Dílson Lages Monteiro – da Academia Piauiense de Letras

“O que proteges tu, cofre dourado do saber?”. Bem que eu poderia arremessar a pergunta no meio do poema que há dias rabisco e reescrevo, na tentativa da imagem natural e cotidiana, sem retórica, saborosamente sinestésica. Ou a mais coloquial possível.  Ainda que banal seja a imagem. Associando-a, haveria de encontrar a imagem suave e espontânea do clima de junho, senão, valia ao menos o exercício.

A força da curiosidade é mais válida e fico apenas com a indagação. Ela basta. A indagação, que também é a curiosidade. A ocasião convém. Mas o cofre dourado nem dourado o é. Em minha lembrança, vi-o sóbrio, de um cinza reluzente, e a danada da vontade de espiar seu interior desenhou formas que me levam a crer: em toda história antiga, tem mesmo  muita invenção. Enxerga-se mesmo aquilo que a memória quer.

Nem dourado o é: de um marrom envelhecido, espalhado pelos quatro cantos. De cima a baixo, em todas as extremidades. Marrom, marrom. Ao centro, caramelo. Um quadrado caramelo. Jurava que o tinha visto cinza. Conotação, de algum modo, de seu sentido simbólico, em uma casa de palavras. Das cinzas, brota a fertilidade. O sentido descoberto e redescoberto, na imaginação de quem o vê. Tal qual minha curiosidade. Marrom ou cinza, que diferença faz?

Em sendo marrom e o enxergasse cinza, é certo também que dinheiro nele não havia. Dinheiro? Ora, dinheiro! Não ali que se guardam ampulhetas! Em meio a livros em que se enfurnaram as curiosidades e o labirinto das recordações imorredouras? Em meio ao pó do tempo e da circulação reiterada da esperança e da condição transitória do ser? Ora, dinheiro! Ele, o objeto, valia mais do que tudo isso: protegia o inominável. Fechado como estava: inominável.

 

Era um cofre, e guardou manuscritos e um pedaço das horas. Protegeu para postergar. Sua sina, adiar. Até que se perdeu – o seu segredo, as suas chaves – em definitivo, suponho por quase três décadas, se é que já não era de estimação de outras eras (quem vai saber, senão um desses espíritos que nunca desaparecem?). De um canto a outro: intacto.

O segredo revelado: papeis de um tempo de antanho.

O presidente da Academia Piauiense de Letras, Nelson Nery Costa, em seu idealismo característico, tomado pelo espírito de todas as épocas, anteviu na máquina de ferro preciosidades em papel... Contratou-se um chaveiro. Depois de horas, com a perícia de se meter entre segredos, girando, girando, a parte frontal deslizou-se lenta e facilmente a oeste. A  abertura de baixo cedeu e a luz invadiu o minúsculo espaço abarrotado de pastas. Nele, uma a uma, contava-se em documentos esparsos a história daquela casa, na já distante década de 1980, principalmente. Assinaturas de acadêmicos em reuniões, ofícios, recibos, manuscritos etc. Em uma das pastas, O. G. Rego de Carvalho, o grande romancista, assíduo a reuniões, conforme lista de presenças.

O cofre em que professor A. Tito Filho, presidente da Casa de Letras por 21 anos sucedâneos, ia depositando o cotidiano de vivências de sua administração. No cofre, os 21 anos dos atos e despachos do velho professor em favor da cultura. Ali, recorte de coluna publicada na Folha de São Paulo, noticiando a publicação de Chico’s Bar, livro de sua autoria:

Chico's Bar repercute na Folha de S. Paulo.

Entre os documentos arquivados por A. Tito Filho, o requerimento de inscrição  de O. G. Rêgo de Carvalho à cadeira 6 daquela casa. Escrito a punho:

 

                        Carta de O. G. Rêgo de Carvalho solicitando inscrição na APL

Também a punho solicitação de igual teor do jornalista Carlos Castello Branco:

Carlos Castello Branco solicitando inscrição em vaga na APL.

Longa, a hora. O trabalhador exauriu-se nas recorrentes tentativas de dar cabo do serviço por inteiro. O chaveiro teve que ir. Muito tentara, em vão, vencer os caminhos para que o compartimento superior do cofre se revelasse novamente ao mundo e, quem sabe, reluzisse sob a forma de palavras alguma arte ainda inédita e de valor. Quem sabe os manuscritos de A Balaiada, um dia sob a posse de professor Arimathea, naquela casa.

O chaveiro voltou no dia seguinte. A habilidade em contornar segredos desfaleceu-se no vento da manhã de junho. Ficou a promessa para mais um dia seguinte. E a curiosidade. Mais uma tentativa para não deixar a imaginação e o serviço incompletos. E, na atmosfera, a presença viva e curiosa da energia luminosa de A. Tito Filho. “O que proteges tu,  cofre dourado do saber?”

 

P.S.: Veio novo chaveiro. À custa de repetidas manobras, o experiente descobridor de exatidões, após minúsculo furo indispensável sob a superfície fechada,  revelou, enfim, a cavidade superior do cofre. Para surpresa de quem aguardava algum manuscrito raro, vazio. Diante do vácuo que era a parte do cofre, agora conhecida em seu interior, ao levantar-se dos olhos, o quadro do velho mestre reluziu na parede da escada um pensamento natural: “A cultura é mesmo o lugar do sonho e da esperança”. 

Foto do professor e cronista A. Tito Filho no acesso ao primeiro piso da APL