primeiro momento de "burguesia" e "proletariado" contra o antigo regime. O espelho entre Lima e Machado é entre uma ordem "fechada" e as formas consolidadas de ascensão individual mesmo para negros, mas que os mantinham nos limites do individual como exceção que confirma a ordem; e uma ordem burguesa, aberta à competição. A decepção progressiva de Lima não deixa de ser a percepção de que a promessa de abertura burguesa da sociedade brasileira não se realizava sem repor velhos privilégios e barreiras à plena consolidação dos talentos. Além do mais, a defesa do talento, nesse Lima combativo, não deixa de se relacionar, de alguma forma, a uma sociedade aberta à competição entre formalmente iguais - uma sociedade burguesa. A burguesia, aliás, está muito identificada aos subúrbios da época, que não eram, como hoje, um lugar do proletariado ou do lúmpen.

Lima também joga seu escárnio contra Veríssimo, a essa altura considerado o mais influente crítico literário, mas que havia criticado a arte do diretor de Floreal. Respeitoso, Lima contemporiza, mas sem recuar.

Reitero o pedido que fiz a S. Ex. de não me levar a mal por isso; e, para terminar, peço ainda a S. Ex. que leia o Sr. Araripe Júnior que tratando de Machado de Assis, diz na Revista Brasileira (fase de José Veríssimo), tomo I, p. 24: "Machado de Assis não chegou, entretanto, de um salto à sua obra verdadeira [...]". Na mocidade de Machado, mal saído da oficina, essa imitação de Feuillet, o róseo autor dos amores de salão, o esquadrinhador de paixões da roda decente, em face de outros dados de sua vida, podia bem explicar as estranhezas das suas obras posteriores, o que não faço e não farei, para não parecer a todos que desrespeito a sua memória. Para toda a gente é melhor glorificar em bruto do que admirar com critério. Sigo o partido de toda a gente e paz aos mortos!33

Alegando respeito aos mortos, Lima brinca com o lado rosado dessa literatura das paixões desenfreadas, assim como acusa "as esquisitices" dos livros da maturidade de Machado. Diz sem dizer, alega sem concretizar, referência sem dar dados. Mas a mesa está posta. Uma parece bem arrumada, em ordem, com flores na decoração. A outra, quase na sombra mas iluminada pelo sujeito onisciente do artigo em pauta, parece ter mais pratos na mesa, ser sujeita a convulsões e retratar um alimento mais vivo. Enfim, estava feita a mesa e era hora de servir o cafezinho.

Outras sombras: Machado de Assis en passant

Essa foi a única vez em que Lima se referiu diretamente a Machado. Em outras ocasiões, o nome do acadêmico seria mencionado, mas de maneira mais breve, como alusão ou em meio a outros temas. Mas, valendo-nos de um uso "tortuoso" do método indiciário, e inspirados por Carlo Ginzburg,34 vale a pena explorar detalhes, e, ainda mais, reter as insistências que podem ser tomadas a partir de um conjunto de menções a Machado. Aí encontramos uma espécie de discurso escondido, ou ao menos não intencionalmente elaborado. Interessante, por exemplo, como em um artigo a respeito de Domício da Gama, autor de segunda linha, e que se dedicava a memórias e textos de viagem na virada do XIX para o XX, Lima tenha usado Machado como régua comparativa, dessa vez, positiva. No artigo intitulado "A Casa do Espanto", para a revista Atualidade de 20 de julho de 1919, Lima escreveria:

[...] O que falta no Senhor Domício da Gama é força, é vigor de alma, é paixão, é necessidade de amar e de odiar. A sua literatura foi uma coisa assexuada, catitinha, limpinha, sem altos nem baixos, sem um acento forte de um qualquer sentimento pessoal e muito menos geral. O Senhor Domício não tem em si atividade mental bastante poderosa para criar, para inventar, para desdobrar a sua personalidade em escritos bons ou maus, quando quer e quando não quer.35

Com o mesmo estilo irônico, e carregando um narrador onisciente que é sempre um juiz implacável, Lima desfaz das potencialidades da literatura de Domício, e inclui aquele que é sempre um "marcador" fundamental para o escritor: a juventude. Nem nesse momento, muito menos na época comum da Politécnica, Domício teria revelado capacidade.

Foi Sua Excelência, como pouca gente sabe, aluno da Escola Central, hoje Politécnica, no tempo em que a matemática elementar constituía uma espécie do que no primeiro ano é chamado curso anexo. O Senhor Domício matriculou-se nesse curso e não foi além. Um seu antigo colega me contou que ele explicava o abandono do curso pelo fato de não gostar de "diferências". Era um jogo de palavras e não sei se dos bons. Ele empregava "diferências" por "diferenças" e aludia ao estudo de cálculo diferencial, que era no ano seguinte. Essa frase dita em moço explica bem o Senhor Domício. Na sua falta de relevo [...] ele tem sido um caso eloquente e público de mimetismo. Os seus escritos trazem não só influência mas imitação de Machado de Assis. Há, entretanto, uma diferença: se os sestros e as esquisitices do velho Machado tinham nascido dele mesmo, do amplo solo de sua alma dolorida; as cravinas literárias do Senhor Domício haviam sido cultivadas em um pote de janela e regadas com um regador de menina de qualidade. Nasciam murchas. Depois que lhe embranqueceu o cabelo, tratou o autor dos Contos a meia-tinta de vestir-se à Joaquim Nabuco; e, quando o fizeram embaixador, visou logo o Itamarati e imitar nele Rio Branco. Felizmente, não temos mais essas bobas questões de limites; o Senhor Domício há de sentir, por isso, não ser totalmente como o seu epônimo ministerial, para arranjar uma complicação diplomática que ele mesmo desfizesse e recebesse uma ovação desta mulataria, com grande gáudio dele, a mostrar-se orgulhosamente à mistress, como ídolo desta negralhada brasileira que quer ser latina.36

Na crônica em questão, Lima não só desfaz da pequenez de Domício, como do percurso seguido por esse personagem. Adiciona novos índices para comparação, incluindo a pose de Joaquim Nabuco e a profissão de embaixador com direito a carreira no Itamaraty. Também ironiza a prática europeia num país marcado pela "mulataria", e pela "negralhada" que, segundo ele, quer ser latina ou até europeia. O Itamaraty é outro alvo dileto de ataque, e dessa vez Machado serve como refresco, como exemplo de quem "nasceu de si mesmo". A crítica ao outro é antes uma definição de si, e uma avaliação daquilo que Lima considerava ora fraco, ora artificial, pois copiado.

