(Francisca de Lourdes Souza Louro e

José Aldemir de Oliveira - MANAUS DE DOIS RIOS, GENTES E MATAS: literatura e geografia dos sentimentos)

ROGEL SAMUEL -- especial para Entretextos

Nesse livro Manaus é nomeada como “possível”, não como realidade espacial, organizada em ruas e praças que se podem cursar percorrer circular.

A cidade é literariamente “sonhada”.

São muitas as possibilidades de acesso ao sentido dessa cidade que tem suas imagens emolduradas em movimentos de tempo e de espaço encontrados nos três romances de Milton.

No livro Manaus é nomeada logo como “possível”, não é uma real realidade espacial, organizada em ruas e praças que se podem cursar percorrer circular, mas literariamente “sonhar”.

Milton já disse que Manaus e a Floresta são duas “mentiras”.

São “muitas possibilidades de acesso à cidade ... as imagens emolduradas com movimentos de tempo e de espaços presentes nos três romances”.

Sua decadência começa quando:

a) Desaparece a “cidade flutuante” (quando seus habitantes vão para a periferia);
b) São aterrados os igarapés;
c) Aparece a “Zona Franca”.

Nos romances de Hatoum eclodem o poder da fantasia e da profecia sobre que penetram em cada recanto do universo manauense, e os leitores se reconhecem na trama dessas estórias que apresentam personagens, enredos e paisagem onde se justificam e se concentram os elos estruturantes e se possa apreciar a cidade, a floresta, o rio, cenários da natureza e dos espaços reconstruídos. Ou onde se descortina a fantasia da vida amazônica.

Os autores mostram que a destruição de Manaus acontece desde que foram aterrados os igarapés para a criação de solos adequados para a habitação, com a destruição da floresta, a modificação dos modos de vida e, também, quando proletários foram expulsos para as periferias e aí criaram as contradições, reinventaram o cotidiano na tentativa de um novo espaço, encheram a cidade de mistério, de enigmas e de descobertas. As casas da cidade flutuante foram retiradas e seus moradores mais ricos transferidos para os Conjuntos Residenciais de Flores e da Raiz.

No período da borracha, Manaus é a cidade das avenidas, cafés, do teatro, palacetes de um urbanismo higienizado, organicista, construído pela racionalidade que se estabelece a partir da abertura de ruas e de aterro de igarapés.

Era um urbanismo cuja finalidade era a tentativa, por meio da cons¬trução de equipamentos urbanos e de infraestrutura, de soluções para os grandes problemas da cidade e de suas funções urbanas.

Esta cidade, mais que uma cidade real, fazia parte do imaginário da elite extrativista.

Já os romances de Hatoum apresentam modos de viver que fundem horizontes geográficos e históricos. Sob alguns aspectos a obra de Hatoum apresenta uma cidade que empareda os habitantes entre os espaços históricos.

Manaus ameaçada diante da grandeza do rio e da floresta, provocando uma de instabilidade emocional, dramas vividos nesse espaço.

O que provoca, nos romances de Milton, a duplicidade do movimento dos que chegam e dos que partem, dos que não queriam vir, tampouco partir.

Nos três romances de Hatoum se representam as metamorfoses da realidade, seja vivida seja concebida como irreal.

O efeito estético-literário se traduz em: Sair da cidade.

Sair de um espaço e de um tempo.

“Já imaginaste o privilégio de alguém que ao deixar o porto de sua cidade pode conviver com outro tempo?” escreveu Hatoum.

A cidade sonhada e a cidade real mostram bem as faces das tensões humanas nas descrições de relações amorosas e familiares.

O arraigado valor que a cidade produz em seus habitantes gera opressão e violência favorecida pela falta de comunicação entre os sujeitos.

Halim, homem arredio, refugia-se na solidão das outras pessoas, longe da família.

Toda cidade é uma fantasia que se insurge so-mente no texto.

O chão da narrativa não é o mesmo de hoje, por isso se tece a melancolia da recordação e a falta de ternura em descobrir-se num passado em que não se identifica o leitor com o agora tão diverso e cruel.

Era Manaus dos igarapés e dos cursos de águas cristalinas, limpas, com a floresta ao redor, com a abundância da natureza.

Havia também muito tempo para viver, para as condições humanas.

As ne¬cessidades de tempo e de trabalho eram menores.

A população gozava de festas, de peixadas, do banho no igarapé, de visitas, de ir ao coreto ver a banda tocar, e apanhar frutas no quintal, sentir os cheiros, os gostos da cidade.

Neste sentido, produzia-se espaço-tempo enquanto dimensão e renovação da vida.


Até a década de sessenta, Manaus era cidade- balneário, o Parque 10, a Ponta Negra, o Amarelinho, o Tarumã, os igarapés e as praias da beira do rio Negro onde se faziam piqueniques aos domingos com toda a família.

As cidades são produtos de vários tempos, tempos pretéritos cristalizados na paisagem.

A paisagem urbana não se resume ao conjunto de casas, mas contém modos de vida resultantes das relações de produção, da dialética da luta de classes, continuamente produzidas, reproduzidas, criadas e recriadas, contendo as dimensões da sociedade de cada tempo.

É o que se lê nos três romances.

Ali os narradores estão no limiar da existência.

“A narradora de Relato de um certo Oriente, filha adotiva que manda uma carta ao seu irmão também adotivo, contando as mudanças que ocorrem no tempo que estiveram ausente, um mosaico que não se junta, que não se consegue desvendar. Em Dois irmãos o narrador trava uma busca infrutífera e melancólica da identidade paterna, onde a existência confunde-se com a mais desesperadora forma de adaptação da vida. Em Cinzas do Norte os dois narradores Lavo e seus encontros furtivos, as denúncias e se entende a riqueza que se pode explo-rar pelos sentidos alargados de apelo pela natureza e Ran que fala das mulheres e da cidade. Um trata da cidade doce, simples o outro a desmonta é a cidade redesmontada pelo modernismo tardio”, escreveram os autores.