Francílio B. S. de M. Trindade

 


Nada turbava aquela vida austera:
Calmo, traçada a túnica severa,
Impassível, cruzando a passos lentos
As aléias de plátanos, - dizia
Das faculdades da alma e da teoria
De Platão aos discípulos atentos.

Ora o viam perder-se, concentrado,
No labirinto escuso de intricado,
Controverso e sofístico problema,
Ora os pontos obscuros explicando
Do Timeu, e seguro manejando
A lâmina bigúmea do dilema.

Muitas vezes, nas mãos pousando a fronte,
Com o vago olhar perdido no horizonte,
Em pertinaz meditação ficava.
Assim, junto às sagradas oliveiras,
Era imoto seu corpo horas inteiras,
Mas longe dele o espírito pairava.

Longe, acima do humano fervedouro,
Sobre as nuvens radiantes,
Sobre a planície das estrelas de ouro;
Na alta esfera, no páramo profundo
Onde não vão, errantes,
Bramir as vozes das paixões do mundo:

Aí, na eterna calma,
Na eterna luz dos céus silenciosos,
Voa, abrindo, sua alma
As asas invisíveis,
E interrogando os vultos majestosos
Dos deuses impassíveis...

E a noite desce, afuma o firmamento...
Soa somente, a espaços,
O prolongado sussurrar do vento...
E expira, às luzes últimas do dia,
Todo o rumor de passos
Pelos ermos jardins da Academia.

E, longe, luz mais pura
Que a extinta luz daquele dia morto
Xenócrates procura:
- Imortal claridade,
Que é proteção e amor, vida e conforto,
Porque é a luz da verdade.


II


Ora Laís, a siciliana escrava
Que Apeles seduzira, amada e bela
Por esse tempo Atenas dominava...

Nem o frio Demóstenes altivo
Lhe foge o império: dos encantos dela
Curva-se o próprio Diógenes cativo.

Não é maior que a sua a encantadora
Graça das formas nítidas e puras
Da irresistível Diana caçadora;

Há nos seus olhos um poder divino;
Há venenos e pérfidas doçuras
Na fita de seu lábio purpurino;

Tem nos seios - dois pássaros que pulam
Ao contacto de um beijo, - nos pequenos
Pés, que as sandálias sôfregas osculam.

Na coxa, no quadril, no torso airoso,
Todo o primor da calipígia Vênus
- Estátua viva e esplêndida do Gozo.

Caem-lhe aos pés as pérolas e as flores,
As dracmas de ouro, as almas e os presentes,
Por uma noite de febris ardores.

Heliastes e Eupátridas sagrados,
Artistas e Oradores eloqüentes
Leva ao carro de glória acorrentados...

E os generais indômitos, vencidos,
Vendo-a, sentem por baixo das couraças
Os corações de súbito feridos.


III


Certa noite, ao clamor da festa, em gala,
Ao som contínuo das lavradas taças
Tinindo cheias na espaçosa sala,

Vozeava o Ceramico, repleto
De cortesãs e flores. As mais belas
Das heteras de Samos e Mileto

Eram todas na orgia. Estas bebiam,
Nuas, à deusa Ceres. Longe, aquelas
Em animados grupos discutiam.

Pendentes no ar, em nuvens densas, vários
Quentes incensos índicos queimando,
Oscilavam de leve os incensários.

Tíbios flautins finíssimos gritavam;
E, as curvas harpas de ouro acompanhando,
Crótalos claros de metal cantavam...

O espúmeo Chipre as faces dos convivas
Acendia. Soavam desvairados
Febris acentos de canções lascivas.

Via-se a um lado a pálida Frinéia,
Provocando os olhares deslumbrados
E os sensuais desejos da assembléia.

Laís além falava: e, de seus lábios
Suspensos, a beber-lhe a voz maviosa,
Cercavam-na Filósofos e Sábios.

Nisto, entre a turba, ouviu-se a zombeteira
Voz de Aristipo: "És bela e poderosa,
Laís! mas, por que sejas a primeira,

A mais irresistível das mulheres,
Cumpre domar Xenócrates! És bela...
Poderás fasciná-lo se o quiseres!

Doma-o, e serás rainha!" Ela sorria.
E apostou que, submisso e vil, naquela
Mesma noite a seus pés o prostraria.
Apostou e partiu...


IV


Na alcova muda e quieta,
Apenas se escutava
Leve, a areia, a cair no vidro da ampulheta...
Xenócrates velava.

Mas que harmonia estranha,
Que sussurro lá fora! Agita-se o arvoredo
Que o límpido luar serenamente banha:
Treme, fala em segredo...