Em outro artigo para a conhecida A.B.C., datado de 2 de novembro de 1918, e chamado "A corte do Itamarati", Lima desanca novamente sobre esse núcleo que, segundo ele, orbitava em torno da Academia. Rio Branco é "freguês" costumaz nesse tipo de reprimenda, e, mais uma vez, Machado de Assis é incluído no pacote.

[...] Rio Branco não se contentou com isso, fez mais: organizou uma corte sob o teto estucado do grande nacional. Antigo jornalista e, parece, um pouco boêmio, membro da Academia de Letras, escritor de onde em onde, à sua corte não faltaram poetas e literatos e também diplomatas, pois todos estes se têm na conta de homens de letras. Os primeiros a chegar foram as notabilidades, os antigos, os bem velhos, aqueles que tinham sido de alguma forma companheiros de mocidade do Barão. Machado de Assis, José Veríssimo, Carvalho Moreira eram sempre vistos lá; seguiram-se de outros de outra camada, entre os quais eu me recordo de Graça Aranha, Domício da Gama, Bilac, Mário de Alencar e alguns mais.37

Novamente, Lima se comporta como uma espécie de "metro" para mensurar quem é quem no mundo das letras e nessa "corte" apequenada. Da corte faziam parte os eleitos e Machado de Assis, assim como os demais diplomatas. Lima não fazia parte - por opção ou pela falta dela - desse mesmo grupo.

Há, pois, uma galeria de textos em que Machado é citado por Lima, sem ser o tema fundamental do artigo. Mas é justamente essa forma indireta e alusiva que melhor reproduz a maneira como o segundo se posicionava nessa República das Letras, e como a alteridade em relação ao primeiro parecia ser constituidora de sua própria identidade. Talvez o artigo mais significativo e engraçado seja aquele que saiu na Gazeta da Tarde, no dia 28 de junho de 1911, com o título "Esta minha letra":

A minha letra é um bilhete de loteria. Às vezes ela me dá muito, outras vezes tira-me os últimos tostões da minha inteligência. Eu devia esta explicação aos meus leitores, porque, sob a minha responsabilidade, tem saído cada coisa de se tirar o chapéu. [...] Se, às vezes, não me põe mal com a gramática, põe-me em hostilidade com o bom senso e arrasta-me a dizer coisas descabidas. Ainda no último folhetim, além de um ou dois períodos completamente truncados e outras coisas, ela levou à compreensão dos meus raros leitores - grandeza - quando se tratava de pândega.38

Novamente o escritor desfaz mas também valoriza o fato de contar com poucos leitores, assim como chama atenção para seus "gatos de redação" e a hostilidade que ia ganhando por conta de sua política de incluir sempre acusações aos colegas. Corto um pouco a narrativa, para ir direto ao tema que nos interessa aqui de perto: o projeto literário de Lima de um lado, a projeção corporificada em Machado, de outro, e enquanto isso sua "letra" vai ganhando vida própria:

[...] Que ela me levasse a incorrer na crítica gramatical da terra, vá; mas que me leve a dizer coisas contra a clara inteligência das coisas, contra o bom senso e o pensar honesto e com plena consciência do que estou fazendo! e não sei a razão por que a minha letra me trai de maneira tão insólita e inesperada. Não digo que sejam os tipógrafos ou os revisores [...]. É a minha letra. Estou nesta posição absolutamente inqualificável, original e pouco classificável: um homem que pensa uma coisa, quer ser escritor, mas a letra escreve outra coisa e asnática. Que hei de fazer? Eu quero ser escritor, porque quero e estou disposto a tomar na vida o lugar que colimei. Queimei os meus navios; deixei tudo, tudo, por essas coisas de letras. Não quero aqui fazer a minha biografia; basta, penso eu, que lhes diga que abandonei todos os caminhos, por esse das letras; e o fiz conscientemente, superiormente, sem nada de mais forte que me desviasse de qualquer outra ambição; e agora vem essa coisa de letra, esse último obstáculo, esse premente pesadelo, e não sei que hei de fazer! [...] É duro fazê-lo, depois de quase dez anos de trabalho, de esforço contínuo e - por que não dizer? - de estudo, sofrimento e humilhações. Mude de letra, disse-me alguém. [...] Ora, esse meu conselheiro é um dos homens mais simples que eu conheço. Mudar de letra! Onde é que ele viu isso? Com certeza ele não disse isso ao Senhor Alcindo Guanabara, cuja letra é famosa nos jornais, que o fizesse; com certeza, ele não diria ao Senhor Machado de Assis também. O motivo é simples: o Senhor Alcindo é o chefe, é príncipe do jornalismo, é deputado; e Machado de Assis era grande chanceler das letras, homem aclamado e considerado; ambos, portanto, não podiam mudar de letra; mas eu, pobre autor de um livreco, eu que não sou nem doutor em qualquer história - eu, decerto, tenho o dever e posso mudar de letra.39

A ironia tem endereço certo. Mudar a letra significava mudar de estilo e se aproximar do modelo de jornalistas consagrados e dos romances de Machado de Assis, "o grande chanceler das letras, homem aclamado e considerado". A luta aqui é entre "realezas" e um "pobre autor de um livreco" que não é doutor em nada. Na verdade, ao mesmo tempo em que Lima concorda que sua "letra" lhe tinha criado inimigos, vai deixando ainda mais claro o círculo do qual não faz parte: "o cenáculo da Garnier" ou o "salão literário de Coelho Neto". O artigo é um poço de ambivalências com nosso autor mostrando suas próprias fragilidades, mesmo que à custa de muita ironia:

De manhã, quando recebo a Gazetaou outra publicação em que haja coisas minhas, eu me encho de medo, e é com medo que começo a ler o artigo que firmo com a responsabilidade do meu humilde nome [...]. Tenho vontade de chorar, de matar, de suicidar-me; todos os desejos me passam pela alma e todas as tragédias vejo diante dos olhos. Salto da cadeira, atiro o jornal ao chão, rasgo-o; é um inferno. Eu não sei se todos nos jornais têm boa caligrafia [...]. Nas letras, porém, não é assim. Eu não cito autores, porque citar autores só se pode fazer aos ilustres, e seria demasia eu me pôr em paralelo com eles, mesmo sendo em negócio de caligrafia.40

Interessante notar que Lima afirma que não vai citar nomes após citá-los, que não vai fazer autobiografia quando a faz, e joga a reflexão, cada vez mais, para a sua contrariedade diante das críticas que não recebeu (ao menos na proporção que imaginava) para seus livros. O artigo vai num crescente, associando letra com caligrafia social, e estas com o ingresso nessa "corte da literatura". Não contente, inclui o local de onde fala (os subúrbios), brinca com o desconhecimento da elite da corte e ainda provoca com a ideia de que precisava se casar: o que jamais faria.

De tal modo essa questão de letra está implicando com o meu futuro que eu já penso em casar-me. Hão de surpreender-se em ver estas duas coisas misturadas: boa letra e casamento [...]. O aspecto desordenado dos nossos subúrbios ia se desenrolando aos meus olhos; o trem se enchia da mais fina flor da aristocracia dos subúrbios. Os senhores com certeza não sabiam que os subúrbios têm uma aristocracia. Pois têm. É uma aristocracia curiosa, em cuja composição entrou uma grande parte dos elementos médios da cidade inteira: funcionários de pequena categoria, chefes de oficinas, pequenos militares, médicos de fracos rendimentos, advogados sem causa, etc. Iam entrando com a morgueque caracteriza uma aristocracia de tal antiguidade e tão fortes rendimentos, quando uma moça, carregada de lápis, penas, réguas, cadernos, livros, entrou também e veio sentar-se a meu lado. Não era feia, mas não era bela [...]. Quis namorá-la, mas não sei namorar, não só porque não sei, como também porque tenho consciência da minha fealdade. Fui, pois, tão canhestro, tão tolo, tão inábil, que ela nem percebeu. Um namoro de... caboclo.41

A presença oculta de Machado era tal, que, por vezes, o acadêmico surgia por meio de suas frases e expressões. No conto "Manifestações políticas" - publicado em 29 de outubro de 1921 -, Lima termina a narrativa com o seguinte diálogo:

- Quem é essa gente que me aclama assim? [...]

Nisto um bêbedo ou um maluco, antepassado certamente de Quincas Borba, gritou bem alto:

Ao vencedor, batatas!

O meu amigo rematou: Está aí a filosofia das manifestações políticas.42

Mais uma vez, Lima Barreto revelava, através de detalhes, como era leitor de Machado de Assis, citando a expressão de Rubião, personagem do romance Quincas Borba, de 1891. Uma clara ambivalência pairava, pois, em relação a esse autor. Se discordava da agenda literária de Machado, Lima mostrava conhecer a produção desse literato, além de possuir alguns exemplares, na sua biblioteca privada: a Limana. Na relação elaborada pelo próprio Lima em 1917, aparecem os seguintes livros de Machado de Assis: Brás Cubas, Quincas Borba, Esaú e Jacó.

Como exemplo de lugar e posição, Machado de Assis tem presença cativa nos contos e crônicas de Lima. Por exemplo, no bem humorado "Três gênios da secretaria" - publicado originalmente em Brás Cubas(10/4/1919) -, o escritor envenena a profissão de funcionário público. Claramente autobiográfico, Lima, ele próprio um funcionário público na secretaria da Guerra, revela-se por inteiro nos registros à sua má letra, e na sátira ao parasitismo:

Com familiaridade e convicção, manuseava os livros - grandes montões de papel espesso e capas de couro, que estavam destinados a durar tanto quanto as pirâmides do Egito [...]. Puseram-me também a copiar ofícios e a minha letra tão má e o meu desleixo tão meu, muito papel fizeram-me gastar, sem que isso redundasse em grande perturbação no desenrolar das coisas governamentais. Mas, como dizia, todos nós nascemos para funcionário público. Aquela placidez do ofício, sem atritos, nem desconjuntamentos violentos; aquele deslizar macio durante cinco horas por dia; aquela mediania de posição e fortuna, garantindo inabalavelmente uma vida medíocre. Os dias no emprego do Estado nada têm de imprevisto, não pedem qualquer espécie de esforço a mais, para viver o dia seguinte. Tudo corre calma e suavemente, sem colisões, nem sobressaltos, escrevendo-se os mesmos papéis e avisos, os mesmos decretos e portarias, da mesma maneira, durante todo o ano, exceto os dias feriados, santificados e os de ponto facultativo, invenção das melhores da nossa República. De resto, tudo nele é sossego e quietude. O corpo fica em cômodo jeito; o espírito aquieta-se, não tem efervescências nem angústias; as praxes estão fixas e as fórmulas já sabidas.43

Nesse mostrar e esconder, Lima volta à questão do casamento e dos pistolões:

Pensei até em casar, não só para ter uns bate-bocas com a mulher, mas, também, para ficar mais burro, ter preocupações de "pistolões", para ser promovido. Não o fiz. Casar-me no meu nível social, seria abusar-me com a mulher, pela sua falta de instrução e cultura intelectual; casar-me acima, seria fazer-me lacaio dos figurões, para darem-me cargos, propinas, gratificações, que satisfizessem às exigências da esposa...44

Nesse devaneio sobre o casamento, que surge aqui também como uma instituição condicionada pelo vil interesse, Lima reproduz um diálogo hipotético, entre o suposto sogro e o noivo:

O rapaz foi posto em primeiro lugar, nomeado, e o velho sogro (já o era de fato) arranjou-lhe o lugar de "Auxiliar de Gabinete" do ministro. Nunca mais saiu dele [...]. Adquiriu títulos literários, publicando a Relação dos Padroeiros das Principais Cidades do Brasil; e sua mulher quando fala nele, não se esquece de dizer: "Como Rui Barbosa, o Chico" ou "Como Machado de Assis, meu marido só bebe água'"45.