As estrelas, que o céu cobrem de lado a lado,
A água ondeante dos lagos
Fitam, nela espalhando o seu clarão dourado,
Em timidos afagos.

Solta um pássaro o canto.
Há um cheiro de carne à beira dos caminhos...
E acordam ao luar, como que por encanto,
Estremecendo, os ninhos...

Que indistinto rumor! Vibram na voz do vento
Crebros, vivos arpejos.
E vai da terra e vem do curvo firmamento
Um murmurar de beijos.

Com as asas de ouro, em roda
Do céu, naquela noite úmida e clara, voa
Alguém que a tudo acorda e a natureza toda
De desejos povoa:

É a Volúpia que passa e no ar desliza; passa,
E os coraçóes inflama...
Lá vai! E, sobre a terra, o amor, da curva taça
Que traz às mãos, derrama.

E entretanto, deixando
A alva barba espalhar-se em rolos sobre o leito,

Xenócrates medita, as magras mãos cruzando
Sobre o escamado peito.

Cisma. E tão aturada é a cisma em que flutua
Sua alma, e que a regiões ignotas o transporta,
- Que não sente Lais, que surge seminua
Da muda alcova à porta.


V


É bela assim! Desprende a clâmide! Revolta,
Ondeante, a cabeleira, aos níveos ombros solta,
Cobre-lhe os seios nus e a curva dos quadris,
Num louco turbilhão de áureos fios subtis.
Que fogo em seu olhar! Vê-lo é a seus pés prostrada
A alma ter suplicante, em lágrimas banhada,
Em desejos acesa! Olhar divino! Olhar
Que encadeia, e domina, e arrasta ao seu altar
Os que morrem por ela, e ao céu pedem mais vida,
Para tê-la por ela inda uma vez perdida!
Mas Xenócrates cisma...

É em vão que, a prumo, o sol
Desse olhar abre a luz num radiante arrebol...
Em vão! Vem tarde o sol! Jaz extinta a cratera,
Não há vida, nem ar, nem luz, nem primavera:
Gelo apenas! E, em gelo envolto, ergue o vulcão
Os flancos, entre a névoa e a opaca cerração...

Cisma o sábio. Que importa aquele corpo ardente
Que o envolve, e enlaça, e prende, e aperta loucamente?
Fosse cadáver frio o mundo ancião! talvez
Mais sentisse o calor daquela ebúrnea tez!...

Em vão Laís o abraça, e o nacarado lábio
Chega-lhe ao lábio frio... Em vão! Medita o sábio,
E nem sente o calor desse corpo que o atrai,
Nem o aroma febril que dessa boca sai.

E ela: "Vivo não és! Jurei domar um homem,
Mas de beijos não sei que a pedra fria domem!"

Xenócrates, então, do leito levantou
O corpo, e o olhar no olhar da cortesã cravou:

"Pode rugir a carne... Embora! Dela acima
Paira o espírito ideal que a purifica e anima:
Cobrem nuvens o espaço, e, acima do atro véu
Das nuvens, brilha a estrela iluminando o céu!"

Disse. E outra vez, deixando
A alva barba espalhar-se em rolos sobre o leito,
Quedou-se a meditar, as magras mãos cruzando
Sobre o escamado peito.

Obtido em "http://pt.wikisource.org/wiki/A_Tenta%C3%A7%C3%A3o_de_Xen%C3%B3crates"