Chamando o personagem/funcionário pelo divertido nome de Mata-Borrão, Lima conclui: "A vida não é unicamente um caminho para o cemitério; é mais alguma coisa e quem a enche assim, nem Belzebu o aceita".46

Dessa maneira, Machado ia virando referência de referência; símbolo de uma situação social e econômica que nosso escritor sempre alegava não possuir (ou desejar). O truque, tal a insistência, vai virando discurso recorrente. Identidade é construção social, marca de pertencimento e, ademais, é sempre produzida em relação. No conjunto dos textos, em pequenos fragmentos ou referências soltas, Lima vai moldando seu perfil, por oposição a uma série de personagens e instituições. A ABL e o Itamaraty estavam no centro desse alvo, assim como Coelho Neto, Rui Barbosa e sobretudo nosso Machado. Identidades são estratégias acionadas pelos agentes sociais, e representam respostas políticas, situacionais e alterativas. Não se trata de pensar em atitudes "essenciais" e muito menos "rígidas". Identidades se constroem em contextos específicos, conformam-se como estratégias de inserção e são sempre contrastivas. Constroem-se personas em disputa, mas também em relação e oposição. E esse é o modelo preconizado por Lima Barreto, o qual, a despeito de se apresentar como "vítima" de seu momento - e evidentemente o é -, também negocia com seu tempo e manipula no sentido de se construir na contracorrente.47

Último registro. No conto incompleto chamado "Conversas" - formado por duas tiras encontradas na seção de manuscritos da coleção Lima Barreto da Fundação Biblioteca Nacional (I-06, 34, 0914) -, Lima retorna à mesma ladainha:

Sábado, depois de um longo afastamento de três meses, estive com o meu amigo Gonzaga de Sá. Encontrei-o na rua do Sacramento canto da de Luiz de Camões, a ver os que saíam da conferência do Instituto. Fumava displicentemente, tinha bengala atrás das costas e olhava a multidão despreocupada, nem reparou direito a importância dos homens e a beleza das mulheres. Que vês, Gonzaga? [...] Vejo os que seguem, vejo os que admiram. Se não leem, convém os mestres das letras do Brasil. E não é a primeira vez que os vejo! [...] Há trinta anos os vi - saíam das conferências da Haia. Seguiam, admiravam a catapúltica palavra dos Conselheiros imperiais. O Machado de Assis fez conferências na Haia? Não. O Ruy Barbosa.48

O conto encontra-se, evidentemente, incompleto. Mesmo assim, vale a pena incluí-lo aqui com o objetivo de mais uma vez destacar a ironia constitutiva de Lima para com a Academia e para com os intelectuais mais bem estabelecidos, simbolizados por Rui Barbosa e Machado de Assis. Lima, a essa altura, já havia pedido várias licenças médicas, as quais eram sempre prescritas para noventa dias. Tudo indica, pois, que o afastamento de três meses tenha sido por ocasião de um desses licenciamentos. O texto teria sido escrito, pois, fora da Secretaria, e carregava uma perspectiva ainda mais deprimida e mesmo ressentida. Afinal, Triste fimmarcaria o momento de apogeu, mas também o começo da queda - física, moral e até profissional - de Lima Barreto, que passaria por várias internações motivadas pela bebida, e se isolaria cada vez mais em sua casa, no Subúrbio de Todos os Santos. Mas esse é outro momento. Nesse que estamos construindo, Lima se fazia líder de um grupo alterativo, e criava para si e para os colegas de geração um novo lugar nessa capital das letras nacionais. A estratégia seria feita, também, a partir de marcadores geográficos e espaciais. A cada grupo a sua confeitaria!

Cafés e sociabilidade

Segundo Brito Broca,49 a vida social e cultural da capital da República corria solta nos cafés do início do século: vivos, esfumaçados e lotados de senhores com seus chapéus panamás e ternos claros. Eles eram muitos, e ficavam todos na região do centro, sendo os mais conhecidos: o Café do Rio (rua do Ouvidor com Gonçalves Dias); o Café Java (largo do São Francisco com rua do Ouvidor); o Café Globo (rua Primeiro de Março, entre Ouvidor e beco dos Barbeiros); e os cafés Paris e Papagaio, um pouco mais afastados do buchicho da rua do Ouvidor. A elite cultural local também se dividia dentre duas confeitarias: a Colombo (localizada na rua Gonçalves Dias) e a Confeitaria Pascoal (situada na Rua do Ouvidor).

Interessante notar que nessa lista compreensiva não aparecem referências a alguns dos cafés frequentados por Lima Barreto, como o Café Jeremias, ou o Americana. Tal ausência pode ser tomada como indicação de como esses eram cafés de pouca convivência da elite literária. Por sua vez, era nesses lugares que Lima se fazia cercar por "uma roda de rapazes instruídos", título pelo qual, aliás, se reconheciam, sendo vigente entre eles a determinação de não conversarem sobre literatura. A ideia era não reproduzir o clima "artificialmente literário" de outras rodas. Também se bebia bastante no grupo, que, de maneira igualmente contrastiva, opunha ordem à boemia.50

Lima era igualmente assíduo do Café Papagaio, tomando parte de um grupo denominado "Esplendor dos Amanuenses", que se reunia todas as tardes para discutir "coisas graves e insolúveis". O nome debochado era uma alusão à profissão de Lima, ele também um amanuense na Secretaria da Guerra, já que, como vimos, era principalmente um ganha-pão, sem qualquer investimento pessoal ou profissional. Faziam parte, também, Bastos Tigre, Domingos Ribeiro Filho, Rafael Pinheiro, Amorim Júnior, Calixto, João Rangel e o caricaturista Carlos Lenoir. Esse era o "grupo de Lima", a turma da Floreal, aqueles que se reuniam para formar o "Grupo dos Novos", em tudo contrapostos à ABL.