 Em A Tentação de Xenócrates, Olavo Bilac descreve um episódio erótico e exótico. De um lado, o poeta descreve o sábio-filósofo, meditando nos jardinas a serviço da sabedoria, cria um ambiente silencioso e tranqüilo,  próprio para meditar, segundo a visão apolínea, parnasiana, fazendo uma fusão entre Xenócrates e Cristo, há uma intertextualidade, provocando, com isto, um significado religioso, sacralizado, ou seja, isola o filósofo moralista, para que ele fique distante, valorizando a razão, o espírito, o conhecimento abstrato, representando a interdição erótica do poema. Para isso o poeta utiliza-se dos códigos dos sentidos: sonoro (silêncio), topológico (sobre, longe), visual (radiante, luminosidade).
 Na Segunda parte, Olavo Bilac descreve Laís, uma escrava cortesã, o outro momento de A Tentação de Xenócrates, do outro lado, a emoção, a carne/corpo aquecem o clima erótico. A metáfora de mulher desejo, perigosa e profana, todavia bela, uma beleza de Afrodite e o instinto de Diana, ou seja, uma mulher sensual e inteligente. Ela sabe onde está  e o que quer, está em um ambiente de barulho e acompanhada de pessoas, representando as forças carnais e profanas. Pode-se chamar, assim, de tentação, aludindo à passagem bíblica, Bilac trabalha uma mulher sensual e perigosa dentro de uma concepção moralista e machista, cuja sexualidade feminina representasse a prostituição em uma primeira leitura. Em um ambiente de Laís, o poeta tece uma descrição de uma orgia no Palácio, onde se encontra filósofos, artistas, políticos, generais, cidadãos.
 Na terceira parte desse poema, envolve um clima festivo, aparecendo grandes personas do mundo grego com Frinéia, Aristipo, as mulheres mais belas de Samos e Mileto, entre outros, predominando a emoção, o instinto e o desejo.
 Na Quarta parte, que é o momento de equilíbrio no poema A Tentação de Xenócrates, Bilac descreve os dois espaços, os dois ambientes. Essa transição representa o momento do duelo entre as forças do bem e do mal, Xenócrates versos Laís, a plasticidade do movimento de Laís, o movimento da natureza e em outra imagem, o filósofo está meditando, parado e silencioso, propicia uma imagem cinematográfica das duas tomadas, da descrição dos dois espaços diferentes.
 Na Quinta parte, é o duelo entre Laís e Xenócrates, é o fechamento do texto A Tentação de Xenócrates, de Olavo Bilac, nessa parte, Laís representa o símbolo do desejo, da mulher fatal, da mulher sedutora, da mulher caçadora e do pecado, enquanto que Xenócrates é o símbolo da luz, da pureza, do equilíbrio e sobriedade.
 Como a objetividade racional parnasiana consegue o equilíbrio entre o conteúdo subjetivo, o fechamento, portanto, é descrito a perplexidade de Laís diante de Xenócrates. O filósofo não se deixar ser seduzido por Laís. O filósofo simboliza Cristo. Laís simboliza a serpente, a tentação. Enfim, o desejo e as emoções são retiradas do eu lírico em nome de uma razão e objetividade simétrica, bela.
 A TENTAÇÃO DE XENÓCRATES, Olavo Bilac
I – PARTE
Descrição do sábio Xenócrates, meditando nos jardins
- O homem a serviço da sabedoria;
- Cria um ambiente propício para meditação;
- Cria uma atmosfera de tranqüilidade;
- Ele faz uma fusão entre o filósofo e Cristo;
- Ele vale-se do suporte bíblico;
- Incorporou um significado religioso;
CABEÇA                                               CORAÇÃO
RAZÃO                                         EMOÇÃO
ESPÍRITO                                              CARNE
ABSTRATO                                           CONCRETO
FECHAMENTO                                     ABERTURA
INTERDIÇÃO                                        AQUECIMENTO
- Onde Xenócrates está, não ouve os desejos, as pulsações;
- Valoriza o espaço que se encontra o sábio;
- O filósofo pertence ao Olimpo, lugar dos eleitos, faz através dos códigos dos sentidos:
SONORO, TOPOLÓGICO, VISUAL.
- SONORO: SILÊNCIO
- TOPOLÓGICO: LONGE, ACIMA, SOBRE, FIRMAMENTO
- VISUAL: RADIANTE, LUMINOSIDADE
- O poeta valoriza o espaço da sabedoria:
RAZÃO                                        EMOÇÃO
DISTANCIAMENTO                   PROXIMIDADE
ESPÍRITO                                     CORPO/CARNE
FRIEZA                                         CALOR
 II – PARTE
- Continua a descrição;
- Descrição de Laís;
- Especialista em seduzir figuras ilustres;
CORAÇÃO = CARNE = DESEJO
- Desenvolve aspectos opostos da primeira parte;
- Raciocínio dualista;
- Valoriza a razão parnasiana;
- Laís (a Diana caçadora);
- Opera uma inversão (coloca o filósofo abaixo da rainha dos prazeres)
III – PARTE
- Descrição da orgia do palácio;
- Jogo de inversões;
- Descreve uma orgia;
- Reativa os códigos dos sentidos;
- Seqüência de aquecimento;
- Propicia um desafio;
- Laís aceita-o e parte.
IV – PARTE
- Descreve os dois ambientes;
- Laís  X   Xenócrates;
- Emoção  X Razão;
- Laís movimenta-se em busca de Xenócrates;
- A natureza manifesta-se;
- Harmonia estranha;
- É a Diana que passa, Laís caçadora;
- É a volúpia que passa;
- Xenócrates medita.
V – PARTE
- Laís, símbolo do desejo, da mulher fatal, mulher sedutora, fica perplexa!
- Xenócrates, símbolo da pureza, do equilíbrio, da sobriedade;
- Há um duelo entre Laís e Xenócrates;
- Laís perde a aposta.
- Vence a razão e a sobriedade

 

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