Além dos cafés, outros pontos construíam essa geografia simbólica que elegia filiações literárias e pessoais. As rodas literárias, por exemplo, aconteciam nas livrarias e editoras. A mais famosa era a roda da Livraria Garnier, na rua do Ouvidor. Havia outras, como a Livraria Laemmert - na Rua do Ouvidor -, frequentada por Euclides da Cunha e Elísio de Carvalho, entre outros, de corte mais jovem e crítico; e a Livraria Azevedo - situada na rua Uruguaiana. Quartel general de Carlos de Laet, ela era conhecida como a roda dos gramáticos e professores. Por fim, na Livraria Briguiet - também situada na rua Nova do Ouvidor -, podia ser encontrada a "velha guarda" do Império: Rui Barbosa e Graça Aranha, por exemplo.

Já Machado de Assis, se andava por perto da rua do Ouvidor - verdadeira vitrine para essa elite das letras -, ao que tudo indica, nunca frequentara cafés e confeitarias. Costumava fazer ponto na Livraria Lombaert, para depois se tornar comensal da Revista Brasileira, em cuja editoria se reuniam às tardes, ao lado de Machado, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, Coelho Neto, Taunay e Nabuco. Dessas tertúlias, acompanhadas de chá com torradas, nasceu a Academia Brasileira. Apenas com o fechamento da Revista, em 1899, é que o grupo se transferiu para a Garnier. Foi no dia 19 de janeiro que se inaugurou o imponente edifício, até então ocupado pela livraria Briguiet. Na ocasião, ofereceu-se a todos os convidados um volume de Machado de Assis, com autógrafo e tudo. Afinal, a essa altura, o romancista já era uma das glórias da casa. Conhecido por sua vida ritualizada, Machado para ali se dirigia todos os dias, após o encerramento do expediente no ministério. Era sempre recebido de maneira respeitosa, cercado de atenções, e tinha uma cadeira cativa e reservada.51

Segundo relatos de época, Machado de Assis não apreciava esses recintos, onde os intelectuais tropeçavam uns nos outros. Por isso, talvez, preferia a Livraria Quaresma, situada na rua São José, e frequentada por poucos: Alberto de Oliveira, Catulo Cearense e João Ribeiro. Tal atitude - ordeira, rotineira e avessa à boemia - gerou sempre reação. Por exemplo, na Garnier reunia-se também a roda dos simbolistas, que se uniam aos anarquistas e socialistas - como Gustavo Santiago, Rocha Pombo, Nestor Vítor -, na mesma atitude de hostilidade ao autor de Quincas Borba.

Confeitarias, livrarias e editoras ajudavam, pois, a delimitar fronteiras dentro das fronteiras, e estabilizavam territórios. Se conflitos e fofocas existiram sempre, na virada do século tenderam a se fortalecer, com Machado já morto e Lima tentando encontrar um lugar ao sol. Muito desse embate entre os dois autores é, portanto, construção relativa: situacional. Mas muito se deve, também, às próprias preferências literárias afirmadas ou atribuídas aos dois autores.

Uma disputa anacrônica

Perseguir a maneira como Lima Barreto se referia a Machado de Assis nos levou a perceber, igualmente, uma clara diferença entre as posições veiculadas em textos publicados e aquelas presentes nos materiais privados, como correspondências e relatos feitos a amigos próximos. Se nas publicações Lima se mostra até respeitoso, é nos documentos de cunho mais pessoal que vemos o autor desferir duras críticas, assim como se construir em contraponto aos "defeitos" de Machado.

Tal posição fica ainda mais clara na missiva que Lima Barreto envia a Austregésilo de Ataíde, em resposta à "Carta aberta" de Ataíde, publicada no jornal carioca A Tribuna, em 18 de janeiro de 1921. Francisco de Assis Babosa cita apenas um trecho - "Machado é falso em tudo. Não tem naturalidade. Inventa tipos sem vida".52 Mas há outros momentos da carta que completam e definem o rancor de Lima:

Todos os Santos, 19 de janeiro de 1921. [...] Gostei que o senhor me separasse de Machado de Assis. Não lhe negando os méritos de grande escritor, sempre achei no Machado muita secura de alma, muita falta de simpatia, falta de entusiasmos generosos, uma porção de sestros pueris. Jamais o imitei e jamais me inspirou. Que me falem de Maupassant, de Dickens, de Swift, de Balzac, de Daudet - vá lá; mas Machado, nunca! Até em Turguênieff, em Tolstói; podiam ir buscar os meus modelos; mas, em Machado, não! Machado escrevia com medo do Castilho e escondendo o que sentia, para não se rebaixar; eu não tenho medo da palmatória do Feliciano, e escrevo com muito temor de não dizer tudo o que quero e sinto, sem calcular se me rebaixo ou se me exalto! Creio que é grande a diferença [...]. Sem mais, etc. etc. Lima Barreto.53

Sem meios tons, Lima radicaliza a crítica de Ataíde. Para o autor de Triste fim, Machado não tinha "alma"; tinha medo de mostrar seus sentimentos. Já Lima, segundo Lima, era verdadeiro e não se rebaixava a "qualquer palmatória". Os termos também não são inocentes, uma vez que o definem como descendentes de escravos, vinculando o escritor à população negra e suburbana. Essa era parte fundamental da identidade que Lima ia delineando para si, ainda mais em 1921, quando, já aposentado, isolava-se na sua "Vila Quilombo": nome que havia cunhado para o lugar onde morava.

E estava dada a partida das comparações. Jackson de Figueiredo, em artigo publicado em 1916 em A Lusitana, saía em defesa do escritor, chamando Lima de "analista de combate".54 O crítico aproxima, porém, os dois literatos no que se refere ao uso da ironia. Lima teria ironia forte enquanto Machado de Assis leveza e intenção filosófica. Estamos nos tempos de Triste fim, e Jackson desempata para o lado de Lima, dizendo ser ele "mais humano e mais verdadeiro".55 José Oiticica publica em 1916 artigo no jornal A Rua, afirmando que Lima " ... é um Machado de Assis sem correção gramatical, porém com vistas amplas, hauridas no socialismo e no anarquismo". Vitor Viana, em 1919, escrevendo para o Jornal do Commercio, volta a estabelecer paralelos entre os dois escritores. Aproxima tanto Machado como Lima da escrita dos ingleses, mas encontra no primeiro doçura e resignação e no segundo, revolta e ardor político.

Nesse mesmo ano de 1919, outros autores - João Ribeiro, Tristão de Ataíde - arriscariam comparações. Mas apenas Austregésilo de Ataíde, em carta a Lima, reclama da indevida aproximação entre ambos. Desabafa: Machado seria um "pessimista desapiedado" e aquele "onde o sangue mulato animava o gênio dum heleno sem parelha". Segundo Ataíde, Machado não tinha sintonia com seus personagens e alheava-se deles. Já Lima: "Você vive e vibra com os seus personagens, porque eles são filhos da sua alma, rebolada, como a deles, nos descalabros da existência, e experiente das misérias que os afligem".56

No entanto, tal qual sina anunciada, o silêncio se abateria sobre a obra de Lima Barreto. Durante largo tempo pouco se escreveu sobre Lima, e, como decorrência, sobre a relação dele com Machado. Mais de vinte anos depois, Sérgio Buarque de Holanda publica um artigo chamado "Em torno de Lima Barreto" no Diário de Notícias, no dia 23 de janeiro de 1949. Nesse texto, Sérgio Buarque faz duras críticas à obra de Lima Barreto, considerando-a inferior à de Machado de Assis. Mais uma vez, o trecho abaixo traz um extrato mais amplo do que aquele citado por Francisco de Assis Barbosa. Escreve o historiador:

A verdade é que Lima Barreto não foi o gênio que nele suspeitam alguns dos seus admiradores e nem é possível, sem injustiça, equipará-lo ao autor de Brás Cubas [...]. Outra lembrança que conservo vivamente é a de seu desapreço, em mais de uma ocasião manifestado, pela obra de Machado de Assis. Achava-a ou ao menos pretendia achá-la muito inferior à de Aluísio de Azevedo, que afirmava ser o nosso maior romancista. É muito possível que entrasse em tais manifestações menos uma convicção firmada do que o ressentimento de quem, zeloso ao extremo de sua própria originalidade, não tolerava de bom grado as filiações literárias que esboçava a crítica do tempo [...]. O certo é que, apesar de tudo quanto podiam ter de comum, os dois romancistas cariocas se separavam num ponto essencial. Enquanto os escritos de Lima Barreto foram, todos eles, uma confissão mal disfarçada, conforme se disse acima, os de Machado foram antes uma evasão e um refúgio. [...] Machado de Assis aristocratizou-se por esforço próprio e da disciplina que para isso se impôs, ficou em seu temperamento e em sua obra uma vertente inumana, que deveria desagradar os espíritos menos capazes de contensão. Desagradaria, como se sabe, a um Patrocínio, e desagradou certamente a Lima Barreto.57

Começava a se delinear, então, um tipo de recepção que aprisionava a obra de Lima Barreto a um preconceito contra o realismo - considerado um estilo pouco imaginativo e que concedia demais à realidade, sem recorrer à imaginação criadora -, e nessa régua a obra do autor de Triste fimsaía avariada; sobretudo quando comparada à de Machado de Assis.

Não é o caso, e nem temos espaço, de aprofundar toda a crítica sobre a obra do escritor, que é, por sinal, imensa e da maior importância. Para os objetivos deste ensaio, basta destacar que parte sensível dos trabalhos acerca da produção de Lima Barreto, sobretudo da primeira metade do século XX, caracterizou a obra a partir da noção de realista; e essa não era uma adjetivação positiva. Por outro lado, o perfil autobiográfico da produção e o caráter testemunhal de seus escritos foram sublinhados, na maior parte das vezes, com certa reserva. Exemplares são as condenações de críticos como José Veríssimo, que explicitamente pede ao autor que deixe de lado sua vida pessoal em prol da construção de sua leitura: "o quadro saiu-lhe acanhado e defeituosamente composto, e a representação sem serenidade, personalíssima. Disto resultaram graves máculas na transposição".58

Guardando todas as distâncias, não só temporais como metodológicas, vale lembrar como também Antonio Candido viria a acentuar tal "defeito" da literatura de Lima Barreto:

Lima Barreto é um autor vivo e penetrante, uma inteligência voltada para o desmascaramento da sociedade e a análise das próprias emoções [...]. Mas é um narrador menos realizado, sacudido entre altos e baixos, frequentemente incapaz de transformar o sentimento e a ideia em algo propriamente criativo. A análise dos escritos pessoais contribui para esclarecer isso, mostrando inclusive de que maneira o interesse de seus romances pode estar em material às vezes pouco elaborado ficcionalmente, mas cabível enquanto testemunho, reflexão, impressão de cunho individual ou intuito social...59

O importante é que essa faceta da literatura de Lima Barreto geraria muito debate. A. Houaiss afirmaria que a literatura de nosso autor era sobretudo "comunicação militante" e que ele não escrevia para divertir seus leitores mas para incomodá-los.60 Já Lúcia Miguel Pereira, em interpretação distinta, mostra como Lima Barreto "estatelou a revolta".61

Com certeza, até mesmo Lima sabia que o que estava em questão, naquele contexto, não era só uma estratégia de inserção institucional, mas principalmente a defesa de um estilo diferente para a literatura nacional. É ele próprio que, em artigo para A Época, do dia 31 de agosto de 1916, define a literatura que faz como oposta a tudo, e endereça o artigo ao "senhor Coelho Neto, o sujeito mais nefasto que tem aparecido em nosso meio intelectual".62 E continua: "Não desejamos mais uma literatura contemplativa. Não é mais uma literatura plástica que queremos, a encontrar beleza em deuses para sempre mortos...".63 Assis Barbosa, ao citar o mesmo artigo, afirma que o mesmo tinha alvo certo - "os cardeais do academicismo que então se encontrava no pináculo de sua carreira" -64 e arrisca perguntar se Lima não estaria incluindo entre eles também Machado de Assis. O fato é que, para Assis Barbosa, Machado e Lima correspondiam a dois polos, duas mentalidades: "um fazia literatura pela literatura",65 ao passo que o outro "desejava algo mais que isso".66 São tão diferentes como Apolo o era de Dionísio. Machado teve mais tempo para se realizar. Viveu perto de setenta anos. Lima desapareceria aos 41, idade em que Machado começava a atingir "o caminho da perfeição".67

Além de ter sido o maior biógrafo de Lima Barreto, Francisco de Assis Barbosa foi também uma espécie de defensor necessário do escritor. Difícil apostar na hierarquia que faz Assis Barbosa, como se só um dos lados quisesse "algo mais" da literatura. O que sim existiam eram apostas diferentes, fadadas a mais ou menos sucesso.

Na crítica literária, a reavaliação da importância de Lima deve-se, em boa parte, não só a Assis Barbosa como a Alfredo Bosi, que no ensaio de 1969 - "Ficção (3): Lima Barreto e Graça Aranha" - o considera "realista e intencional".68 Mostra ainda como o corpo crítico da obra se realiza na leitura ideológica mas também no estilo. Interessante notar que até mesmo Bosi busca semelhanças entre Machado e Lima. No entanto, as encontra na linguagem dos "mas", do talvez, do "embora". Aí estariam não distinções insolúveis mas indícios de modernidade aparentados.69

Por fim, em trabalho mais recente, Roberto Schwarz alinha Lima Barreto, Joaquim Nabuco e Machado de Assis como autores de obras que "não criaram bolor, e não sofreram a desqualificação da História. São escritores que buscam educar o seu viés na figuração e análise das relações sociais, de que formavam parte e a cuja filtragem sujeitaram o vagalhão naturalista".70 Nada como retomar o artigo do próprio Schwarz, "Leituras em competição", no qual, com o objetivo de analisar a recepção da obra de Machado de Assis no exterior, o crítico coloca em confronto e tensão a velha e boa dialética do local e do universal. No exterior, Assis deixa de ser particular para virar universal, por conta das referências, inclusive, a autores igualmente universais. À guisa de provocação valeria manter o mesmo paradoxo para pensar na recepção acidentada de Barreto, sobretudo quando comparado a e sob a luz de Machado. Condenado pela crítica por ser por demais "local", e sofrivelmente voltado para a realidade mais imediata, Lima Barreto, mais uma vez na contramão, recupera questões clássicas. Romances são mais que documentos históricos, diz Schwarz no artigo voltado para a obra do autor de Quincas Borba: "notória por desacatar os preceitos elementares da verossimilhança realista, a arte machadiana fazia dos ordenamentos nacionais a disciplina estrutural de sua ficção". Esse movimento de acentuar "decalagens", deslocamentos que trapaceiam com uma suposta prisão ao local, talvez aproxime mais que separe nossos autores; ambos empenhados num certo, como diria Schwarz, "universal moderno".71

Essa opção, literária, política e institucional, por uma arte voltada para o social, e por Lima definida como uma literatura militante, representou uma saída mas também um impedimento. Era uma porta de escape urdida na luta por um "lugar ao sol" no jardim da literatura. Mas era também uma barreira, uma vez que o recurso caiu pesado na história da crítica literária brasileira.

Como escreve Trouillot, "o presentismo é sempre uma forma de anacronismo" e estamos condenados a olhar o passado com lentes de nosso tempo.72 Se Lima Barreto converteu-se, com certeza, em vítima de seu tempo e da crítica, fez também vítimas, assim como construiu potenciais espaços e projetos de inserções. Portanto, dar a ele um lugar apenas passivo é fazer pouco desse personagem, e espero que a comparação com Machado de Assis ajude a iluminar essa fronteira por certo ambivalente, polêmica e igualmente combativa.

Claro que não é o caso de apostar no empate técnico de nosso Fla X Flu, e muito menos no idílico "viveram felizes para sempre". A ideia foi sobretudo explorar como, no movimento de construção de identidades, se faz da "diferença" algo a mais. Alimentada pelo próprio Lima, por partidários e também por adversários, a cisão entre a dupla estava fadada a se converter em matéria de aposta. Já nosso objetivo aqui foi antes recuperar os passos e a engenharia desse "clássico nacional", e revelar como aí existiam cisões de estilo, devidamente acentuadas por estratégias premeditadas de Lima, que sempre realizou (para o bem e para o mal) uma literatura impregnada de si mesmo. Talvez por isso, ela fosse habitada por muitos fantasmas, atendendo um deles pelo nome de Machado de Assis.

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1Gostaria de agradecer a André Botelho pela leitura detalhada e crítica do artigo.

2FERNANDES, A estratificação do negro no mundo de classes, 2008.

3BARRETO, Carta Aberta, p. 1.

4MEYER, Folhetim: uma história.

5BARRETO, Diário íntimo, p. 55.

6Ibidem.

7Artigo publicado sem identificação de autoria, A Época, 18 fev. 1816, p. 2.

8Ibidem.

9Artigo publicado sem identificação de autoria, A Época, 28 fev. 1816.

10Apud BARBOSA, A vida de Lima Barreto: 1881-1922, p. 78.

11GUANABARA, A Imprensa.

12Floreal - Revista Bimensal de Crítica e Literatura,p. 5.

13Idem, p. 4-5.

14Manuel Bastos Tigre (Recife, 1882 - RJ, 1957). Escritor de longa atuação na imprensa carioca. Foi também autor de várias revistas, operetas e vaudevilles. Bastos Tigre foi amigo de Lima Barreto desde o período da Escola Politécnica.

15Domingos Ribeiro Filho (1875-1942) foi autor de vários romances, entre eles O cravo vermelho, de 1907. Como jornalista, foi secretário do semanário A Avenida, no qual colaborava Bastos Tigre. Também foi um dos fundadores da revista Floreal, em 1907, ao lado de Lima Barreto, Curvelo de Mendonça e Elísio de Carvalho. Trabalhava na Secretaria da Guerra, onde conheceu Lima Barreto. Conhecido por suas defesas libertárias e simpatia declarada pelo anarquismo, Ribeiro Filho era um misto de boêmio e revolucionário.

16Manuel Curvelo de Mendonça (Sergipe, 1870 - Sergipe, 1914) era advogado, professor, romancista e jornalista. Ao lado de Fábio Luz, Antonio Noronha Santos e Domingos Ribeiro Filho formava o grupo "libertário" que, capitaneado por Lima Barreto, criou a revista Floreal.

17PEREIRA, História da literatura brasileira - Prosa de ficção - de 1870 a 1920, p. 438.

18Frase de época, usada pelo historiador José Murilo de Carvalho. CARVALHO, Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, p. 31.

19Vide, entre outras, as críticas de Ângela de Castro Gomes à ideia de uma "República Velha". Cf. GOMES,: ABREU, A nova "Velha" República: um pouco de história e historiografia. Faço, no Terceiro Volume da coleção História do Brasil Nação (Rio de Janeiro: Objetiva. 2013), um apanhado sobre o debate.

20CARVALHO, cit.

21BARRETO, Diário íntimo, p. 43.

22BARRETO, A.B.C.,p. 2.

23BARRETO, A.B.C., p. 2.

24Ibidem.

25Ibidem.

26Ibidem.

27Ibidem.

28Ibidem.

29Ibidem.

30Ibidem.

31Ibidem.

32Ibidem.

33Ibidem.

34GINZBURG, Mitos, emblemas e sinais: raízes do método indiciário.

35BARRETO, A casa do espanto, p. 2.

36Ibidem.

37BARRETO, A corte do Itamaraty, p. 3.

38BARRETO, Esta minha letra, p. 69.

39Ibidem.

40Ibidem.

41Idem, p. 70.

42BARRETO, Manifestações políticas, p. 2.

43BARRETO, Três gênios da secretaria, p.2.

44Ibidem.

45Ibidem.

46BARRETO, Três gênios da secretaria.

47 Vide CUNHA, Manuela Carneiro. Negros estrangeiros.São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

48 BARRETO, Conversas, (manuscrito). Coleção Lima Barreto da Fundação Biblioteca Nacional (I-06, 34, 0914).

49 BROCA, A vida literária no Brasil - 1900.

50Idem, p. 81.

51Ibidem.

52Apud BARBOSA, cit., p. 199.

53A transcrição presente no volume das Correspondências (Obra completa, Brasiliense, 1956) vem da versão da carta publicada na Revista do Brasil, maio de 1941, p. 54.

54FIGUEIREDO, O combate, p. 1.

55Ibidem.

56BARRETO, Obras completas, vol. VII, p. 253.

57HOLANDA, Em torno de Lima Barreto.

58 CANDIDO, Lima Barreto, p. 30-31.

59CANDIDO, Os olhos, a barca e o espelho, p. 549-550.

60HOUAISS, Prefácio de Vida Urbana.

61PEREIRA, cit., p. 278.

62 BARRETO. A Época, p. 2.

63Ibidem.

64Ibidem.

65Ibidem.

66Ibidem.

67BARBOSA, cit., p. 198.

68BOSI, Ficção (3): Lima Barreto e Graça Aranha, p. 65

69Para uma avaliação mais sistemática vide, entre outros, SANTOS FREIRE, A concepção de arte em Lima Barreto e Leon Tolstói: divergências e convergências.

70SCHWARZ, Duas meninas, p. 115.

71SCHWARZ, Leituras em competição, p. 43.

72TROUILLOT, Silencing the Past: Power and the Production of History, p. 8.

Recebido: 15 de Setembro de 2014; Aceito: 15 de Outubro de 2014

LILIA MORITZ SCHWARCZ é professora titular no Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e Global Scholar na Universidade de Princeton. É autora, entre outros, de Retrato em branco e negro (São Paulo, Companhia das Letras, 1987), O espetáculo das raças (São Paulo, Companhia das Letras, 1993 e New York, Farrar Strauss & Giroux, 1999), As barbas do Imperador - D. Pedro II, um monarca nos trópicos (São Paulo, Companhia das Letras, Prêmio Jabuti/ Livro do Ano e New York, Farrar Strauss & Giroux, 2004), No tempo das certezas (coautoria Angela Marques da Costa, São Paulo, Companhia das Letras, 2000), Símbolos e rituais da monarquia brasileira (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000) e Racismo no Brasil (São Paulo, Publifolha, 2001), A longa viagem da biblioteca dos reis (com Paulo Azevedo, São Paulo, Companhia das Letras, 2002), O livro dos livros da Real Biblioteca (Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional/Odebrecht, 2003), Registros escravos (Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 2006) e O sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e seus trópicos difíceis (Companhia das Letras, 2008. Prêmio Jabuti: melhor biografia 2009).